Sonetos sobre Próprio

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Sonetos de próprio escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

XXII

Neste √°lamo sombrio, aonde a escura
Noite produz a imagem do segredo;
Em que apenas distingue o próprio medo
Do feio assombro a hórrida figura;

Aqui, onde n√£o geme, nem murmura
Z√©firo brando em f√ļnebre arvoredo,
Sentado sabre o tosco de um penedo
Chorava Fido a sua desventura.

As l√°grimas a penha enternecida
Um rio fecundou, donde manava
D’√Ęnsia mortal a c√≥pia derretida:

A natureza em ambos se mudava;
Abalava-se a penha comovida;
Fido, est√°tua da dor, se congelava.

Sorriso Interior

O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse bras√£o augusto
Do grande amor, da nobre f√© tranq√ľila.

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem √Ęnsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo efl√ļvio.

O ser que √© ser tranforma tudo em flores…
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as √°guas do Dil√ļvio!

Soror Saudade

A Américo Durão

Irm√£, Soror Saudade, me chamaste…
E na minh’alma o nome iluminou-se
Como um vitral ao sol, como se fosse
A luz do próprio sonho que sonhaste.

Numa tarde de Outono o murmuraste;
Toda a m√°goa do Outono ele me trouxe;
Jamais me h√£o-de chamar outro mais doce;
Com ele bem mais triste me tornaste…

E baixinho, na alma de minh’alma,
Como bênção de sol que afaga e acalma,
Nas horas m√°s de febre e de ansiedade,

Como se fossem pétalas caindo,
Digo as palavras desse nome lindo
Que tu me deste: “Irm√£, Soror Saudade”…

Nerah

(Inspirado no elegante conto de Virgílio Várzea)
A Vítor Lobato

Nerah n√£o brinca mais, n√£o dan√ßa mais. — E agora
Que v√£o-se apropinquando os tempos invernosos,
Nerah traz uns receios tímidos, nervosos,
De quem teme mudar-se em noite, sendo aurora.

Seus sonhos de cristal, transl√ļcidos, antigos
Se vão embora, embora à vinda dos invernos,
Seguindo em debandada os √ļmidos galernos —
— lembrando um roto bando informe de mendigos.

N√£o canta o sabi√° que triste na gaiola,
Parece, com o olhar, pedir-lhe a casta esmola
De um riso — aquela flor que esvai-se, branca e fria.

Em tudo a fina seta aguda de afli√ß√Ķes!
Na pr√≥pria atmosfera um caos de interjei√ß√Ķes!
Em tudo uma mortalha, em tudo uma agonia.

A Beleza

De um sonho escultural tenho a beleza rara,
E o meu seio, ‚ÄĒ jardim onde cultivo a dor,
Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,
Com a eterna mudez do marmor’ de Carrara

Sou esfinge subtil no Azul a dominar,
Da brancura do cisne e com a neve fria;
Detesto o movimento, e estremeço a harmonia;
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar.

O Poeta, se me vê nas atitudes fátuas
Que pareço copiar das mais nobres estátuas,
Consome noite e dia em estudos ingentes..

Tenho, p’ra fascinar o meu d√≥cil amante,
Espelhos de cristal, que tornaram deslumbrante
A pr√≥pria imperfei√ß√£o: ‚ÄĒ os meus olhos ardentes!

Tradução de Delfim Guimarães

√Č Bem Feliz

√Č bem feliz por certo, o que somente
Ao r√ļstico lavor acostumado
Conduzir sabe os bois, reger o arado,
E dar à terra a provida semente.

A arte de a lavrar sempre inocente
Estuda só, e ignora afortunado
As novas leis, as m√°ximas de Estado,
E os documentos de enganar a gente.

Projectos v√£os n√£o forma, e sempre isento
Da soberba ambição, nunca a Lisboa
Foi dobrar o joelho ao valimento.

Cabana humilde, onde nasceu, povoa;
E seguro no próprio abatimento,
Só tem medo do Céu, quando trovoa.

Tonta

Dizes que ficas tonta… quando em tua boca
ergo a taça da minha a transbordar de beijos,
e te dou a beber dessa champanha louca
que espuma nos meus l√°bios para os teus desejos.

Dizes… E em teu olhar incendiado talvez,
como que tonto mesmo e ardendo de calor,
vejo se refletir minha própria embriaguez
e o mundo de loucura que h√° no nosso amor…

E receio por ti e por mim, e receio
que um dia ao te sentir tão junto, eu enlouqueça
e aperte no meu peito a maciez do teu seio…

Dizes que ficas tonta… H√°s de ent√£o ficar louca!
E eu tomando entre as mãos tua loura cabeça
hei de fazer sangrar de beijos tua boca! …

Aos Meus Filhos

Na intermitência da vital canseira,
Sois v√≥s que sustentais ( For√ßa Alta exige-o … )
Com o vosso catalítico prestígio,
Meu fantasma de carne passageira!

Vulcão da bioquímica fogueira
Destruiu-me todo o org√Ęnico fast√≠gio …
Dai-me asas, pois, para o √ļltimo rem√≠gio,
Dai-me alma, pois, para a hora derradeira!

Culmin√Ęncias humanas ainda obscuras,
Express√Ķes do universo radioativo,
Ions emanados do meu próprio ideal,

Benditos vós, que, em épocas futuras,
Haveis de ser no mundo subjetivo,
Minha continuidade emocional!

Ontologia do Amor

Tua carne é a graça tenra dos pomares
e abre-se teu ventre de uma a outra lua;
de teus próprios seios descem dois luares
e desse luar vestida é que ficas nua.

√ānsia de voo em asas de ficar
de ti mesma sou o mar e o fundo.
Praia dos seres, quem te viajar
só naufragando recupera o mundo.

Ritmo de céu, por quem és pergunta
de uma azul resposta que n√£o trazes junta
vitral de carne em catedral infinda.

Ter-te amor é já rezar-te, prece
de um imenso altar onde acontece
quem no próprio corpo é céu ainda.

Comunh√£o

Reprimirei meu pranto!… Considera
Quantos, minh’alma, antes de n√≥s vagaram,
Quantos as m√£os incertas levantaram
Sob este mesmo c√©u de luz austera!…

‚ÄĒ Luz morta! amarga a pr√≥pria primavera! ‚ÄĒ
Mas seus pacientes cora√ß√Ķes lutaram,
Crentes só por instinto, e se apoiaram
Na obscura e her√≥ica f√©, que os retempera…

E sou eu mais do que eles? igual fado
Me prende √° lei de ignotas multid√Ķes. ‚ÄĒ
Seguirei meu caminho confiado,

Entre esses vultos mudos, mas amigos,
Na humilde f√© de obscuras gera√ß√Ķes,
Na comunh√£o dos nossos pais antigos.

A uma Rapariga

À Nice

Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas m√£os preciosas de menina.

Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!

Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!

Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir √† luz a haste duma flor!…

Deixei De Ser Aquele Que Esperava

Deixei de ser aquele que esperava,
Isto √©, deixei de ser quem nunca fui…
Entre onda e onda a onda n√£o se cava,

E tudo, em ser conjunto, dura e flui.
A seta treme, pois que, na ampla aljava,
O presente ao futuro cria e inclui.
Se os mares erguem sua f√ļria brava
√Č que a futura paz seu rastro obstrui.

Tudo depende do que n√£o existe.
Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.

Nada me explica. Nada me pertence.
E sobre tudo a lua alheia verte
A luz que tudo dissipa e nada vence.

Se em Nós a Solidão Viver Sozinha

Se em nós a solidão viver sozinha,
sem que nada em nós próprios a perturbe,
cada figura passar√° rainha
na antiguidade s√ļbita da urbe.

Um acento de pena ir√° na linha
vincar a eternidade de figura
a um rosto que quase só caminha
para dentro de o vermos pela pura

subst√Ęncia em si que vive a solid√£o
dentro de nós. E sendo nós só margem
do seu reino de ver por onde v√£o

as figuras passando na paisagem
de um antigo fulgor de coração
aonde passam desde sempre. E agem.

Nas grandes horas em que a insónia avulta

Nas grandes horas em que a insónia avulta
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,

Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me far√£o nada, como frase estulta.

Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.
Meu coração, que fala estando mudo,
Repete seu monótono torpor

Na sombra, no delírio da clareza,
E n√£o h√° Deus, nem ser, nem Natureza
E a própria mágoa melhor fora dor.

Humana Condição

Um sonhar-me distante, um longe incrível
√Č agora o meu estado: Eu sonho o Espa√ßo
Que se fixa no mundo ao invisível
Como se o mundo andasse por meu braço,

Existo além: Sou o animal temível
De Jesus com o mundo-Deus na m√£o.
Sou para além do mundo concebível
Onde morre e começa a criação.

Eu, homem, sondo e meço o Infinito;
Sou corpo e espírito, esse corpo oculto,
E é só na mão de Deus que ressuscito.

E chamam a isto humana condi√ß√£o …
Um nada, e tudo: ‚ÄĒ Vivo e me sepulto
Dentro e fora do próprio coração.

A Grande Dor Das Cousas Que Passaram

A grande dor das cousas que passaram
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.

Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.

√ď bendito passado que era atroz,
e gozoso hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo minha voz

para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!

Homo Infimus

Homem, carne sem luz, criatura cega,
Realidade geogr√°fica infeliz,
O Universo calado te renega
E a tua própria boca te maldiz!

O n√īumeno e o fen√īmeno, o alfa e o omega
Amarguram-te. Hebd√īmadas hostis
Passam… Teu cora√ß√£o se desagrega,
Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris!

Fruto injustific√°vel dentre os frutos,
Mont√£o de estercor√°ria argila preta,
Excrescência de terra singular.

Deixa a tua alegria aos seres brutos,
Porque, na superfície do planeta,
Tu só tens um direito: Рo de chorar!

Decadência

Iguais às linhas perpendiculares
Caíram, como cruéis e hórridas hastas,
Nas suas 33 vértebras gastas
Quase todas as pedras tumulares!

A frialdade dos círculos polares,
Em sucessivas atua√ß√Ķes nefastas,
Penetrara-lhe os próprios neuroplastas,
Estragara-lhe os centros medulares!

Como quem quebra o objeto mais querido
E começa a apanhar piedosamente
Todas as microscópicas partículas,

Ele hoje vê que, após tudo perdido,
S√≥ lhe restam agora o √ļltimo dente
E a armação funerária das clavículas!

Para Quê?

Ao velho amigo Jo√£o

Para quê ser o musgo do rochedo
Ou urze atormentada da montanha?
Se a arranca a ansiedade e o medo
E este enleio e esta ang√ļstia estranha

E todo este feitiço e este enredo
Do nosso próprio peito? E é tamanha
E t√£o profunda a gente que o segredo
Da vida como um grande mar nos banha?

Pra que ser asa quando a gente voa,
De que serve ser c√Ęntico se entoa
Toda a canção de amor do Universo?

Para quê ser altura e ansiedade,
Se se pode gritar uma Verdade
Ao mundo vão nas sílabas dum verso?

Das Terras A Pior Tu √Čs, √ď Goa

Das terras a pior tu és, ó Goa,
Tu pareces mais ermo que cidade,
Mas alojas em ti maior vaidade
Que Londres, que Paris ou que Lisboa.

A chusma de teus íncolas pregoa
Que excede o Gr√£o Senhor na qualidade;
Tudo quer senhoria; o próprio frade
Alega, para t√™-la, o jus da c’roa!

De timbres prenhe est√°s; mas oiro e prata
Em cruzes, com que dantes te benzias,
Foge a teus infan√ß√Ķes de bolsa chata.

Oh que feliz e esplêndida serias,
Se algum fusco Merlim, que faz bagata,
Te alborcasse a pardaus as senhorias!