Sonetos sobre Pecadores

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Sonetos de pecadores escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Não te Arruínes, Alma, Enriquece

Centro da minha terra pecadora,
alma gasta da própria rebeldia,
porque tremes l√° dentro se por fora
vais caiando as paredes de alegria?

Para quê tanto luxo na morada
arruinada, arrendada a curto prazo?
Herdam de ti os vermes? Na jornada
do corpo te consomes ao acaso?

Não te arruínes, alma, enriquece:
vende as horas de escória e desperdício
e compra a eternidade que mereces,

sem piedade do servo ao teu serviço.
Devora a Morte e o que de nós terá,
que morta a Morte nada morrer√°.

Tradução de Carlos de Oliveira

Vós Outros! que Dizeis que o Amor é um Suplício

Vós outros! que dizeis que o Amor é um suplício,
Que a flor da Decepção se abre em todo o Prazer,
Que aconselhais à Alma o mosteiro, e o cilício,
Pois nada pode consolar-nos de viver:

Ponde os olhos em mim, neste celeste Amor
Que me vai desdobrando e alumiando o caminho,
Mesmo quando o alto Céu, sem frescura e sem cor,
Tem as engelhas de algum velho pergaminho…

Vede como eu quero viver, por merecê-la,
Eu que sou pecador, a ela longínqua Estrela!
No esforço de ser bom, branco como um altar:

De modo que a minha Alma, enfim, fique t√£o crente,
Que se possa casar à sua estreitamente,
Como um floco de neve a um raio de luar!

Santos √ďleos

Com os santos óleos de que vens ungido
Podes andar no mundo sem receio.
Quem veio para a Luz, por certo veio
Para ser valoroso e ser temido.

Que tudo é embalde, tudo em vão, perdido
Quando se traz esse divino anseio,
Esse doce tranporte ou doce enleio
Que deixa tudo e tudo confundido.

A Alma que comop a vela chega ao porto
Sente o melhor, consolador conforto
E a asa nas asas dos Arcanjos toca…

Os santos óleos são a luz guiadora
Que vigia por ti na pecadora
Terra e o teu mundo celestial evoca

Pensas Tu, Bela Anarda, Que Os Poetas

Pensas tu, bela Anarda, que os poetas
Vivem d’ar, de perfumes, d’ambrosia?
Que vagando por mares d’harmonia
São melhores que as próprias borboletas?

N√£o creias que eles sejam t√£o patetas.
Isso é bom, muito bom mas em poesia,
S√£o contos com que a velha o sono cria
No menino que engorda a comer petas!

Talvez mesmo que algum desses brejeiros
Te diga que assim é, que os dessa gente
Não são lá dos heróis mais verdadeiros.

Eu que sou pecador, – que indiferente
N√£o me julgo ao que toca aos meus parceiros,
Julgo um beijo sem fim cousa excelente.

O Redentor Chorando

Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o fr√°gil sofrimento.

Mas s√ļbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.

Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a M√£e, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.

Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.

Pecadora

Tinha no olhar cetíneo, aveludado,
A chama cruel que arrasta os cora√ß√Ķes,
Os seios rijos eram dois bras√Ķes
Onde fulgia o simb’lo do Pecado.

Bela, divina, o porte emoldurado
No m√°rmore sublime dos contornos,
Os seios brancos, palpitantes, mornos,
Dançavam-lhe no colo perfumado.

No entanto, esta mulher de gr√£ beleza,
Moldada pela m√£o da Natureza,
Tornou-se a pecadora vil. Do fado,

Do destino fatal, presa, morria
Uma noute entre as vascas da agonia
Tendo no corpo o verme do pecado!

Queixam-se Todos os Defuntos

Nós, abaixo assinados pela terra,
clamamos, de que em tanta mortandade
não tenha entrado Médico, nem Frade;
e que só faça a morte aos pobres guerra!

Dir√° a morte que pouco ou nada erra,
em desviar de toda a enfermidade
a dois que s√£o da sua faculdade;
porque o Médico mata e o Frade enterra.

Replicamos: que as tumbas com frequências,
andam c√° por estreitos pecadores,
sem subirem às largas consciências.

Dirá também que os tais são matadores;
e é preciso que tenha dependências
a morte com Ministros e Senhores.

[Queixam-se todos os defuntos, que houve na epidemia que padeceu Lisboa, no ano de 1723]

Regina Martyrum

Lírio do Céu, sagrada criatura,
Mãe das crianças e dos pecadores,
Alma divina como a luz e as flores
Das virgens castas a mais casta e pura;

Do Azul imenso, d’essa imensa altura
Para onde voam nossas grandes dores,
Desce os teus olhos cheios de fulgores
Sobre os meus olhos cheios de amargura!

Na dor sem termo pela negra estrada
Vou caminhando a sós, desatinada,
– Ai! pobre cega sem amparo ou guia! –

S√™ tu a m√£o que me conduza ao porto…
√ď doce m√£e da luz e do conforto,
Ilumina o terror d’esta agonia!

Soneto Sentimental À Cidade De São Paulo

√ď cidade t√£o l√≠rica e t√£o fria!
Mercen√°ria, que importa – basta! – importa
Que à noite, quando te repousas morta
Lenta e cruel te envolve uma agonia

Não te amo à luz plácida do dia
Amo-te quando a neblina te transporta
Nesse momento, amante, abres-me a porta
E eu te possuo nua e frígida.

Sinto como a tua íris fosforeja
Entre um poema, um riso e uma cerveja
E que mal h√° se o lar onde se espera

Traz saudade de alguma Baviera
Se a poesia é tua, e em cada mesa
H√° um pecador morrendo de beleza?

Pecador

Este é o altivo pecador sereno,
Que os soluços afoga na garganta,
E, calmamente, o copo de veneno
Aos l√°bios frios sem tremer levanta.

Tonto, no escuro pantanal terreno
Rolou. E, ao cabo de torpeza tanta,
Nem assim, miser√°vel e pequeno,
Com t√£o grandes remorsos se quebranta.

Fecha a vergonha e as l√°grimas consigo…
E, o coração mordendo impenitente,
E, o coração rasgando castigado,

Aceita a enormidade do castigo,
Com a mesma face com que antigamente
Aceitava a delícia do pecado.

(dream)

Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
√Č at√© onde, por fim mal, trope√ßo
No que de mim em mim de si se esquece.

Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.

Mas, vinda dos vest√≠gios da dist√Ęncia
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou √Ęnsia.

Remiu-se o pecador impenitente
√Ä sombra e cisma. Teve a eterna inf√Ęncia,
Em que comigo forma um mesmo ente.

Minha Culpa

A Artur Ledesma

Sei l√°! Sei l√°! Eu sei l√° bem
Quem sou?! Um fogo-f√°tuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cen√°rio! Um vaiv√©m…

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei l√° quem Sou?! Sei l√°! Sou a roupagem
Dum doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei l√° quem!…

Sou um verme que um dia quis ser astro…
Uma est√°tua truncada de alabastro…
Uma chaga sangrenta do Senhor…

Sei l√° quem sou?! Sei l√°! Cumprindo os fados,
Num mundo de vaidades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador…