Textos sobre In√ļteis

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Textos de in√ļteis escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

O Papel do Sonho na Vida

Por vezes, o homem √© mais sincero e rico na desordem dos sonhos que na consci√™ncia unit√°ria do raciocinador acordado, mas n√≥s vivemos enquanto negamos o sonho e o tornamos in√ļtil. O g√©nio √© a extradi√ß√£o do sonho, porque enriquece a consci√™ncia com as reservas e as pessoas do inconsciente. Expulsa o selvagem e o delinquente, destila a sagacidade do louco, adopta a crian√ßa e escuta o poeta. N√£o √© autocrata surdo, como o homem vulgar, mas pai de iguais. A conc√≥rdia de se terem almas subterr√Ęneas faz a grandeza do g√©nio, e a sua obra √© a sublima√ß√£o do sonho, desenrolado na vida verdadeira, liberdade concedida aos pensamentos inocentes dos reclusos.
Escolher é próprio do homem, mas escolhe-se com a rejeição e mais com o acolhimento. Vencer não significa apenas destruir, mas incorporar. A razão será tanto mais razoável quanto maior a loucura que assumir em si; o herói será mais forte se transferir para si a energia do pecador, e a fantasia do poeta tornará mais profundos os cálculos do político.
Quando o chefe da alma é o poeta, verdadeiramente poeta, não encarcera a razão, mas condu-la consigo para cima, ao céu em que até o silogismo se torna fogo.

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A Sabedoria e a Alegria

Vou ensinar-te agora o modo de entenderes que n√£o √©s ainda um s√°bio. O s√°bio aut√™ntico vive em plena alegria, contente, tranquilo, imperturb√°vel; vive em p√© de igualdade com os deuses. Analisa-te ent√£o a ti pr√≥prio: se nunca te sentes triste, se nenhuma esperan√ßa te aflige o √Ęnimo na expectativa do futuro, se dia e noite a tua alma se mant√©m igual a si mesma, isto √©, plena de eleva√ß√£o e contente de si pr√≥pria, ent√£o conseguiste atingir o m√°ximo bem poss√≠vel ao homem! Mas se, em toda a parte e sob todas as formas, n√£o buscas sen√£o o prazer, fica sabendo que t√£o longe est√°s da sabedoria como da alegria verdadeira. Pretendes obter a alegria, mas falhar√°s o alvo se pensas vir a alcan√ß√°-la por meio das riquezas ou das honras, pois isso ser√° o mesmo que tentar encontrar a alegria no meio da ang√ļstia; riquezas e honras, que buscas como se fossem fontes de satisfa√ß√£o e prazer, s√£o apenas motivos para futuras dores.
Toda a gente, repito, tende para um objectivo: a alegria, mas ignora o meio de conseguir uma alegria duradoura e profunda. Uns procuram-na nos banquetes, na libertinagem; outros, na satisfa√ß√£o das ambi√ß√Ķes, na multid√£o ass√≠dua dos clientes;

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O Desejo de Discutir

Se as discuss√Ķes pol√≠ticas se tornam facilmente in√ļteis, √© porque quando se fala de um pa√≠s se pensa tanto no seu governo como na sua popula√ß√£o, tanto no Estado como na no√ß√£o de Estado enquanto tal. Pois o Estado como no√ß√£o √© uma coisa diferente da popula√ß√£o que o comp√Ķe, igualmente diferente do governo que o dirige. √Č qualquer coisa a meio caminho entre o f√≠sico e o metaf√≠sico, entre a realidade e a ideia.
√ą a esse g√©nero de estirilidade que est√£o geralmente condenadas, tal como acontece com as discuss√Ķes pol√≠ticas, as que incidem sobre a religi√£o, pois a religi√£o pode ser sin√≥nima de dogmas, ou de ritual, ou referir-se a posi√ß√Ķes pessoais do indiv√≠duo sobre quest√Ķes ditas eternas, o infinito e a eternidade, problemas do livre arb√≠trio e da responsabilidade ou, como se diz tamb√©m: Deus.
E o mesmo acontece com as discuss√Ķes que t√™m a ver com a maior parte dos assuntos abstractos, sobretudo a √©tica e os temas filos√≥ficos, mas tamb√©m com campos de an√°lise mais restritos, incidindo sobre os problemas mais imediatos, como por exemplo o socialismo, o capitalismo, a aristocracia, a democracia, etc…, em que as no√ß√Ķes s√£o tomadas tanto no sentido amplo como no restrito,

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A Ociosidade

Assim como vemos as terras em repouso, se n√©dias e f√©rteis, dar origem √† prolifera√ß√£o de cem mil esp√©cies de ervas selvagens e in√ļteis, sendo necess√°rio, para as manter cultiv√°veis, dom√°-las e destin√°-las a certas sementes por forma a que delas tiremos proveito; e assim como vemos as mulheres, que por si s√≥s produzem informes amontoados e peda√ßos de carne, terem, para proporcionar uma boa e natural gera√ß√£o, de ser fecundadas por outra semente, assim vemos que se passa o mesmo com os nossos esp√≠ritos. Se n√£o os ocuparmos com algum objecto que os freie e constranja, lan√ßar-se-√£o eles, desregrados, a percorrer √† toa os campos bravios da imagina√ß√£o:

Tal como a √°gua que tremula em vasilhas de bronze reflecte a luz do sol ou a imagem radiante da lua, cintila√ß√Ķes voando pelos ares e atingindo os artesoados tectos – Virg√≠lio, Eneida

E não há loucura ou desvario que eles não produzam em tal agitação:

Inventam irreais apari√ß√Ķes como nos sonhos dos doentes – Hor√°cio, Ars Poetica

A alma que não tem um ponto de mira perde-se, pois, como sói dizer-se, é não estar em parte nenhuma em todo o lado estar.

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Conhecimento sem Paixão seria Castrar a Inteligência

Como investigadores do conhecimento, n√£o sejamos ingratos com os que mudaram por completo os pontos de vista do esp√≠rito humano; na apar√™ncia foi uma revolu√ß√£o in√ļtil, sacr√≠lega; mas j√° de si o querer ver de modo diverso dos outros, n√£o √© pouca disciplina e prepara√ß√£o do entendimento para a sua futura ¬ęobjectividade¬Ľ, entendendo por esta palavra n√£o a ¬ęcontempla√ß√£o desinteressada¬Ľ, que √© um absurdo, sen√£o a faculdade de dominar o pr√≥ e o contra, servindo-se de um e de outro para a interpreta√ß√£o dos fen√≥menos e das paix√Ķes. Acautelemo-nos pois, oh senhores fil√≥sofos!
Desta confabula√ß√£o das ideias antigas acerca de um ¬ęassunto do conheciemnto puro, sem vontade, sem dor, sem tempo¬Ľ, defendamo-nos das mo√ß√Ķes contradit√≥rias ¬ęraz√£o pura¬Ľ, ¬ęespiritualidade absoluta¬Ľ, ¬ęconhecimento subsistente¬Ľ que seria um ver subsistente em si pr√≥prio e sem √≥rg√£o visual, ou um olho sem direc√ß√£o, sem faculdades activas e interpretativas? Pois o mesmo sucede com o conhecimento: uma vista, e se √© dirigida pela vontade, veremos melhor, teremos mais olhos, ser√° mais completa a nossa ¬ęobjectividade¬Ľ. Mas eliminar a vontade, suprimir inteiramente as paix√Ķes – supondo que isso fosse poss√≠vel – seria castrar a intelig√™ncia.

Miser√°veis Macabros

√Č que n√£o foram t√£o poucas como isso as vezes que vi a piedade enganar-se. N√≥s, que governamos os homens, aprendemos a sondar-lhes os cora√ß√Ķes, para s√≥ ao objecto digno de estima dispensarmos a nossa solicitude. Mais n√£o fa√ßo do que negar essa piedade √†s feridas de exibi√ß√£o que comovem o cora√ß√£o das mulheres. Assim como tamb√©m a nego aos moribundos, e al√©m disso aos mortos. E sei bem porqu√™.
Houve uma altura da minha mocidade em que senti piedade pelos mendigos e pelas suas √ļlceras. At√© chegava a apalavrar curandeiros e a comprar b√°lsamos por causa deles. As caravanas traziam-me de uma ilha long√≠nqua unguentos derivados do ouro, que t√™m a virtude de voltar a compor a pele ao cimo da carne. Procedi assim at√© descobrir que eles tinham como artigo de luxo aquele insuport√°vel fedor. Surpreendi-os a co√ßar e a regar com bosta aquelas p√ļstulas, como quem estruma uma terra para dela extrair a flor cor de p√ļrpura. Mostravam orgulhosamente uns aos outros a sua podrid√£o e gabavam-se das esmolas recebidas.
Aquele que mais ganhara comparava-se a si pr√≥prio ao sumo sacerdote que exp√Ķe o √≠dolo mais prendado. Se consentiam em consultar o meu m√©dico, era na esperan√ßa de que o cancro deles o surpreendesse pela pestil√™ncia e pelas propor√ß√Ķes.

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Metade da Vida é uma Perdulária Expectativa

Vou fazendo horas – metade da vida √© uma perdul√°ria expectativa. E tonta. E ansiosa. E in√ļtil. Como quem se sentou numa gare de caminho-de-ferro, √† espera de um comboio que n√£o se sabe quando passar√° e qual o seu destino. Certeza, e relativa, est√° apenas no local de espera. E √†s vezes na pr√≥pria espera. Se chegamos a concretizar a viagem, o lugar aonde o comboio nos levou, desilude-nos. Isso, por√©m, n√£o impede que tudo venha a repetir-se. Desperdi√ßa-se o instante real e concreto, mas que, como areia, se nos escapa das m√£os, em favor de uma ilus√≥ria vez seguinte.

A Inteligência e o Sentido Moral

A intelig√™ncia √© quase in√ļtil para aqueles que s√≥ a possuem a ela. O intelectual puro √© um ser incompleto, infeliz, pois √© incapaz de atingir aquilo que compreende. A capacidade de apreender as rela√ß√Ķes das coisas s√≥ √© fecunda quando associada a outras actividades, como o sentido moral, o sentido afectivo, a vontade, o racioc√≠nio, a imagina√ß√£o e uma certa for√ßa org√Ęnica. S√≥ √© utiliz√°vel √† custa de esfor√ßo.
Os detentores da ciência preparam-se longamente realizando um duro trabalho. Submetem-se a uma espécie de ascetismo. Sem o exercício da vontade, a inteligência mantém-se dispersa e estéril. Uma vez disciplinada, torna-se capaz de perseguir a verdade. Mas só a atinge plenamente se for ajudada pelo sentido moral. Os grandes cientistas têm sempre uma profunda honestidade intelectual. Seguem a realidade para onde quer que ela os conduza. Nunca procuram substituí-la pelos seus próprios desejos, nem ocultá-la quando se torna opressiva. O homem que quiser contemplar a verdade deve manter a calma dentro de si mesmo. O seu espírito deve ser como a água serena de um lago. As actividades afectivas, contudo, são indispensáveis ao progresso da inteligência. Mas devem reduzir-se a essa paixão que Pasteur chamava deus inteiror, o entusiasmo.

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A Dificuldade de Estabelecer e Firmar Rela√ß√Ķes

A dificuldade de estabelecer e firmar rela√ß√Ķes. H√° uma t√©cnica para isso, conhe√ßo-a. Nunca pude meter-me nela. Ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ. √Č realmente f√°cil: prestabilidade, autodom√≠nio. Mas. Ser soci√°vel exige um esfor√ßo enorme ‚ÄĒ f√≠sico. Quem se habituou, j√° se n√£o cansa. Tudo se passa √† superf√≠cie do esfor√ßo. Ter ¬ępersonalidade¬Ľ: n√£o descer um mil√≠metro no trato, mesmo quando por delicadeza se finge. Assumirmos a import√Ęncia de n√≥s sem o mostrar. Darmo-nos valor sem o exibir. Irresistivelmente, agacho-me. E logo: a pata dos outros em cima. Bem feito. Pois se me pus a jeito. E ent√£o reponto. O fim. Ser prest√°vel, colaborar nas tarefas que os outros nos inventam. Col√≥quios, confer√™ncias, organiza√ß√Ķes de. Ah, ser-se um ¬ęin√ļtil¬Ľ (um ¬ęparasita¬Ľ…). Raz√Ķes profundas ‚ÄĒ um complexo duplo que vem da juventude: incompreens√£o do irm√£o corpo e da bolsa paterna. O segundo remediou-se. Tenho desprezo pelo dinheiro. Ligo t√£o pouco ao dinheiro que nem o gasto… Mas ¬ęgastar¬Ľ faz parte da ¬ępersonalidade¬Ľ. Sa√ļde ‚ÄĒ mais dif√≠cil. Este ar apeur√© que vem logo ao de cima. A √ļnica defesa, obviamente, √© o resguardo, o isolamento, a medida.
√Č f√°cil ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ, dif√≠cil √© perseverar, assumir o artif√≠cio da facilidade. Conservar os amigos. ¬ęN√£o √©s capaz de dar nada¬Ľ,

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Boa e M√° Literatura

O que acontece na literatura n√£o √© diferente do que acontece na vida: para onde quer que se volte, depara-se imediatamente com a incorrig√≠vel plebe da humanidade, que se encontra por toda a parte em legi√Ķes, preenchendo todos os espa√ßos e sujando tudo, como as moscas no ver√£o.
Eis a raz√£o do n√ļmero incalcul√°vel de livros maus, essa erva daninha da literatura que tudo invade, que tira o alimento do trigo e o sufoca. De facto, eles arrancam tempo, dinheiro e aten√ß√£o do p√ļblico – coisas que, por direito, pertencem aos bons livros e aos seus nobres fins – e s√£o escritos com a √ļnica inten√ß√£o de proporcionar algum lucro ou emprego. Portanto, n√£o s√£o apenas in√ļteis, mas tamb√©m positivamente prejudiciais. Nove d√©cimos de toda a nossa literatura actual n√£o possui outro objectivo sen√£o o de extrair alguns t√°leres do bolso do p√ļblico: para isso, autores, editores e recenseadores conjuraram firmemente.
Um golpe astuto e maldoso, porém notável, é o que teve êxito junto aos literatos, aos escrevinhadores que buscam o pão de cada dia e aos polígrafos de pouca conta, contra o bom gosto e a verdadeira educação da época, uma vez que eles conseguiram dominar todo o mundo elegante,

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Liquidar os Defeitos Pouco a Pouco

Legislasse eu em Inglaterra e a minha obra seria completamente diferente. Dentro das ra√ßas, dentro das nacionalidades, h√° duas esp√©cies de defeitos: os defeitos naturais, que podem ser combatidos mas nunca extirpados violentamente, e que nos far√£o sempre distinguir um latino dum eslavo ou dum anglo-sax√£o, e os defeitos incrustados, os v√≠cios adquiridos, que s√£o v√≠cios, sobretudo, de educa√ß√£o, de mentalidade. Ora se √© quase in√ļtil fazer guerra aos primeiros, porque eles t√™m sempre a vit√≥ria, j√° n√£o √© t√£o ideal, t√£o imposs√≠vel, como se diz, desincrustar os √ļltimos, liquid√°-los pouco a pouco… Veja, por exemplo, como o Jap√£o se transformou no curto espa√ßo da vida dum homem…

Prosema II

Para iludir a d√ļvida, privado de equipagens, nenhum dos habituais pontos de refer√™ncia vem em meu aux√≠lio. Procuro um ancoradouro distante, fora do estreito mundo em que me movo.
In√ļtil: bichos, objectos min√ļsculos, paredes brancas pontilhadas, o bot√£o da campainha √† minha esquerda. A mem√≥ria retira-me a sua cobertura instant√Ęnea. Tento galgar esta padiola dentro da minha cabe√ßa e da√≠ lan√ßar-me √† desfilada sobre uma estepe daninha ou cair do alto da montanha onde guardo o meu ninho de √°guia. Digo-vos que s√≥ pretendo A Grande Casa Alugada da Minha Inf√Ęncia, o vapor ronceiro em que apenas um velho mission√°rio se lembrara de que uma crian√ßa existia. O velho desapareceu inesperadamente num pequeno porto do Zaire e deixou-me s√≥.

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A Mocidade Prop√Ķe, a Maturidade Disp√Ķe

√Č fun√ß√£o da mocidade ser profundamente sens√≠vel √†s novas ideias como instrumentos r√°pidos para dominar o meio; e √© fun√ß√£o da idade madura opor-se tenazmente a essas ideias ; isso faz com que as inova√ß√Ķes fiquem em experi√™ncia por algum tempo antes que a sociedade as ponha em pr√°tica. A maturidade atenua as ideias novas, redu-las de modo a caberem dentro da possibilidade ou a que s√≥ se realizem em parte. A mocidade prop√Ķe, a maturidade disp√Ķe, a velhice op√Ķe-se. A mocidade domina nos per√≠odos revolucion√°rios; a maturidade, nos per√≠odos de reconstru√ß√£o; a velhice, nos per√≠odos de estagna√ß√£o. ¬ęD√°-se com os homens¬Ľ, diz Nietzsche, ¬ęo mesmo que com as carvoarias na floresta. S√≥ depois que a mocidade se carboniza √© que se torna utiliz√°vel. Enquanto est√° a arder ser√° muito interessante, mas inc√≥moda e in√ļtil.¬Ľ

Suporte Real para a Emoção

Um fidalgo dos nossos, extremamente sujeito √† gota, sendo pressionado pelos m√©dicos a abandonar totalmente o uso das carnes salgadas, acostumara-se a responder muito espirituosamente que desejava ter o que culpar pelos ataques e tormentos do mal e que vituperando e maldizendo ora o salsich√£o, ora a l√≠ngua de boi e o presunto, sentia-se proporcionalmente aliviado. Mas, seriamente, assim como o bra√ßo que √© erguido para bater nos d√≥i se o golpe falhar e ele for ao vento; e assim como para tornar agrad√°vel uma vista √© preciso que ela n√£o esteja perdida e isolada no vazio do ar, mas tenha uma proemin√™ncia para apoi√°-la a razo√°vel dist√Ęncia,

Assim como o vento, se espessas florestas n√£o lhe op√Ķem resist√™ncia, perde as for√ßas e se dissipa no espa√ßo vazio… (Lucano)

Da mesma forma parece que a alma estimulada e posta em movimento se perde em si mesma se não lhe dermos uma presa: é preciso sempre fornecer-lhe um objecto sobre o qual ela se lance e actue.
Diz Plutarco, a prop√≥sito dos que se afei√ßoam a macacos e cachorrinhos, que a parte amorosa que existe em n√≥s, na falta de um alvo leg√≠timo, em vez de ficar in√ļtil forja assim para si um alvo falso e f√ļtil.

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Um Amigo √© uma Pessoa In√ļtil

Uma pessoa in√ļtil. Um amigo? Se tento recordar-me dos atributos que ele possui, o que resta, mesmo depois do veredicto mais favor√°vel, √© apenas a sua voz, um pouco mais profunda do que a minha. Se eu exclamar ¬ęsalvo¬Ľ, era como se eu fosse Robinson Cruso√© e exclamasse ¬ęsalvo!¬Ľ, ele fazia eco com a sua voz mais profunda. Se eu fosse Korah e exclamasse ¬ęperdido!¬Ľ, ele estaria ali prontamente para com a sua voz mais profunda repetir em eco. Eventualmente acabamos por nos cansar de levar para todo o lado um viol√£o. Ele pr√≥prio n√£o faz isto alegremente, sorve do meu eco s√≥ porque n√£o pode fazer outra coisa. Ocasionalmente, durante as f√©rias, quando acabo por ter tempo para prestar aten√ß√£o a isto, eu discuto com ele, talvez no jardim, para saber como me posso libertar dele.

Tirar Proveito da Vida

Tudo o que viveis, estais roubando à vida, e à custa dela. O trabalho contínuo da vossa vida é construir a morte. Estais na morte enquanto estais em vida, pois estais após a morte quando já não estais em vida. Ou, se assim preferis, estais morto após a vida; mas durante a vida estais moribundo, e a morte toca bem mais rudemente o moribundo que o morto, e mais vivamente e essencialmente.
Se tiraste proveito da vida, estais saciado; podeis sair dela satisfeito, Por que n√£o sair da vida como conviva saciado? (Lucr√©cio), se n√£o soubeste fazer uso dela, se ela vos era in√ļtil, que vos importa t√™-la perdido, para que a quereis ainda? Por que desejar multiplicar dias que do mesmo jeito deixarias perder miseravelmente e que desapareceriam totalmente sem proveito? (Lucr√©cio). A vida por si s√≥ n√£o √© nem bem nem mal: √© o lugar do bem e do mal conforme a fazeis para eles.

Virtude e Pecado s√£o Inatos

Nenhum pr√©mio certo tem a virtude, nenhum castigo certo o pecado. Nem seria justo que houvesse tal pr√©mio ou tal castigo. Virtude ou pecado s√£o manifesta√ß√Ķes inevit√°veis de organismos condenados a um ou a outro, servindo a pena de serem bons ou a pena de serem maus. Por isso todas as religi√Ķes colocam as recompensas e os castigos, merecidos por quem, nada sendo nem podendo, nada p√īde merecer, em outros mundos, de que nenhuma ci√™ncia pode dar not√≠cia, de que nenhuma f√© pode transmitir a vis√£o. Abdiquemos, pois, de toda a cren√ßa sincera, como de toda a preocupa√ß√£o de influir em outrem.
A vida, disse Gabriel Tarde, √© a busca do imposs√≠vel atrav√©s do in√ļtil. Busquemos sempre o imposs√≠vel, porque tal √© o nosso fado; busquemo-lo atrav√©s do in√ļtil, porque n√£o passa caminho por outro ponto; ascendamos, por√©m, √† consci√™ncia de que nada buscamos que possa obter-se, de que por nada passamos que mere√ßa um carinho ou uma saudade.
Cansamo-nos de tudo, excepto de compreender, disse o escolista. Compreendamos, compreendamos sempre, e façamos por tecer astuciosamente capelas ou grinaldas que hão-de murchar também, as flores espectrais dessa compreensão.

Sobre a Diferença dos Espíritos

Apesar de todas as qualidades do espírito se poderem encontrar num grande espírito, algumas há, no entanto, que lhe são próprias e específicas: as suas luzes não têm limites, actua sempre de igual modo e com a mesma actividade, distingue os objectos afastados como se estivessem presentes, compreende e imagina as coisas mais grandiosas, vê e conhece as mais pequenas; os seus pensamentos são elevados, extensos, justos e intelegíveis; nada escapa à sua perspicácia, que o leva sempre a descobrir a verdade, através das obscuridades que a escondem dos outros. Mas, todas estas grandes qualidades não impedem por vezes que o espírito pareça pequeno e fraco, quando o humor o domina.
Um belo esp√≠rito pensa sempre nobremente; produz com facilidade coisas claras, agrad√°veis e naturais; torna vis√≠veis os seus aspectos mais favor√°veis, e enfeita-os com os ornamentos que melhor lhes conv√™m; compreende o gosto dos outros e suprime dos seus pensamentos tudo o que √© in√ļtil ou lhe possa desagradar. Um esp√≠rito recto, f√°cil e insinuante sabe evitar e ultrapassar as dificuldades; adapta-se facilmente a tudo o que quer; sabe conhecer e acompanhar o espirito e o humor daqueles com quem priva e ao preocupar-se com os interesses dos amigos,

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O Amor na Lama

– Esteban, o homem n√£o poderia fazer grandes obras sem trabalhos pequenos; na maqueta do carpinteiro est√° todo o edif√≠cio do arquiteto, n√£o h√° profiss√Ķes grandes e pequenas: alegro-me que tenhas decidido ficar connosco na carpintaria, mas conv√©m que te lembres disso. N√£o te esque√ßas de que Deus tamb√©m se senta numa cadeira e come a uma mesa e dorme numa cama. Como qualquer um. Pode prescindir dos ret√°bulos, das est√°tuas e dos livros que lhe dedicam, incluindo a B√≠blia, mas n√£o da cadeira, da mesa e da cama. ‚ÄĒ O meu tio esfor√ßava-se muito. Queria que eu me sentisse bem na profiss√£o. Que come√ßasse a gostar dela. Acreditava que eu vivia como um fracasso a decis√£o de ter abandonado a Escola de Belas–Artes. Intu√≠a certamente que eu precisava de desenvolver a minha autoestima. Mas tudo isso me parecia mera ret√≥rica ‚ÄĒ e era-o ‚ÄĒ, a verdade √© que por essa altura j√° tinha come√ßado a sair com Leonor e era ela quem eu amava, aprendia a gostar de mim atrav√©s dela. Descobria o meu corpo em cada palmo do corpo dela, e o meu corpo ganhava valor porque lhe pertencia, era o seu complemento: acreditava que partilh√°vamos dois corpos que jamais poderiam separar-se e viver cada um por si.

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Opini√Ķes Influenciadas pelo Interesse

A maior parte das coisas pode ser considerada sob pontos de vista muito diferentes: interesse geral ou interesse particular, principalmente. A nossa aten√ß√£o, naturalmente concentrada sob o aspecto que nos √© proveitoso, impede que vejamos os outros. O interesse possui, como a paix√£o, o poder de transformar em verdade aquilo em que lhe √© √ļtil acreditar. Ele √©, pois, freq√ľentemente, mais √ļtil do que a raz√£o, mesmo em quest√Ķes em que esta deveria ser, aparentemente, o guia √ļnico. Em economia pol√≠tica, por exemplo, as convic√ß√Ķes s√£o de tal modo inspiradas pelo interesse pessoal que se pode, em geral, saber pr√©viamente, conforme a profiss√£o de um indiv√≠duo, se ele √© partid√°rio ou n√£o do livre c√Ęmbio.
As varia√ß√Ķes de opini√£o obedecem, naturalmente, √†s varia√ß√Ķes do interesse. Em mat√©ria pol√≠tica, o interesse pessoal constitui o principal factor. Um indiv√≠duo que, em certo momento, energicamente combateu o imposto sobre a renda, com a mesma energia o defender√° mais, se conta ser ministro. Os socialistas enriquecidos acabam, em geral, conservadores, e os descontentes de um partido qualquer se transformam facilmente em socialistas.
O interesse, sob todas as suas formas, n√£o √© somente gerador de opini√Ķes. Agu√ßado por necessidades muito intensas, ele enfraquece logo a moralidade.

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