Sonetos sobre √öltimos

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Sonetos de √ļltimos escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

V – A Vida E O Barco

Andar e mais andar é a vida a bordo;
Mal estudo, e apenas eu vou lendo;
A noite com a m√ļsica entretendo;
Deito-me cedo, e mais cedo acordo.

Saudosíssimo a pátria eu recordo,
E, pra consolo versos lhe fazendo,
Desenho terras só aquela vendo,
E para n√£o chorar os l√°bios mordo.

Enfim h√° de chegar, eu bem o sei,
Que o Brasil eu reveja jubiloso;
E, se outrora eu servi-lo só pensei,

Muito mais forte e muito mais zeloso,
Para ainda mais servi-lo, voltarei
T√© que nele encontre o √ļltimo repouso.

Espiritualismo

I

Como um vento de morte e de ruína,
A D√ļvida soprou sobre o Universo.
Fez-se noite de s√ļbito, imerso
O mundo em densa e algida neblina.

Nem astro j√° reluz, nem ave trina,
Nem flor sorri no seu aéreo berço.
Um veneno subtil, vago, disperso,
Empeçonhou a criação divina.

E, no meio da noite monstruosa,
Do silêncio glacial, que paira e estende
O seu sud√°rio, d’onde a morte pende,

Só uma flor humilde, misteriosa,
Como um vago protesto da existência,
Desabroxa no fundo da Consciência.

II

Dorme entre os gelos, flor imaculada!
Luta, pedindo um ultimo clar√£o
Aos sóis que ruem pela imensidão,
Arrastando uma aur√©ola apagada…

Em v√£o! Do abismo a boca escancarada
Chama por ti na g√©lida amplid√£o…
Sobe do poço eterno, em turbilhão,
A treva primitiva conglobada…

Tu morrerás também. Um ai supremo,
Na noite universal que envolve o mundo,
Ha-de ecoar, e teu perfume extremo

No v√°cuo eterno se esvair√° disperso,
Como o alento final d’um moribundo,
Como o √ļltimo suspiro do Universo.

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A Esmola De Dulce

Ao Alfredo A.

E todo o dia eu vou como um perdido
De dor, por entre a dolorosa estrada,
Pedir a Dulce, a minha bem amada,
A esmola dum carinho apetecido.

E ela fita-me, o olhar enlanguescido,
E eu balbucio trêmula balada:
– Senhora, dai-me u’a esmola – e estertorada
A minha voz soluça num gemido.

Morre-me a voz, e eu gemo o √ļltimo harpejo,
Estendo à Dulce a mão, a fé perdida,
E dos l√°bios de Dulce cai um beijo.

Depois, como este beijo me consola!
Bendita seja a Dulce! A minha vida
Estava unicamente nessa esmola.

Fosse Eu Apenas, N√£o Sei Onde Ou Como

Fosse eu apenas, n√£o sei onde ou como,
Uma coisa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu dourado assomo….

Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de n√£o pertencer
Meu intuito gloríola com Ter
A √°rvore do meu uso o √ļnico pomo…

Fosse eu uma met√°fora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,

Mas doente, e , num crep√ļsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na √ļltima tarde de um imp√©rio em chamas…

Soneto da Chuva

Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha inf√Ęncia, terra que eu pisei:
aqueles versos de √°gua onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?

Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa √ļltima √≥rbita em que fores
carregada de cinza como a lua.

Porque bebes as dores que me s√£o dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu cora√ß√£o, vis√Ķes abandonadas.

Deixem chover as l√°grimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.

Asa De Corvo

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa pr√≥pria casa…

Perseguido por todos os reveses,
√Č meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irm√£os siameses!

√Č com essa asa que eu fa√ßo este soneto
E a ind√ļstria humana faz o pano preto
Que as fam√≠lias de luto martiriza…

√Č ainda com essa asa extraordin√°ria
Que a Morte – a costureira funer√°ria –
Cose para o homem a √ļltima camisa!

Ecos D’alma

Oh! madrugada de ilus√Ķes, sant√≠ssima,
Sombra perdida l√° do meu Passado,
Vinde entornar a cl√Ęmide pur√≠ssima
Da luz que fulge no ideal sagrado!

Longe das tristes noutes tumulares
Quem me dera viver entre quimeras,
Por entre o resplandor das Primaveras
Oh! madrugada azul dos meus sonhares;

Mas quando vibrar a √ļltima balada
Da tarde e se calar a passarada
Na bruma sepulcral que o céu embaça,

Quem me dera morrer ent√£o risonho,
Fitando a nebulosa do meu Sonho
E a Via-L√°ctea da Ilus√£o que passa!

Depois Da Orgia

O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma t√ļnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, s√īfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a √ļltima alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
√Äs decomposi√ß√Ķes da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

Conchita

Adeus aos filtros da mulher bonita;
A esse rosto espanhol, pulcro e moreno;
Ao p√© que no bolero… ao p√© pequeno;
P√© que, al√≠gero e c√©lere, saltita…

Lira do amor, que o amor n√£o mais excita,
A um silêncio de morte eu te condeno;
Despede-te; e um adeus, no √ļltimo treno,
Soluça às graças da gentil Conchita:

A esses, que em ondas se levantam, seios
Do mais cheiroso jambo; a esses quebrados
Olhos meridionais de ardência cheios;

A esses l√°bios, enfim, de n√°car vivo,
Virgens dos l√°bios de outrem, mas corados
Pelos beijos de um sol quente e lascivo.

O Lupanar

Ali! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do √Ęngulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!

Este logar, moços do mundo, vêde:
√Č o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!

√Č o afrodis√≠aco leito do hetairismo,
A antec√Ęmara l√ļbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre,

Quando a promiscuidade aterradora
Matar a √ļltima for√ßa geradora
E comer o √ļltimo √≥vulo do ventre!

Budismo Moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e… corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do √ļltimo verso que eu fizer no mundo!

Versos √ćntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua √ļltima quimera.
S√≥mente a Ingratid√£o – esta pantera –
Foi tua companheira insepar√°vel!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miser√°vel,
Mora, entre feras, sente inevit√°vel
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa m√£o vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Desterro

J√° me n√£o amas? Basta! Irei, triste, e exilado
Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho.
Adeus, carne cheirosa! Adeus, primeiro ninho
Do meu delírio! Adeus, belo corpo adorado!

Em ti, como num vale, adormeci deitado,
No meu sonho de amor, em me√£o do caminho…
Beijo-te inda uma vez, num √ļltimo carinho,
Como quem vai sair da p√°tria desterrado…

Adeus, corpo gentil, p√°tria do meu desejo!
Berço em que se emplumou o meu primeiro idílio,
Terra em que floresceu o meu primeiro beijo!

Adeus! Esse outro amor h√° de amargar-me tanto
Como o pão que se come entre estranhos, no exílio,
Amassado com fel e embebido de pranto…

Perdoa-Me Vis√£o Dos Meus Amores

Perdoa-me vis√£o dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!…
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo a estação das flores!

De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais v√£o revelando
Que peno e morro de amorosas dores…

Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora…

Sem que √ļltima esperan√ßa me conforte,
Eu – que outrora vivia! – eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!

O Martírio Do Artista

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a idéa! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do √ļltimo momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!…
√Č como o paral√≠tico que, √† mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em v√£o falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

Derradeira Inspiração

Este √© o √ļltimo verso onde talvez
a tua imagem seja percebida,
Рo instante derradeiro em que te vês
a inspirar o meu verso e a minha vida…

Guarda-o depois das linhas que tu lês
morrer√°s… e h√°s de ser sempre esquecida…
Рnão tornarei sequer uma só vez
a falar na lembran√ßa mais querida…

Este √© o √ļltimo adeus que ainda te dou,
Рtermina aqui a imensa trajetória
que o teu destino sobre o meu tra√ßou…

Daqui por diante… avan√ßarei sozinho,
e nunca mais te encontrarás na história
dos versos que fizer em meu caminho!

O Corrupi√£o

Escaveirado corrupi√£o idiota,
Olha a atmosfera livre, o amplo éter belo,
E a alga cript√≥gama e a √ļsnea e o cogumelo,
Que do fundo do ch√£o todo o ano brota!

Mas a √Ęnsia de alto voar, de √† antiga rota
Voar, n√£o tens mais! E pois, preto e amarelo,
P√Ķes-te a assobiar, bruto, sem cerebelo
A gargalhada da √ļltima derrota!

A gaiola aboliu tua vontade.
Tu nunca mais ver√°s a liberdade! …
Ah! Tu somente ainda és igual a mim.

Continua a comer teu milho alpiste.
Foi este mundo que me fez t√£o triste,
Foi a gaiola que te p√īs assim!

Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar    de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome    fechado o corpo ao breve
instante em que a den√ļncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo    nem mártir    nem soldado
Mas apenas¬†¬†¬† por √ļltimo¬†¬†¬† indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
d√° o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

O √öltimo N√ļmero

Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,
A id√©ia estertorava-se… No fundo
Do meu entendimento moribundo
jazia o √ļltimo n√ļmero cansado.

Era de vê-lo, imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora da sucess√£o, estranho ao mundo,
Com o reflexo f√ļnebre do Increado:

Bradei: – Que fazes ainda no meu cr√Ęnio?
E o √ļltimo n√ļmero, atro e subterr√Ęneo,
Parecia dizer-me: “√Č tarde, amigo!

Pois que a minha ontogênica Grandeza
Nunca vibrou em tua língua presa,
N√£o te abandono mais! Morro contigo!”

Aspiração

Deve ser bom morrer numa noite como essa!
Beber a luz do luar e sentir-lhe a embriaguez.
Quando se sofre assim, a morte √© uma promessa…
Vou tentar ser feliz pela √ļltima vez.

Foi diferente a minha vida. Andou depressa.
O que fiz, o destino inclemente desfez.
Quando o amor se dilui e a saudade começa,
Talvez a morte seja um consolo… talvez.

Serei no c√©u pastor de estrelas… Entre os dedos
Prenderei um punhado delas, uma a uma,
E ao som da avena que um pastor-poeta me deu,

A lua se desmanchar√° sobre os rochedos,
Para que eu veja nela, em seu vulto de espuma,
A mulher que foi sombra e … desapareceu.