Textos sobre Gr√£o

17 resultados
Textos de grão escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Nenhum Amor é Menos Ridículo que Outro

Temos, pois, que ao amor corresponde o am√°vel, e que este √© inexplic√°vel. Concebe-se a coisa, mas dela n√£o se pode dar raz√£o; assim tamb√©m √© que de maneira incompreens√≠vel o amor se apodera da sua presa. Se, de tempos a tempos, os homens ca√≠ssem por terra e morressem subitamente, ou entrassem em convuls√Ķes violentas mas inexplic√°veis, quem √© que n√£o sofreria a ang√ļstia? No entanto, √© assim que o amor interv√©m na vida, com a diferen√ßa de que ningu√©m receia por isso, visto que os amantes encaram tal acontecimento como se esperassem a suprema felicidade. Ningu√©m receia por isso, toda a gente ri afinal, porque o tr√°gico e o c√≥mico est√£o em perp√©tua correspond√™ncia. Conversais hoje com um homem; parece-vos que ele se encontra em estado normal; mas amanh√£ ouvi-lo-eis falar uma linguagem metaf√≥rica, v√™-lo-eis exprimir-se com gestos muito singulares: √© sabido, est√° apaixonado. Se o amor tivesse por express√£o equivalente ¬ęamar qualquer pessoa, a primeira que se encontra¬Ľ, compreender-se-ia a impossibilidade de apresentar melhor defini√ß√£o; mas j√° que a f√≥rmula √© muito diferente, ¬ęamar uma s√≥ pessoa, a √ļnica no mundo¬Ľ, parece que tal acto de diferencia√ß√£o deve provir de motivos profundos.
Sim, deve necessariamente implicar uma dial√©tica de raz√Ķes,

Continue lendo…

A Opini√£o Pura e Elevada

A opini√£o que se emite ou a regra que se estabelece n√£o tem que se importar com as circunst√Ęncias em que se encontram os homens nem com as possibilidades de acolhimento ou recusa que o mundo lhe oferece; o que √© hoje gr√£o seco levanta-se amanh√£ sobre as ondas do campo como a espiga mais alta e mais cheia; o culto da verdade n√£o se compadece com a adora√ß√£o dos deuses que presidem aos dias nem com a v√£ agita√ß√£o que √© de regra no formigueiro humano; cada um tomar√° o que se diz como quiser; a sua atitude, por√©m, s√≥ interessar√° enquanto fen√≥meno base para uma nova legalidade.
N√£o h√° aqui nem indiferen√ßa, nem ego√≠smo; √© mais larga a alma que a par do amor dos homens actuais sente vibrar o amor dos homens do futuro, mais forte o esp√≠rito que se orienta para o eterno; a justi√ßa sempre o ter√° a seu lado armado de todas as armas, n√£o porque sinta para ela um impulso moment√Ęneo mas porque a defende em qualquer tempo; e sempre se h√°-de recusar, sejam quais forem as raz√Ķes, a passar em claro uma injusti√ßa ou a servir-se de qualquer meio, apenas porque tal proceder se aparenta vantajoso aos seus interesses ou aos interesses dos seus amigos.

Continue lendo…

Ignor√Ęncia S√°bia

Aconteceu aos verdadeiros s√°bios o que se verifica com as espigas de trigo, que se erguem orgulhosamente enquanto vazias e, quando se enchem e amadurece o gr√£o, se inclinam e dobram humildemente. Assim esses homens, depois de tudo terem experimentado, sondado e nada haverem encontrado nesse amontoado consider√°vel de coisas t√£o diversas, renunciaram √† sua presun√ß√£o e reconheceram a sua insignific√Ęncia. (…) Quando perguntaram ao homem mais s√°bio que j√° existiu o que ele sabia, ele respondeu que a √ļnica coisa que sabia era que nada sabia. A sua resposta confirma o que se diz, ou seja, que a mais vasta parcela do que sabemos √© menor que a mais diminuta parcela do que ignoramos. Em outras palavras, aquilo que pensamos saber √© parte ‚ÄĒ e parte √≠nfima ‚ÄĒ da nossa ignor√Ęncia.

Este Livro Podia Acabar Aqui

Este livro podia acabar aqui. Sempre gostei de enredos circulares. E a forma que os escritores, pessoas do tamanho das outras, t√™m para sugerir eternidade. Se acaba conforme come√ßa √© porque n√£o acaba nunca. Mas tu, eu, os Flauberts, os Joyces, os Dostoievskis sabemos que, para n√≥s, acaba. Com um ligeiro desvio, os c√≠rculos transfor-mam-se em espirais e, depois, basta um ponto como este: . O bico de uma caneta espetada no papel. Um gesto a acertar na tecla entre , e -. Um movimento sobre um quadradinho de pl√°stico. Isto: . Repara como √© pequeno, insuficiente para espreitarmos atrav√©s dele, floco de cinza a planar, resto de formiga esmagada. Se o pud√©ssemos segurar entre os dedos, n√£o ser√≠amos capazes de senti-lo, gr√£o de areia. Mas tu ainda est√°s a√≠, ol√°, eu ainda estou aqui e n√£o poderia ir-me embora sem te agradecer. A√≠ e aqui ainda √© o mesmo lugar. Sinto-me grato por essa certeza simples. A paisagem, mundo de objectos, apenas ganhar√° realidade quando deixarmos estas palavras. At√© l√°, temos a cabe√ßa submersa neste tempo sem rel√≥gios, sem dias de calend√°rio, sem esta√ß√Ķes, sem idade, sem agosto, este tempo encadernado. As tuas m√£os seguram este livro e, no entanto,

Continue lendo…

Um Dia Bem Passado

De vez em quando acontece, um dia bem passado. Um dia que √© o contr√°rio da vida, porque desde o primeiro ao √ļltimo momento acordado, passa-se bem, como antigamente se dizia em Angola e c√°.
Um dia bem passado não pode ser planeado. Mas tem de ser protegido. Um dia bem passado é um dia que se passa quase às escondidas. Parece mais roubado do que um beijo Рe tem razão.
Um dia bem passado, como foi o √ļltimo dia de Setembro para a minha mulher e para mim, tem de meter pargos, lavagantes, ostras e beijinhos.
Na Praia das Ma√ß√£s, nos bon√≠ssimos restaurantes Neptuno e B√ļzio, as ostras s√£o sumptuosas. Mas n√£o as vendem √† d√ļzia e √† meia-d√ļzia, comme il faut. √Č ao peso, a granel, como eles as compram. √Č uma pr√°tica que irrita. Mas com toda a delicadeza, claro. Como uma p√©rola, formada pela irrita√ß√£o de um gr√£o de areia dentro de uma ostra. O peso de uma ostra (a concha mais a carne) nada diz sobre o peso do molusco. H√° ostras gordas e suculentas escondidas por conchas minimais e esguias e h√° ostras minimais e esguias escondidas por conchas gordas e suculentas.

Continue lendo…

A Virtude do Sofrimento

O sofrimento! Que divino desconhecido! Devemos-lhe tudo o que é bom em nós, tudo o que dá valor à vida; devemos-lhe a compaixão, devemos-lhe a coragem, devemos-lhe todas as virtudes. A terra não passa de um grão de areia no deserto infinito dos mundos. Mas, se o sofrimento se limita à terra, ela é maior que todo o resto do universo.

A Amizade Verdadeira e Genuína

Do mesmo modo que o papel-moeda circula no lugar da prata, tamb√©m no mundo, no lugar da estima verdadeira e da amizade aut√™ntica, circulam as suas demonstra√ß√Ķes exteriores e os seus gestos imitados do modo mais natural poss√≠vel. Por outro lado, poder-se-ia perguntar se h√° pessoas que de facto merecem essa estima e essa amizade. Em todo o caso, dou mais valor aos abanos de cauda de um c√£o leal do que a cem daquelas demonsta√ß√Ķes e gestos.
A amizade verdadeira e genu√≠na pressup√Ķe uma participa√ß√£o intensa, puramente objectiva e completamente desinteressada no destino alheio; participa√ß√£o que, por sua vez, significa identificarmo-nos de facto com o amigo. Ora, o ego√≠smo pr√≥prio √† natureza humana √© t√£o contr√°rio a tal sentimento, que a amizade verdadeira pertence √†quelas coisas que n√£o sabemos se s√£o mera f√°bula ou se de facto existem em algum lugar, como as serpentes marinhas gigantes. Todavia, h√° muitas rela√ß√Ķes entre os homens que, embora se baseiem essencialmente em motivos ego√≠stas e ocultos de diversos tipos, passam a ter um gr√£o daquela amizade verdadeira e genu√≠na, o que as enobrece ao ponto de poderem, com certa raz√£o, ser chamadas de amizade nesse mundo de imperfei√ß√Ķes. Elas elevam-se muito acima dos v√≠nculos ordin√°rios,

Continue lendo…

O Oportunismo

O oportunismo √©, porventura, a mais poderosa de todas as tenta√ß√Ķes; quem reflectiu sobre um problema e lhe encontrou solu√ß√£o √© levado a querer realiz√°-la, mesmo que para isso se tenha de afastar um pouco de mais r√≠gidas regras de moral; e a gravidade do perigo √© tanto maior quanto √© certo que se n√£o √© movido por um lado inferior do esp√≠rito, mas quase sempre pelo amor das grandes ideias, pela generosidade, pelo desejo de um grupo humano mais culto e mais feliz.
Por outra parte, é muito difícil lutar contra uma tendência que anda inerente ao homem, à sua pequenez, à sua fragilidade ante o universo e que rompe através dos raciocínios mais fortes e das almas mais bem apetrechadas: não damos ao futuro toda a extensão que ele realmente comporta, supomos que o progresso se detém amanhã e que é neste mesmo momento, embora transigindo, embora feridos de incoerência, que temos de lançar o grão à terra e de puxar o caule verde para que a planta se erga mais depressa.
Seria bom, no entanto, que pensássemos no reduzido valor que têm leis e reformas quando não respondem a uma necessidade íntima, quando não exprimem o que já andava,

Continue lendo…

A Vida não Está por Ordem Alfabética

A vida n√£o est√° por ordem alfab√©tica como h√° quem julgue. Surge… ora aqui, ora ali, como muito bem entende, s√£o miga¬≠lhas, o problema depois √© junt√°-las, √© esse montinho de areia, e este gr√£o que gr√£o sust√©m? Por vezes, aquele que est√° mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, √© precisamente esse que mant√©m unidos todos os outros, porque esse montinho n√£o obedece √†s leis da f√≠sica, retira o gr√£o que aparentemente n√£o sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas tra√ßar uns rabiscos com o dedo, contradan√ßas, caminhos que n√£o levam a lado nenhum, e continuas √† nora, insistes no vaiv√©m, que √© feito daquele aben√ßoado gr√£o que mantinha tudo ligado… at√© que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, deixaste na areia um tra√ßado estranho, um desenho sem jeito nem l√≥gica, e come√ßas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas.

Um Pedaço do Céu

– √Č verdade, Liliana. De momento, nesta tarde t√£o h√ļmida e nublada, com este fio que se nos mete pelos ossos adentro, Deus √© um caf√© bem quente e arom√°tico, feito com gr√£os acabados de moer; no ver√£o, procura Deus num belo gelado, num desses gelados t√£o saborosos, de torr√£o, de chocolate; ou de papaia e manga, porque agora os espanh√≥is tamb√©m j√° fazem gelados de manga, e de goiaba e papaia, e um dia destes at√© gelados de d√ļrio h√° de haver, embora os espanh√≥is n√£o gostem do cheiro do d√ļrio, t√£o forte, parece que lhes mete nojo. Eu tamb√©m n√£o gosto do cheiro, mas o fruto √© uma del√≠cia. Pensa que a√≠ mesmo, na geladaria da pra√ßa, est√° um peda√ßo do c√©u com que sonh√°mos, ou do c√©u que podemos alcan√ßar e que ainda n√£o nos tiraram. Senta-te com os teus filhos numa esplanada, num fim de tarde de agosto, come um gelado de manga bem cremoso, e ver√°s que √© a√≠ que est√° o Deus do ver√£o, assim como est√° no tintico o Deus do inverno. Quando os espanh√≥is chegaram para nos conquistar, n√≥s sab√≠amos que n√£o existe um s√≥ deus, mas muitos deuses, h√° um deus para cada coisa,

Continue lendo…

A Justa Medida, sem Grandezas nem Excessos

Uma grande alma distingue-se por desprezar a grandeza, e por preferir a justa medida aos excessos, j√° que a primeira se limita ao que √© √ļtil e indispens√°vel √† vida, enquanto os √ļltimos se tornam nocivos pelo pr√≥prio facto de serem sup√©rfluos. √Č assim que a fertilidade excessiva prejudica as searas, os colmos partem-se com o peso e a demasiada abund√Ęncia de gr√£o n√£o chega a amadurecer. O mesmo ocorre com as almas corro√≠das por um bem estar desmesurado, do qual usam em preju√≠zo n√£o s√≥ dos outros como de si pr√≥prias. Nenhum inimigo inflingiu a algu√©m golpes t√£o duros como aqueles que certas pessoas sofrem ocasionados pelos pr√≥prios prazeres. S√≥ uma coisa pode desculpar a imodera√ß√£o, a louca voluptuosidade de tal gente: √© que sofrem a consequ√™ncia dos seus actos.
N√£o √© sem raz√£o, ali√°s, que uma tal loucura se apodera delas: o desejo de ultrapassar os limites naturais descamba necessariamente na desmesura. A necessidade natural tem o seu termo pr√≥prio, enquanto as necessidades artificiais derivadas do prazer nunca conhecem limita√ß√Ķes. A utilidade serve de medida ao que √© indispens√°vel; mas por que padr√£o aferir o que √© sup√©rfluo? Por conseguinte, muitos afundam-se em prazeres sem os quais,

Continue lendo…

N√£o h√° Nada que Resista ao Tempo

N√£o h√° nada que resista ao tempo. Como uma grande duna que se vai formando gr√£o a gr√£o, o esquecimento cobre tudo. Ainda h√° dias pensava nisto a prop√≥sito de n√£o sei que afecto. Nisto de duas pessoas julgarem que se amam tresloucadamente, de n√£o terem mutuamente no corpo e no pensamento sen√£o a imagem do outro, e da√≠ a meia d√ļzia de anos n√£o se lembrarem sequer de que tal amor existiu, cruzarem-se numa rua sem qualquer estremecimento, como dois desconhecidos.
Essa certeza, hoje ent√£o, radicou-se ainda mais em mim.
Fui ver a casa onde passei um dos anos cruciais da minha vida de menino. E nem as portas, nem as janelas, nem o panorama em frente me disseram nada. Tinha c√° dentro, √© certo, uma nebulosa sentimental de tudo aquilo. Mas o concreto, o real, o n√ļmero de degraus da escada, a cara da senhoria, a significa√ß√£o terrena de tudo aquilo, desaparecera.

A Dependência é a Raiz de Todos os Males

O que deve um c√£o a um c√£o, um cavalo a um cavalo? Nada. Nenhum animal depende do seu semelhante. Tendo por√©m o homem recebido o raio da Divindade a que se chama raz√£o, qual foi o resultado? Ser escravo em quase toda a terra. Se o mundo fosse o que parece dever ser, isto √©, se em toda parte os homens encontrassem subsist√™ncia f√°cil e certa e clima apropriado √† sua natureza, imposs√≠vel teria sido a um homem servir-se de outro. Cobrisse-se o mundo de frutos salutares. N√£o fosse ve√≠culo de doen√ßas e morte o ar que contribui para a exist√™ncia humana. Prescindisse o homem de outra morada e de outro leito al√©m do dos gansos e cabras monteses, n√£o teriam os Gengis C√£s e Tamerl√Ķes vassalos sen√£o os pr√≥prios filhos, os quais seriam bastante virtuosos para auxili√°-los na velhice.
No estado natural de que gozam os quadr√ļpedes, aves e r√©pteis, t√£o feliz como eles seria o homem, e a domina√ß√£o, quimera, absurdo em que ningu√©m pensaria: para qu√™ servidores se n√£o tiv√©sseis necessidade de nenhum servi√ßo? Ainda que passasse pelo esp√≠rito de algum indiv√≠duo de bofes tir√Ęnicos e bra√ßos impacientes por submeter o seu vizinho menos forte que ele,

Continue lendo…

Uma Nação só Vive porque Pensa

Uma na√ß√£o s√≥ vive porque pensa. Cogitat ergo est. A for√ßa e a riqueza n√£o bastam para provar que uma na√ß√£o vive duma vida que mere√ßa ser glorificada na Hist√≥ria – como rijos m√ļsculos num corpo e ouro farto numa bolsa n√£o bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino de √Āfrica, com guerreiros incont√°veis nas suas aringas e incont√°veis diamantes nas suas colinas, ser√° sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civiliza√ß√£o, os civilizados pisam e retalham t√£o desassombradamente como se sangra e se corta a r√™s bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egipto ou Tunis formassem resplandescentes centros de ci√™ncias, de literaturas e de artes, e, atrav√©s de uma serena legi√£o de homens geniais, incessantemente educassem o mundo – nenhuma na√ß√£o mesmo nesta idade do ferro e de for√ßa, ousaria ocupar como um campo maninho e sem dono esses solos augustos donde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das ideias e das formas.
Só na verdade o pensamento e a sua criação suprema, a ciência, a literatura, as artes, dão grandeza aos Povos, atraem para eles universal reverência e carinho,

Continue lendo…

A Raiz do Ser Nunca se Altera

Pode acontecer que em certos per√≠odos da vida uma pessoa seja asperamente flagelada por circunst√£ncias p√ļblicas ou privadas. Mas o destino, na sua cegueira, quando se abate sobre as paveias de trigo maduro, destr√≥i apenas a palha, enquanto os gr√£os nem d√£o por isso e saltam alegremente sobre a eira sem se preocuparem em saber se v√£o ser levados ao moinho ou lan√ßados √† terra na pr√≥xima sementeira.

O Fim da Civilização

Quando se extinguir√° esta sociedade corrompida por todas as devassid√Ķes, devassid√Ķes de esp√≠rito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hip√≥crita a que se chama civiliza√ß√£o, haver√° sem d√ļvida alegria sobre a terra; abandonar-se-√° o manto real, o ceptro, os diamantes, o pal√°cio em ru√≠nas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da √©gua e da loba.
Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêncios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido.
Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensid√£o deve acabar por cansar-se desse gr√£o de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de m√£os e de corromper, o outro esgotar-se-√°; este vapor de sangue abrandar√°, o pal√°cio desmoronar-se-√° sob o peso das riquezas que oculta,

Continue lendo…

Máximo de Tédio no Máximo de Civilização

Na Terra tudo vive – e s√≥ o homem sente a dor e a desilus√£o da vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa intelig√™ncia que o torna homem, e que o separa da restante Natureza, impensante e inerte. √Č no m√°ximo de civiliza√ß√£o que ele experimenta o m√°ximo de t√©dio. A sapi√™ncia, portanto, est√° em recuar at√© esse honesto m√≠nimo de civiliza√ß√£o, que consiste em ter um tecto de colmo, uma leira de terra e o gr√£o para nela semear.