Cita√ß√Ķes sobre Rel√≥gios

105 resultados
Frases sobre rel√≥gios, poemas sobre rel√≥gios e outras cita√ß√Ķes sobre rel√≥gios para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Tua Boca Adormeceu

A tua boca adormeceu
parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E h√° um c√£o de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto p√°ssaros de ouro com m√£os de marfim
transplantam as √°rvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As l√°grimas que n√£o chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um len√ßol f√ļnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e n√£o o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.

Como um fabricante de armadilhas desajeitado que acaba sempre prisioneiro das engrenagens que produz, também nós inventamos o tempo e nunca temos tempo. Os nossos relógios nunca dormem. Quantas vezes o tempo é a nossa desculpa para desinvestir da vida, para perpetuar o desencontro que mantemos com ela?

Por Todos os Caminhos do Mundo

A minha poesia é assim como uma vida que vagueia
pelo mundo,

por todos os caminhos do mundo,
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar
num jardim nocturno,

ora um deserto que o simum veio modificar,
ora a miragem de se estar perto do o√°sis,
ora os pés cansados, sem forças para além.

Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe
o rumo e a hora de o atingir,
a tranquilidade de quem tem na m√£o o profetizado
de que a tempestade n√£o lhe abalar√° o pal√°cio,
a doçura de quem nada tem a regatear,
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.

Na minha vida nem sempre a b√ļssola se atrai ao mesmo
norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
com a minha noite que nem sempre é noite
como a alma quer.

N√£o sei caminhos de cor.

O mais feroz dos animais dom√©sticos √© o rel√≥gio de parede. Conhe√ßo um que j√° devorou tr√™s gera√ß√Ķes da minha fam√≠lia.

Até a Pessoa Amada Voltar

Até ela, a pessoa amada, voltar, o tempo não corre como costuma correr. Atrasa-se e detém-se. Suspende-se e atrapalha-nos. Move-se de um lado para o outro. Arrasta os lugares: aqueles onde ela está e aquele (a nossa casa) onde eu espero por ela.

Esperar é um sofrimento mas também se aprende a esperar. Olhar para um relógio é a pior coisa que se pode fazer porque esses quantificadores malévolos são contabilistas automatizados que sabem contar todos os tempos, excepto os tempos de quem ama, espera e tem medo.

N√£o s√£o capazes de contar os tempos de todas as pessoas dotadas de um corpo com cora√ß√£o e alma. Que somos todos, quer queiramos, quer n√£o. Quem √© que quer? Ningu√©m. E de que nos serve? De nada. At√© ela, a pessoa amada, voltar, a √ļnica coisa que podemos fazer √© a que mais nos custa: esperar que ela volte. Mas quando √© que ela volta? Os minutos podem n√£o ser anos mas os quartos-de-hora s√£o semanas inteiras.

Mesmo saber que ela, a pessoa amada, voltará é difícil. Até acreditamos que queira voltar. Mas preocupamo-nos: e se ela não puder voltar? Pensar nisso é como morrer vivo sem pensar nisso.

Continue lendo…

Debaixo Do Tamarindo

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela f√ļnebre de cera,
Chorei bilh√Ķes de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta √°rvore de amplos agasalhos
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da flora brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos notici√°rios que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade,
A minha sombra h√° de ficar aqui!

O Tempo e o Espírito

O tempo, embora faça desabrochar e definhar animais e plantas com assombrosa pontualidade, não tem sobre a alma do homem efeitos tão simples. A alma do homem, aliás, age de forma igualmente estranha sobre o corpo do tempo. Uma hora, alojada no bizarro elemento do espírito humano, pode valer cinquenta ou cem vezes mais que a sua duração medida pelo relógio; em contrapartida, uma hora pode ser fielmente representada no mostrador do espírito por um segundo.

Vagueio Além de Seu Sono

Vagueio além de seu sono
com alma de marinheiro
feliz de chegar a um ponto
sem previs√£o de roteiro,
mais tonto de o descobrir
que de lhe ser estrangeiro.
Teu continente a dormir
‚ÄĒ pouso de barco ligeiro ‚ÄĒ
pára os relógios num tempo
avesso a qualquer ponteiro:
nem sei se o fico vivendo
ou se te acordo primeiro.

Ci√ļme

V√£o decorrendo as horas, v√£o-se os dias,
Mas como outrora ela n√£o vem. Ci√ļme?
Olho em redor de mim, meu pobre lume,
S√£o tudo cinzas mortas, cinzas frias.

Bateu o relógio as horas do costume,
E tu n√£o vens, j√° n√£o te vejo mais…
Dos nossos dias, vivos, triunfais,
Só restam coisas mortas e sombrias.

N√£o sei que m√°goa e dor meus olhos cobre.
Sinto que alguém morreu dentro de mim.
Bate o relógio as horas, como um dobre,
A dizer, a dizer: tudo tem fim.

Vai a tarde a morrer, e um frio imenso
Cai sobre mim como um Pólo de gelo.
Junto de ti, quem estar√°, eu penso,
A beijar, em silêncio, o teu cabelo?

Nessas tardes, assim, vagas, sensuais,
Eu não quero pensar um só momento.
Se foram minhas, hoje s√£o dos mais…
Deixo-as morrer no frio esquecimento.

Os homens assemelham-se a rel√≥gios a que se d√° corda e trabalham sem saber a raz√£o. E sempre que um homem vem a este mundo, o rel√≥gio da vida humana recebe corda novamente, para repetir, mais uma vez, o velho e gasto refr√£o da eterna caixa de m√ļsica, frase por frase, com varia√ß√Ķes impercept√≠veis.

Uma Vida Esquecida

Para o Fernando Alves dos Santos

Eu conheço o vidro franja por franja
meticulosamente
à porta parado um homem oco
franja por franja no espaço
meticulosamente oco uma porta parada.

Um relógio dá dez badaladas ininterruptamente
dez badaladas por brincadeira dança
um homem com pernas de mulher
e um olhar devasso no Marte
passo por passo uma criança chora
uma √°guia e um vampiro recuados no tempo.

Para um Amigo Tenho Sempre

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse rel√≥gio n√£o marca o tempo in√ļtil.
S√£o restos de tabaco e de ternura r√°pida.
√Č um arco-√≠ris de sombra, quente e tr√©mulo.
√Č um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

A vida acontece mais do que tudo naqueles momentos que não fazes a mínima ideia do tempo que demoraram. A felicidade tem tudo menos relógio.

Agora que as Palavras Secaram

Agora que as palavras secaram
e se fez noite
entre nós dois,
agora que ambos sabemos
da irreversibilidade
do tempo perdido,
resta-nos este poema de amor e solid√£o.

No mais é o recalcitrar dos dias,
perseguindo-nos, impiedosos,
com relógios,
pessoas,
paredes demasiado cinzentas,
todas as coisas inevitavelmente
lógicas.

Que a nossa nem sequer foi uma história
diferente.
A originalidade estava toda na pólvora
dos obuses, no circunstanciado
afivelar
dos sorrisos à nossa volta
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.