Frases de Herberto Helder

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Frases de Herberto Helder. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

A paixão é a moral da poesia: arrisquem a cabeça se querem entender; arrisquem o corpo, a sua medida, se pretendem descobrir o centro do corpo; e sim, arrisquem sobretudo o nome pessoal para ouvirem o nome de baptismo como o coroado nome da terra.

A cr√≠tica? Bem v√™: nas circunst√Ęncias em que me encontro, a cr√≠tica n√£o me poderia ajudar. Ela de resto nunca ajuda um autor. Tende afazer de mediadora entre uma linguagem e um entendimento. Ajudar√° o leitor.

A formação da linguagem é um paciente, extenso, doloroso e, muitas vezes, desesperante caminho. O erro aparece como uma constante, mas existe a possibilidade de ser sempre menor. Entre um grau máximo e um grau mínimo de erro, situa-se a evolução.

O √ļnico movimento po√©tico que me parece moderno √© o Experimentalismo. E estou a referir-me tanto ao nosso pa√≠s como √† poesia em geral. Os meus interesses est√£o de tal modo virados para ela que me √© quase imposs√≠vel dar aten√ß√£o √† poesia convencional, por mais not√°vel que seja, dentro dos seus recursos e prop√≥sitos.

Quanto ao mundo, o poema espera tudo dele menos o equívoco, embora seja o equívoco aquilo que se encontra mais à mão deste mundo.

A inocência é um estado clandestino na ditadura do mundo; tem se dar astuta, tem de recorrer a todas as torpezas para lutar e escapar.

√Č obrigat√≥rio diz√™-lo: pouca gente tem ouvidos puros. Ou m√£os limpas. Ler um poema √© poder faz√™-lo, refaz√™-lo: eis o espelho, o m√°gico objecto do reconhecimento, o objecto activo de cria√ß√£o do rosto. O eco visual se quanto a rostos fosse apenas t√™-los fora e ver.

O prest√≠gio da poesia √© menos ela n√£o acabar nunca do que propriamente come√ßar. √Č um in√≠cio perene, nunca uma chegada seja ao que for.

Todos os poemas s√£o can√ß√Ķes de eco, procuram ser confirmados. De que s√≠tio se lan√ßa a voz, que g√©nero de confirma√ß√£o se pretende? A confirma√ß√£o, sempre, do poema a si mesmo e em si mesmo.

N√£o me parece necess√°rio referir a crise das classifica√ß√Ķes liter√°rias. Caminha-se, sabemo-lo todos, para uma vis√£o total da obra liter√°ria que se n√£o podem adoptar distin√ß√Ķes afinal nunca rigorosas, sen√£o de um ponto de vista did√°ctico.

Há quem diga: não escrevo para os outros, ou: o interlocutor é inlocalizável. Os críticos respondem quase sempre à pergunta que não está ali para qualquer resposta.

Escreve-se um poema devido à suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formidável, algo que nos transformará, que transformará tudo.

Durante a vida inteira brandi em todas as direc√ß√Ķes o mesmo aparelho, a mesma arma furiosa. Fui um inocente, porque s√≥ se consegue isso com inoc√™ncia.

Existem romances imperdo√°veis, quase todos os romances contempor√Ęneos s√£o imperdo√°veis. Como √© imperdo√°vel a maioria dos poemas portugueses deste s√©culo. A bem dizer n√£o h√° nada.

Leio romances desde que perceba que n√£o est√£o a responder. Alguns s√£o extraordin√°rias m√°quinas interrogativas: “Ulisses”, “Filhos e Amantes”, “O Doutor Fausto”, “O Processo”, “A Morte de Virg√≠lio”,”O Som e a F√ļria”,”Debaixo do Vulc√£o”, “A Obra ao Negro”, “Lolita”…

O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós. De que ela se fará à margem da confiança alheia.

Quanto à psicanálise, eis a doutrina por excelência corruptora da sacralidade: o modo pior de fazer perguntas; são perguntas destinadas a obter respostas.

Não existe prosa. A menos que se refiram os escritos, em prosa ou verso, que pretendem ensinar. Não há nada a ensinar embora haja tudo a aprender. Aquilo que se aprende vem do nosso próprio ensino, vem da pergunta.

Escreva-se sempre para estar só. A escrita afasta concretamente o mundo. Não é o melhor método, mas é um.

Ninguém consegue aventurar-se na poesia coleccionando objectos Рestátuas, estatuetas, jóias, devem ser jóias vivas, olhos de leoas maternas, insuportáveis coisas que nos contemplam, morre-se de ser assim contemplado.