Passagens sobre Ignorantes

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Saber Avaliar as Situa√ß√Ķes

O que perturba os homens não são as coisas, mas os juízos que os homens formulam sobre as coisas. A morte, por exemplo, nada é de temível Рe Sócrates, quando dele a morte se foi aproximando, de maneira nenhuma se apresentou a morte como algo de tremendamente terrível. Mas no juízo que fazemos da morte, considerando-a temível, é que reside o aspecto terrível da morte. Quando somos hostilizados, contrariados, perturbados, atormentados e magoados, não devemos sacar as culpas a outrem, mas a nós próprios, isto é, aos nossos juízos pessoais e mais íntimos. Acusar os outros das suas infelicidades é mera acção de um ignorante; responsabilizar-se a si próprio por todas as contrariedades é coisa de um homem que começa a instruir-se; e não culpabilizar ninguém nem tão pouco a si próprio, então, sim, então é já feito de um homem perfeitamente instruído.

Os Descrentes

Nunca encontrei um descrente, apenas desvairados inquietos… √© assim que √© melhor trat√°-los. S√£o pessoas diferentes, n√£o se percebe bem o que s√£o: tanto os grandes como os pequenos, os ignorantes como os cultos, mesmo a gente da classe mais simples, tudo neles √© desvario. Porque passam a vida a ler e a interpretar e depois, fartos da do√ßura livresca, continuam perplexos e n√£o conseguem resolver nada.
H√° quem se disperse, de maneira que n√£o consegue atentar em si mesmo. H√° quem seja rijo como pedra, mas no seu cora√ß√£o vagueiam sonhos. H√° tamb√©m o insens√≠vel e f√ļtil que s√≥ quer gozar e ironizar. H√° quem s√≥ tire dos livros florinhas, e mesmo elas consoante a sua opini√£o, e h√° nele desvario e falta de perspic√°cia. E digo mais: h√° muito t√©dio.
O homem pequeno é necessitado, não tem pão, não tem com que sustentar os filhos, dorme na palha áspera, mas tem o coração leve e alegre; é pecador e malcriado, mas mantém na mesma o coração alegre. E o homem grande farta-se de comer e beber, senta-se num montão de ouro, mas tem sempre a mágoa no coração. Há quem domine as ciências mas não se livre do tédio.

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A Instabilidade e Imprevisibilidade do Nosso Comportamento

N√£o deveis estranhar se hoje vedes poltr√£o aquele que ontem vistes t√£o intr√©pido: ou a c√≥lera, ou a necessidade, ou a companhia, ou o vinho, ou o som de uma trombeta, tinham-lhe incutido coragem. N√£o se trata de uma coragem que a raz√£o haja modelado; foram as circunst√Ęncias que lhe deram consist√™ncia; n√£o espanta, pois, que circunst√Ęncias contr√°rias a tenham transformado.
Esta t√£o flex√≠vel varia√ß√£o e estas contradi√ß√Ķes que em n√≥s se v√™em, fizeram com que alguns imaginassem termos duas almas, e que outros supusessem que dois poderes nos acompanham e agitam, cada qual √† sua maneira, um tendendo para o bem, o outro para o mal, j√° que t√£o brutal diversidade n√£o poderia atribuir-se a uma s√≥ entidade.
N√£o somente o vento dos acidentes me agita consoante a direc√ß√£o para que sopra, mas, ademais, eu agito-me e perturbo-me a mim pr√≥prio pela instabilidade da minha postura; e quem, antes do mais, se observar, nunca se achar√° duas vezes no mesmo estado. Confiro √† minha alma ora um rosto ora outro, conforme o lado sobre que a pousar. Se falo de mim de diferentes maneiras √© porque de maneiras diferentes me observo. Toda a sorte de contradi√ß√Ķes se podem encontrar em mim sob algum ponto de vista e sob alguma forma.

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Quando um gênio verdadeiro aparece neste mundo você pode conhecê-lo pelo seguinte sinal, os ignorantes estão todos unidos contra ele.

O general Bonaparte era extremamente ignorante quanto à arte de governar. Alimentado por ideias militares, a decisão sempre lhe pareceu insubordinação.

O Paradoxo da Leitura

O sábio lê livros, mas lê também a vida. O universo é um grande livro e a vida é uma grande escola.
(…) Quanto mais leio mais ignorante fico. A escolha que hoje se depara a qualquer homem educado √© entre a inoc√™ncia que n√£o l√™ e a ignor√Ęncia que l√™ muito.
(…) √Č poss√≠vel sustentar com alguma apar√™ncia de exactid√£o que a imprensa de hoje mata a leitura e a leitura mata o pensamento.

A Ignor√Ęncia Propaga-se Mais R√°pidamente Que a Intelig√™ncia

Voltaire preferia a monarquia √† democracia; na primeira basta educar um homem, na segunda h√° necessidade de educar milh√Ķes – e o coveiro leva-os a todos antes que dez por cento concluam o curso. Raro percebemos as partidas que a limita√ß√£o da natalidade prega aos nossos argumentos. A minoria que consegue educar-se reduz o tamanho da fam√≠lia; a maioria sem tempo para se educar procria com abund√Ęncia; quase todos os componentes das novas gera√ß√Ķes prov√™m de fam√≠lias cujas rendas n√£o permitiram a educa√ß√£o da prole. Da√≠ a perp√©tua futilidade do liberalismo pol√≠tico; a propaga√ß√£o da intelig√™ncia n√£o est√° em compasso com a propaga√ß√£o dos ignorantes. Da√≠ ainda a decad√™ncia do protestantismo; uma religi√£o, do mesmo modo que um povo, n√£o vinga em consequ√™ncia das guerras que vence, sen√£o que dos filhos que gera.

A Censura de Um Deve Pesar Mais que uma Plateia de Ignorantes

Hamlet (para um dos actores): Portanto, nada de conten√ß√£o exagerada. O seu discernimento deve ser o seu guia. Ajuste o gesto √† palavra, a palavra ao gesto, e cuide de n√£o perder a simples naturalidade. Pois tudo o que √© for√ßado foge do prop√≥sito da actua√ß√£o, cuja finalidade, tanto na origem como agora, era e √© erguer um espelho diante da natureza. Mostrar √† virtude as suas fei√ß√Ķes; ao orgulho, o desprezo, e a cada √©poca e gera√ß√£o, sua figura e estampa. O exagero e a imper√≠cia podem divertir os incultos, mas causam apenas desconforto aos judiciosos; √†queles cuja censura, ainda que de um s√≥, deve pesar mais em sua estima que toda uma plateia de ignorantes.

A Sabedoria da Velhice

Nós, os novos, seremos velhos um dia. Essa é mesmo a melhor saída para a nossa vida, sinal de que atingimos uma sabedoria maior, prémio por termos alcançado o topo da hierarquia da existência. Não é o tempo que nos faz auferir esse estatuto, mas o tempo dá-nos mais tempo para fazermos alguma coisa com ele e assim aprender para saber mais.
Ningu√©m sabe mais do que um velho. Ao lado do seu av√ī, um doutorado √© um ignorante e, se afirmar saber mais do que aquelas duas gera√ß√Ķes de diferen√ßa, √© um ignorante imbecil. √Č o que n√£o falta entre n√≥s, os novos. D√°-se mais valor ao que se aprende nas faculdades do que ao que se aprende na vida, d√°-se mais valor √† teoria do que √† pr√°tica. Coitados de n√≥s. E depois n√£o nos lembramos da idade, achamos que nos passa ao lado e por isso n√£o reconhecemos aos velhos o estatuto de s√°bios e o respeito que lhes √© devido. Somos imbecis. A maior parte de n√≥s √© tonta. S√≥ isso justifica o abandono. Um velho √© um mapa de conhecimento, tem dentro dele muitas estradas principais, muitas vias secund√°rias e muitos atalhos, muitos becos sem sa√≠da,

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Nenhuma verdade me parece mais evidente que os animais serem dotados de pensamento e raz√£o tal como os homens. Os argumentos neste caso s√£o t√£o √≥bvios, que nunca escapam aos mais est√ļpidos e ignorantes.

A enorme quantidade de livros que circulam por aí está a deixar-nos completamente ignorantes.

√Č coisa averiguada que n√£o se sabe nada e que todos s√£o ignorantes, e mesmo isso n√£o se sabe ao certo, pois, em se sabendo, j√° se saberia algo.