Textos sobre Ren√ļncia

29 resultados
Textos de ren√ļncia escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

A Subjectividade do Amor-Próprio

Um mendigo dos arredores de Madrid esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte:
– O senhor n√£o tem vergonha de se dedicar a mister t√£o infame, quando podia trabalhar?
– Senhor, – respondeu o pedinte – estou-lhe a pedir dinheiro e n√£o conselhos. – E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas.
Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo n√£o suportava reprimendas.
Viajando pela √ćndia, topou um mission√°rio com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados de seus patr√≠cios hindus, que lhe davam algumas moedas do pa√≠s.
– Que ren√ļncia de si pr√≥prio! – dizia um dos espectadores.
– Ren√ļncia de mim pr√≥prio? – retorquiu o faquir. – Ficai sabendo que n√£o me deixo a√ßoitar neste mundo sen√£o para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro.
Tiveram pois plena raz√£o os que disseram ser o amor de n√≥s mesmos a base de todos as nossas ac√ß√Ķes – na √ćndia, na Espanha como em toda a terra habit√°vel. Sup√©rfluo √© provar aos homens que t√™m rosto.

Continue lendo…

O Amor √© um Acidente, uma Ren√ļncia, um H√°bito, uma Maldi√ß√£o

O amor é um acidente.
Eu estava sentada no regaço de uma mulher de cobre, uma escultura de Henry Moore, e Bill debruçou-se sobre mim e beijou-me nos lábios. E de repente eu amava-o. Amava-o e só isso importava. Reparei nas mãos dele, mãos de pianista. Mãos preparadas para o amor. Ainda hoje gosto de lhe ver as mãos enquanto folheia um livro, enquanto lê um jornal. As mãos dele envelheceram, envelheceram a apertar outras mãos, milhares de outras mãos, a jogar golfe, a assinar autógrafos e documentos importantes. Envelheceram, sim, mas continuam belas. Continuam a excitar-me.
O amor √© uma ren√ļncia. Amar algu√©m √© desistir de amar outros, √© desistir por esse amor do amor de outros. Eu desisti de tudo. A partir desse dia dei-lhe todos os meus dias. Entreguei-lhe os meus sonhos, os meus segredos, as minhas convic√ß√Ķes mais profundas. N√£o me queixo!
N√£o sou ing√©nua nem est√ļpida. Quando digo que o amor √© uma ren√ļncia, quero dizer que foi assim para mim. Para Bill foi sempre uma outra coisa. Eu sabia que ele reparava noutras mulheres, e que outras mulheres reparavam nele. Um homem feio, com poder, √© quase bonito. Um homem bonito,

Continue lendo…

Renunciar à Sede de Poder

Quem n√£o conheceu a tenta√ß√£o de ser o primeiro na cidade nada compreender√° do jogo pol√≠tico, da vontade de submeter os outros para deles fazer objectos, nem adivinhar√° os elementos de que √© composta a arte do desprezo. A sede de poder, raros s√£o os que n√£o a tenham num grau ou noutro experimentado: √©-nos natural, e contudo, se a considerarmos melhor, assume todos os car√°cteres de um estado m√≥rbido do qual apenas nos curamos por acidente ou ent√£o por meio de um amadurecimento interior, aparentado com o que se operou em Carlos V quando, ao abdicar em Bruxelas, no topo da sua gl√≥ria, ensinou ao mundo que o excesso de cansa√ßo podia suscitar cenas t√£o admir√°veis como o excesso de coragem. Mas, anomalia ou maravilha, a ren√ļncia, desafio √†s nossas contantes, √† nossa identidade, sobrev√©m somente em momentos excepcionais, caso limite que satisfaz o fil√≥sofo e perturba profundamente o historiador.

A Grande Ren√ļncia

Cedo ou tarde, a todo o homem chega a grande ren√ļncia. Para o jovem n√£o existe nada inalcan√ß√°vel. Que algo bom e desejado com toda a for√ßa de uma vontade apaixonada seja imposs√≠vel, n√£o lhe parece cr√≠vel. Mas, ou por meio da morte ou da doen√ßa, da pobreza ou da voz do dever, cada um de n√≥s √© for√ßado a aprender que o mundo n√£o foi feito para n√≥s e que, n√£o importa qu√£o belas as coisas que almejamos, o destino pode, n√£o obstante, proibi-las. √Č parte da coragem, quando a adversidade vem, suport√°-la sem lamentar a derrocada das nossas esperan√ßas, afastando os nossos pensamentos de v√£os arrependimentos. Esse grau de submiss√£o (…) n√£o √© somente justo e correcto: ele √© o portal da sabedoria.

A Doutrina Perfeita

Muitas vezes as pessoas dirigem-se a mim, dizendo: ¬ęvoc√™, que √© independente¬Ľ. N√£o sou assim; continuamente devo ceder a pequenas f√≥rmulas sofisticadas que corrompem, que d√£o um sentido inverso √† nossa orienta√ß√£o, que fazem com que a transpar√™ncia do cora√ß√£o se turve. Continuamente a nossa inseguran√ßa, o ego√≠smo, o esp√≠rito legalista, a mesquinhez, a vaidade, toda a esp√©cie de circunst√Ęncias que tomam o partido da vida como desfrute √† sensa√ß√£o se sobrep√Ķem √† luz interior. S√≥ a f√© √© independente. S√≥ ela est√° para al√©m do bem e do mal.

Estar para al√©m do bem e do mal aplica-se a Cristo. ¬ęPerdoa ao teu inimigo, oferece a outra face¬Ľ – disse Ele. N√£o √© um conselho para humilhados, n√£o √© um preceito para m√°rtires. Nisso aparece Cristo mal interpretado, a ponto de o cristianismo ter sido considerado uma religi√£o de escravos. Mas esquecemos que Cristo, como Homem, teve a experi√™ncia-limite, uma vis√£o do inconsciente absoluto, o que quer dizer que a sua consci√™ncia foi saturada, para al√©m do bem e do mal. Esse homem que perdoa ao seu inimigo n√£o o faz por contrariedade do seu instinto, por repara√ß√£o dos seus pecados; mas porque n√£o pode proceder de outra maneira.

Continue lendo…

Civilização Racional

O nosso conhecimento do valor hist√≥rico de certas doutrinas religiosas aumenta o nosso respeito por elas, mas n√£o invalida a nossa posi√ß√£o, segundo a qual devem deixar de ser apresentadas como os motivos para os preceitos da civiliza√ß√£o. Pelo contr√°rio! Esses res√≠duos hist√≥ricos auxiliaram-nos a encarar os ensinamentos religiosos como rel√≠quias neur√≥ticas, por assim dizer, e agora podemos arguir que provavelmente chegou a hora, tal como acontece num tratamento anal√≠tico, de substituir os efeitos da repress√£o pelos resultados da opera√ß√£o racional do intelecto. Podemos prever, mas dificilmente lamentar, que tal processo de remodela√ß√£o n√£o se deter√° na ren√ļncia √† transfigura√ß√£o solene dos preceitos culturais, mas que a sua revis√£o geral resultar√° em que muitos deles sejam eliminados. Desse modo, a nossa tarefa de reconciliar os homens com a civiliza√ß√£o estar√°, at√© um grande ponto, realizada. N√£o precisamos de deplorar a ren√ļncia √† verdade hist√≥rica quando apresentamos fundamentos racionais para os preceitos da civiliza√ß√£o. As verdades contidas nas doutrinas religiosas s√£o, afinal de contas, t√£o deformadas e sistematicamente disfar√ßadas, que a massa da humanidade n√£o pode identific√°-las como verdade. O caso √© semelhante ao que acontece quando dizemos a uma crian√ßa que os rec√©m-nascidos s√£o trazidos pela cegonha. Aqui, tamb√©m estamos a contar a verdade sob uma roupagem simb√≥lica,

Continue lendo…

Portugal Vive em Total Dependência

Um pa√≠s como Portugal, e n√£o √© o √ļnico nesta situa√ß√£o, que n√£o tem uma ideia pr√≥pria de futuro para toda a colectividade, vive numa situa√ß√£o de total depend√™ncia. N√£o temos mais ideias do que aquelas que nos dizem que devemos ter. A Uni√£o Europeia dita-nos o que devemos fazer em todos os campos da vida. Encaminhamo-nos para a pior das mortes: a morte por falta de vontade, por abdica√ß√£o. Esta ren√ļncia √© tamb√©m a morte da cultura. Por isso creio que um pa√≠s morto, como Portugal, n√£o pode fazer uma cultura viva.

Dizer N√£o

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz N√ÉO √† cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da pol√≠cia. Porque a cultura n√£o tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, n√£o √© um modo de se descer mas de se subir, n√£o √© um luxo de ¬ęelitismo¬Ľ, mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz N√ÉO at√© ao p√£o com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pag√°-lo com a ren√ļncia de ti mesmo. Porque n√£o h√° uma s√≥ forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como pre√ßo a tua humilha√ß√£o.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código,

Continue lendo…

As Obras e os Mistérios do Amor

Quem ama não sente o amor no seu coração. Vive no coração do amor. O amor que nos oferece os sonhos mais belos e nos faz voar, é o mesmo que nos crava os espinhos mais duros na carne e se faz mar nas nossas lágrimas.

O amor faz o que quer, onde e quando alguém o aceita. Não tem outras mãos ou olhos senão os nossos. A força do amor é aquela de que nós formos capazes. Por isso, amar é, antes de tudo, aceitar.

Há quem entregue a sua vida por amor. Quem se abandone a si mesmo, deixando para trás aquilo que outros julgam ser o seu maior tesouro… A vida é para amar, quem não ama, apenas sobrevive.
H√° quem morra por amor. Mas esta vida √© apenas um peda√ßo de outra, maior, que s√≥ √© vivida pelos que tiverem a coragem imprudente de ser luz e calor na vida de algu√©m, aceitando-o como √©… e como quer ser. Sem o julgar. Respeitando sempre os seus espa√ßos e os seus tempos, o seu passado e o seu futuro. Amar √© corrigir e ajudar quem se ama a ser melhor, mas n√£o o obrigando aos nossos pensamentos e sentimentos,

Continue lendo…

O Medo De Nós Próprios

Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expess√£o a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia t√£o intenso que esquecer√≠amos todas as doen√ßas da √©poca medieval e regressar√≠amos ao ideal hel√©nico, possivelmente at√© a algo mais depurado e mais rico do que o ideal hel√©nico. Mas o mais corajoso homem entre n√≥s tem medo de si pr√≥prio. A mutila√ß√£o do selvagem sobrevive tragicamente na autonega√ß√£o que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas ren√ļncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no c√©rebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e acaba com o pecado, porque a ac√ß√£o √© um modo de expurga√ß√£o. Nada mais permanece do que a lembran√ßa de um prazer, ou o luxo de um remorso. A √ļnica maneira de nos livrarmos de uma tenta√ß√£o √© cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. J√° se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no c√©rebro. √Č tamb√©m no c√©rebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo.

Continue lendo…

O Sentido Tr√°gico do Amor

Todo o homem tende naturalmente para o amor. Acontece que o conceito comum de amor corresponde de forma quase universal a uma ideia genérica, ambivalente e, tantas vezes, errada, porque tão irreal.

Amar √© dar-se. Entregar a pr√≥pria ess√™ncia a um outro, lutando em favor dele. De forma pura e gratuita, sem esperar outra recompensa sen√£o a de saber que se conseguir√° ser o que se √©. Amar, ao contr√°rio do que julgam muitos, n√£o √© uma fonte de satisfa√ß√£o… Amar √© algo s√©rio, arrebatador e tremendamente desagrad√°vel. Quem ama sabe que isso mais se parece com uma esp√©cie de maldi√ß√£o do que com narrativas infantis de final invariavelmente feliz…

Cavaleiros valentes e princesas encantadas são, no entanto, excelentes metáforas que pretendem passar a ideia da coragem e da nobreza de carácter essenciais a quem ama. Ama-se quando se é capaz de se ser quem é, verdadeiramente.
Esta luta heróica pelo valor da essência do outro não está ao alcance de todos. A maior parte das pessoas são egocêntricas, alegram-se a entrançar os seus egoísmos em figuras improvisadas de resultado sempre disforme a que teimam chamar amor. Talvez porque assim consigam disfarçar o vazio que é a prova de quão frustrante,

Continue lendo…

Escolher Para Desfrutar

A ang√ļstia invade quer o inquieto, exclusivamente deslumbrado por aquilo que arde com uma luz vaga, quer o poeta cheio de amor pelos poemas que nunca escreveu o seu, quer a mulher apaixonada pelo amor, mas incapaz de devir por n√£o saber escolher. Eles bem sabem que eu os curaria da ang√ļstia se lhes permitisse esse dom que exige sacrif√≠cios e escolha e esquecimento do universo. Porque determinada flor √©, em primeiro lugar, uma ren√ļncia a todas as outras flores. E, no entanto, s√≥ com esta condi√ß√£o √© bela. √Č o que acontece com o objecto da troca. E o insensato, que vem censurar a esta velha o seu bordado, sob o pretexto de que ela poderia ter tecido outra coisa, demonstra com isso que prefere o nada √† cria√ß√£o.

Ser Feliz é um Dever

√Č dif√≠cil ser feliz; requer esp√≠rito, energia, aten√ß√£o, ren√ļncia e uma esp√©cie de cortesia que √© bem pr√≥xima do amor. √Äs vezes √© uma gra√ßa ser feliz. Mas pode ser, sem a gra√ßa, um dever. Um homem digno desse nome agarra-se √† felicidade, como se amarra ao mastro em mau tempo, para se conservar a si mesmo e aos que ama. Ser feliz √© um dever. √Č uma generosidade.

A Intimidade do Escritor

H√° quase um ano sozinho, na antiga vida de solteir√£o. Tem sido duro, mas √ļtil. De vez em quando faz-me bem estar s√≥ e desamparado. √Č nessas horas que sinto mais profundamente a significa√ß√£o de uma mulher ao lado do artista. A hist√≥ria liter√°ria exibe prodigamente o cen√°rio feminino e mundano que aconchega os criadores e lhes embeleza a vida. Mas diz-nos pouco das companheiras quotidianas, dom√©sticas e an√≥nimas, a verem nascer a obra, a aquec√™-la com ch√°venas de ch√°, e a renunciarem √† alegria de a conhecer na emo√ß√£o virginal de um leitor apanhado de surpresa. E nada de mais significativo e decisivo do que essa ajuda e do que essa ren√ļncia. As R√©camiers s√£o o est√≠mulo de fora, higi√©nico e lisonjeiro; enquanto que as outras, √≠ntimas e apagadas, empurram o carro tr√īpego da cria√ß√£o debaixo de todos os ventos, e sem aplausos no fim. O seu lema √© a aceita√ß√£o calma e confiante dos des√Ęnimos, dos rascunhos, das mil tentativas falhadas. E quando a obra, finalmente acabada, empolga o p√ļblico, j√° tem atr√°s de si um tal cansa√ßo, uma tal soma de horas desesperadas, que s√≥ com um grande amor a podem ainda olhar.
Por esse amor n√£o existir,

Continue lendo…

Arrependimento Imoral

O homem a quem o arrependimento, ap√≥s o pecado, imp√Ķe grandes exig√™ncias morais, exp√Ķe-se √† acusa√ß√£o de ter tornado a sua tarefa demasiado f√°cil. N√£o praticou o que √© essencial na moral, a ren√ļncia; com efeito, o comportamento
moral ao longo da vida é exigido em função dos interesses práticos da humanidade. O homem citado recorda-nos os bárbaros das grandes ondas migradoras, que matavam e depois faziam penitência, e para os quais fazer penitência acabou por se tornar uma técnica facilitadora do assassínio.

Hoje Tomei a Decis√£o de Ser Eu

Hoje, ao tomar de vez a decis√£o de ser Eu, de viver √† altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilizac√£o de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impress√Ķes pelos outros, na posse plena do meu G√©nio e na divina consci√™ncia da minha Miss√£o. Hoje s√≥ me quero tal qual meu car√°cter nato quer que eu seja; e meu G√©nio, com ele nascido, me imp√Ķe que eu n√£o deixe de ser.
Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou.
Nada de desafios √† plebe, nada de gir√Ęndolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade n√£o se mascara de palha√ßo; √© de ren√ļncia e de sil√™ncio que se veste.
O √ļltimo rasto de influ√™ncia dos outros no meu car√°cter cessou com isto. Reconheci ‚ÄĒ ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de ¬ę lan√ßar o Interseccionismo¬Ľ ‚ÄĒ a tranquila posse de mim.
Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci.

A Ideia de Moral Universal

Muito antes de o homem estar maduro para ser confrontado com uma atitude moral universal, o medo dos perigos da vida levaram-no a atribuir a v√°rios seres imagin√°rios, n√£o palp√°veis fisicamente, o poder de libertar as for√ßas naturais que temia ou talvez desejasse. E ele acreditava que esses seres, que dominavam toda a sua imagina√ß√£o, eram feitos fisicamente √† sua imagem, mas eram dotados de poderes sobre-humanos. Estes foram os precursores primitivos da ideia de Deus. Nascidos inicialmente dos medos que enchiam a vida di√°ria dos homens, a cren√ßa na exist√™ncia de tais seres, e nos seus poderes extraordin√°rios, teve uma influ√™ncia t√£o forte nos homens e na sua conduta que √© dif√≠cil de imaginar por n√≥s. Por isso, n√£o surpreende que aqueles que se empenharam em estabelecer a ideia de moral, abarcando igualmente todos os homens, o tenham feito associando-a intimamente √† religi√£o. E o facto de estas pretens√Ķes morais serem as mesmas para todos os homens pode ter tido muito a ver com o desenvolvimento da cultura religiosa da esp√©cie humana desde o polite√≠smo at√© ao monote√≠smo.
A ideia de moral universal deve, assim, a sua potência psicológica original àquela ligação com a religião. No entanto, noutro sentido,

Continue lendo…

Os Herdeiros da Humanidade

As gera√ß√Ķes passadas puderam acreditar que o progresso intelectual e o da civiliza√ß√£o n√£o eram sen√£o frutos do trabalho dos seus antepassados, frutos esses que herdavam e lhes permitiam uma vida mais f√°cil e mais bela. Mas as experi√™ncias mais duras dos nossos tempos mostram que isso era uma ilus√£o nefasta.
Vemos que é preciso fazer os maiores esforços para que essa herança não se transforme em maldição, mas sim em bênção para a Humanidade. Se outrora um homem já tinha valor, do ponto de vista social, quando se libertava, em certa medida, do egoísmo pessoal, exige-se-lhe hoje que vença também o egoísmo nacional e de classe. Pois só então, quando se tiver elevado a esse ponto, poderá contribuir para a melhoria do destino da comunidade humana.
No que respeita a essa exig√™ncia primordial do nosso tempo, os habitantes dos Estados mais pequenos est√£o numa situa√ß√£o relativamente mais favor√°vel do que os cidad√£os dos grandes Estados, por se encontrarem estes √ļltimos pol√≠tica e economicamente expostos √†s tenta√ß√Ķes de prepot√™ncia bruta. O acordo entre a Holanda e a B√©lgica, √ļnico ponto luminoso na evolu√ß√£o europeia nos √ļltimos tempos, faz esperar que caber√° √†s na√ß√Ķes pequenas um papel preponderante na liberta√ß√£o do jugo degradante do militarismo,

Continue lendo…