Textos sobre Tom

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Textos de tom escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Irrelev√Ęncia da Escrita Controversa

Suponhamos que amanh√£, como consequ√™ncia de terem lido Henri Miller, todas as pessoas come√ßavam a usar uma linguagem livre, uma linguagem de sarjeta, se quiserem, e a agir de acordo com as suas cren√ßas e convic√ß√Ķes. E ent√£o ? A minha resposta √© que, acontecesse o que acontecesse, seria como nada tivesse ocorrido, nada, insisto, se o compararmos com os efeitos da explos√£o de uma √ļnica bomba at√≥mica. E isto √©, confesso, a coisa mais triste que um indiv√≠duo criador como eu pode admitir. √Č minha convic√ß√£o que estamos hoje a atravessar um per√≠odo a que se poderia chamar de ¬ęinsensibilidade c√≥smica¬Ľ, um per√≠odo em que Deus parece, mais do que nunca, ausente do mundo, e o homem se v√™ condenado a enfrentar o destino que para si pr√≥prio criou. Num momento como este, a quest√£o de saber se um homem √© ou n√£o culpado de usar de uma linguagem obscena em livros impressos parece-me perfeitamente inconsequente. √Č quase como se eu, ao atravessar um prado, descobrisse uma erva coberta de esterco e, curvando-me para a ervilha obscura, lhe dissesse em tom de admoesta√ß√£o: ¬ę

Porqu√™ Camuflar as Nossas Convic√ß√Ķes?

Desde que nos propomos emitir uma verdade de acordo com as nossas convic√ß√Ķes damos logo a impress√£o de fazer ret√≥rica. Que esp√©cie de prestidigita√ß√£o vem a ser essa? Como √© que nos nossos dias n√£o poucas verdades, proferidas que sejam, por vezes, mesmo em tom pat√©tico, imediatamente ganham aspectos ret√≥ricos? Porqu√™ √© que na nossa √©poca cada vez h√° mais necessidade, quando pretendemos dizer a verdade, de recorrer ao humor, √† ironia, √† s√°tira? Porqu√™ ado√ßar a verdade como se se tratasse de uma p√≠lula amarga? Porqu√™ envolver as nossas convic√ß√Ķes num misto de altiva indiferen√ßa, digamos, de desprezo para com o p√ļblico? Numa palavra, porqu√™ certo ar de p√≠cara condescend√™ncia? Em nossa opini√£o, o homem de bem n√£o tem de envergonhar-se das suas convic√ß√Ķes, ainda mesmo que estas transpare√ßam sob a forma ret√≥rica, sobretudo se est√° certo delas.

O Juízo no seu Ponto Natural

Como √© dif√≠cil propor uma coisa ao ju√≠zo alheio, sem lhe corromper o ju√≠zo pela maneira de lha propor! Se se diz: acho-o belo, acho-o obscuro, ou outra coisa semelhante, arrasta-se a imagina√ß√£o a este ju√≠zo, ou, pelo contr√°rio, afastamo-la dele. Vale mais n√£o dizer nada; e ent√£o ele julga conforme o que √©, quer dizer, conforme o que √© ent√£o e o que as outras circunst√Ęncias de que n√£o somos autores lhe tenham sugerido. Mas ao menos n√£o teremos insinuado nada; a n√£o ser que este sil√™ncio tamb√©m produza o seu efeito, conforme a volta e a interpreta√ß√£o que estiver de humor a dar-lhe, ou conforme o que conjecturar dos movimentos de express√£o da cara ou do tom da voz, conforme for fisionomista: t√£o dif√≠cil √© manter um ju√≠zo no seu ponto natural, ou antes, t√£o pouca firmeza e estabilidade h√°!

Sobre a Diferença dos Espíritos

Apesar de todas as qualidades do espírito se poderem encontrar num grande espírito, algumas há, no entanto, que lhe são próprias e específicas: as suas luzes não têm limites, actua sempre de igual modo e com a mesma actividade, distingue os objectos afastados como se estivessem presentes, compreende e imagina as coisas mais grandiosas, vê e conhece as mais pequenas; os seus pensamentos são elevados, extensos, justos e intelegíveis; nada escapa à sua perspicácia, que o leva sempre a descobrir a verdade, através das obscuridades que a escondem dos outros. Mas, todas estas grandes qualidades não impedem por vezes que o espírito pareça pequeno e fraco, quando o humor o domina.
Um belo esp√≠rito pensa sempre nobremente; produz com facilidade coisas claras, agrad√°veis e naturais; torna vis√≠veis os seus aspectos mais favor√°veis, e enfeita-os com os ornamentos que melhor lhes conv√™m; compreende o gosto dos outros e suprime dos seus pensamentos tudo o que √© in√ļtil ou lhe possa desagradar. Um esp√≠rito recto, f√°cil e insinuante sabe evitar e ultrapassar as dificuldades; adapta-se facilmente a tudo o que quer; sabe conhecer e acompanhar o espirito e o humor daqueles com quem priva e ao preocupar-se com os interesses dos amigos,

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N√£o H√° Amor como o Primeiro

N√£o h√° amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, h√° o equivalente adulto ao primeiro amor ‚ÄĒ √© o primeiro casamento; mas n√£o √© igual. O primeiro amor √© uma chapada, um sacudir das ra√≠zes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e n√£o nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as √≥rbitas dos olhos, do impens√°vel calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde salt√°mos. Saltamos e ca√≠mos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer tr√™s ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na √°gua ou no ch√£o, como patos disparados de um obus, com penas a esvoa√ßar por toda a parte.

H√° amores melhores, mas s√£o amores cansados, amores que j√° levaram na cabe√ßa, amores que sabem dizer ‚ÄúAlto-e-p√°ra-o-baile‚ÄĚ, amores que j√° d√£o o desconto, amores que j√° t√™m medo de se magoarem, amores democr√°ticos, que se discutem e debatem. E todos os amores d√£o maior prazer que o primeiro. O primeiro amor est√° para al√©m das categorias normais da dor e do prazer. N√£o faz sentido sequer.

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Casamento e Fus√£o Moral

Na vida conjugal, o casal s√≥ deve formar de certo modo uma √ļnica pessoa moral, animada e governada pelo gosto da mulher e pela intelig√™ncia do homem. Se as mulheres mostram mais liberdade e fineza no sentimento, em compensa√ß√£o os homens parecem mais ricos no discernimento que a experi√™ncia d√°. Acrescentemos que quanto mais um car√°cter √© sublime, mais ele tende a fazer todos os seus esfor√ßos para o contentamento do ser amado, e √© caracter√≠stico de uma bela alma responder a isso com complac√™ncia. Sob essa rela√ß√£o, toda a pretens√£o √† superioridade seria, portanto, inepta e reveladora de um gosto grosseiro ou de uma uni√£o mal sucedida. Tudo se perde quando se disputa o comando. Pois uma vez que a uni√£o repousa na inclina√ß√£o, ela √© meio rompida assim que o dever come√ßa a se fazer entender.
Um tom duro e impiedoso é um dos mais detestáveis nas mulheres, um dos mais vis e desprezíveis nos homens. O sábio comando da natureza quer, além disso, que toda essa delicadeza, toda essa ternura de sentimento só tenha plena força no começo, em seguida a vida em comum e os afazeres domésticos vêm enfraquecê-la, pouco a pouco, e transformá-la em amizade familiar.

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O Nosso C√≥digo √Čtico e Moral Desculpabiliza-nos Perante a Recusa de Aliviarmos o Sofrimento Alheio

Eu não desviava os olhos de minha mãe, sabia que, quando estivessem à mesa, não me seria permitido ficar até ao fim da refeição, e que, para não contrariar meu pai, a mamã não me deixaria beijá-la várias vezes diante dos outros, como se fosse no meu quarto.
(…) antes de tocarem a sineta para o jantar, meu av√ī teve a ferocidade inconsciente de dizer: ¬ęO pequeno parece cansado; deveria ir deitar-se. E depois, jantamos tarde hoje.¬Ľ E meu pai,(…) disse: ¬ęSim. Anda, vai deitar-te.¬Ľ Eu quis beijar a mam√£; nesse instante ouviu-se a sineta do jantar. ¬ęN√£o, n√£o, deixa a tua m√£e em paz, voc√™s j√° se despediram bastante, essas demonstra√ß√Ķes s√£o rid√≠culas. Anda, sobe!¬Ľ E eu tive de partir sem vi√°tico; tive de subir cada degrau ¬ęcontra o cora√ß√£o¬Ľ, subindo contra o meu cora√ß√£o, que desejava voltar para junto de minha m√£e porque ela n√£o lhe havia dado, com um beijo, licen√ßa de me acompanhar.
(…) J√° no meu quarto, tive de (…) cerrar os postigos, cavar o meu pr√≥prio t√ļmulo enquanto virava as cobertas, vestir o sud√°rio da minha camisa de dormir. Mas antes de sepultar-me no leito de ferro (…), veio-me um impulso de revolta e resolvi tentar um ardil de condenado.

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N√£o Amar nem Odiar

Se possível, não devemos alimentar animosidade contra ninguém, mas observar bem e guardar na memória os procedimentos de cada pessoa, para então fixarmos o seu valor, pelo menos naquilo que nos concerne, regulando, assim, a nossa conduta e atitude em relação a ela, sempre convencidos da imutabilidade do carácter. Esquecer qualquer traço ruim de uma pessoa é como jogar fora dinheiro custosamente adquirido. No entanto, se seguirmos o presente conselho, estaremos a proteger-nos da confiabilidade e da amizade tolas.
¬ęN√£o amar, nem odiar¬Ľ, eis uma senten√ßa que cont√©m a metade da prud√™ncia do mundo; ¬ęnada dizer e em nada acreditar¬Ľ cont√©m a outra metade. Decerto, daremos de bom grado as costas a um mundo que torna necess√°rias regras como estas e como as seguintes.
Mostrar c√≥lera e √≥dio nas palavras ou no semblante √© in√ļtil, perigoso, imprudente, rid√≠culo e comum. Nunca se deve revelar c√≥lera ou √≥dio a n√£o ser por actos; e estes podem ser praticados tanto mais perfeitamente quanto mais perfeitamente tivermos evitado os primeiros. Apenas animais de sangue frio s√£o venenosos.
Falar sem elevar a voz: essa antiga regra das gentes do mundo tem por alvo deixar ao entendimento dos outros a tarefa de descobrir o que dissemos.

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Ignor√Ęncia Atrevida

√Č a ignor√Ęncia profunda que inspira o tom dogm√°tico. Aquele que nada sabe pensa ensinar aos outros o que acaba de aprender; aquele que sabe muito mal chega a pensar que o que diz possa ser ignorado, e fala com maior indiferen√ßa. As maiores coisas s√≥ precisam de ser ditas de forma simples; elas estragam-se com a √™nfase: √© preciso dizer nobremente as pequenas; elas s√≥ se sustentam pela express√£o, pelo tom e pela maneira.

A Génese de um Poema

A maior parte dos escritores, sobretudo os poetas, preferem deixar supor que comp√Ķem numa esp√©cie de espl√™ndido frenesim, de ext√°tica intui√ß√£o; literalmente, gelar-se-iam de terror √† ideia de permitir ao p√ļblico que desse uma espreitadela por detr√°s da cena para ver os laboriosos e incertos partos do pensamento, os verdadeiros planos compreendidos s√≥ no √ļltimo minuto, os in√ļmeros balbucios de ideias que n√£o alcan√ßaram a maturidade da plena luz, as imagina√ß√Ķes plenamente amadurecidas e, no entanto, rejeitadas pelo desespero de as levar a cabo, as op√ß√Ķes e as rejei√ß√Ķes longamente ponderadas, as t√£o dif√≠ceis emendas e acrescentas, numa palavra, as rodas e as empenas, as m√°quinas para mudan√ßa de cen√°rio, as escadas e os al√ßap√Ķes, o vermelh√£o e os posti√ßos que em 99% dos casos constituem os acess√≥rios do histri√£o liter√°rio.
(…) No que a mim diz respeito, n√£o compartilho da repugn√Ęncia de que falei e nunca senti a m√≠nima dificuldade em rememorar a marcha progressiva de todas as minhas obras. Escolho O Corvo por ser a mais conhecida. Proponho-me demonstrar claramente que nenhum pormenor da sua composi√ß√£o se pode explicar pelo acaso ou pela intui√ß√£o, que a obra se desenvolveu, a par e passo, at√© √† sua conclus√£o com a precis√£o e o rigor l√≥gico de um problema matem√°tico.

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Não há Vida Boa sem Autodomínio

O homem faz-se ou desfaz-se a si mesmo. O homem controla as suas paix√Ķes, as suas emo√ß√Ķes, o seu futuro. Consegue-o canalizando os seus impulsos f√≠sicos para conseguir realiza√ß√Ķes espirituais. Qualquer animal pode esbanjar a sua for√ßa realizando os impulsos f√≠sicos sempre que os sente. Compete ao homem canaliz√°-los para fins mais produtivos que a satisfa√ß√£o dos impulsos. Ningu√©m se tornou ilustre por fazer o que lhe apetecia. Os homens insignificantes fazem o que querem – e tornam-se nuns Z√©s-Ningu√©m. Os grandes submetem-se √†s leis que regem o sector em que s√£o grandes.
O autodomínio é sempre recompensado com uma força que dá uma alegria interior inexprimível e silenciosa que se torna no tom dominante da vida. O autodomínio é a qualidade que distingue os mais aptos para sobreviverem. O mais importante atributo do homem como ser moral é a faculdade de autodomínio escreveu Herbert Spencer. Nunca houve, nem pode haver, uma vida boa sem autodomínio; sem ele a vida é inconcebível. A vitória mais importante e mais nobre do homem é a conquista de si mesmo.

Vivência Limitada

A. impossibilidade de participar de todas as combina√ß√Ķes em desenvolvimento a qualquer instante numa grande cidade tem sido uma das dores de minha vida. Sofro como se sentisse em mim, como se houvesse em mim uma capacidade desmesurada de agir. Entretanto, na parte de a√ß√£o que a vida me reserva, muitas vezes me abstenho e outras me confundo. […] A ideia de que diariamente, a cada hora, a cada minuto e em cada lugar se realizam milhares de a√ß√Ķes que me teriam profundamente interessado, de que eu certamente deveria tomar conhecimento e que entretanto jamais me ser√£o comunicadas ‚ÄĒ basta para tirar o sabor a todas as perspectivas de a√ß√£o que encontro √† minha frente. O pouco que eu pudesse obter n√£o compensaria jamais esse infinito perdido. Nem me consola o pensamento de que, entrando na confronta√ß√£o simult√Ęnea de tantos acontecimentos, eu n√£o pudesse sequer registr√°-los, quanto mais dirigi-los √† minha maneira ou mesmo tomar de cada um o aspecto singular, o tom e o desenho pr√≥prios, uma por√ß√£o, m√≠nima que fosse, de sua peculiar subst√Ęncia.

As Queixas dos Pais

√Č desagrad√°vel ouvir o meu pai falar, sempre cheio de insinua√ß√Ķes, da boa sorte das pessoas de hoje e especialmente dos filhos dele, dos sofrimentos por que teve de passar quando era novo. Ningu√©m nega que, durante anos, por n√£o ter roupa de Inverno capaz, ele teve feridas nas pernas, que andou muitas vezes com fome, que quando s√≥ tinha ainda dez anos empurrava uma carro√ßa pelas aldeias, at√© de Inverno e de manh√£ muito cedo ‚ÄĒ mas, e isto √© uma coisa que ele n√£o compreende, estes factos, juntamente com o de eu n√£o ter tido de passar por tudo isto, n√£o levam a concluir que eu sou mais feliz do que ele, que ele se pode orgulhar das feridas que teve nas pernas, que √© uma coisa de que se arroga e que afirma desde o princ√≠pio, que eu n√£o posso avaliar os seus sofrimentos e que, finalmente, s√≥ porque n√£o passei pelos mesmos sofrimentos, tenho de lhe estar eternamente grato. O prazer que eu n√£o teria de o ouvir falar da sua juventude e dos pais, mas ouvir tudo isto naquele tom de orgulho e agressividade √© um tormento. Est√° constantemente a erguer as m√£os: ¬ęQuem √© capaz de compreender isto hoje!

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Hino √† Toler√Ęncia

J√° ser√° grande a tua obra se tiveres conseguido levar a toler√Ęncia ao esp√≠rito dos que vivem em volta; toler√Ęncia que n√£o seja feita de indiferen√ßa, da cinzenta igualdade que o mundo apresenta aos olhos que n√£o v√™em e √†s m√£os que n√£o agem; toler√Ęncia que, afirmando o que pensa, ainda nas horas mais perigosas, se co√≠ba de eliminar o advers√°rio e tenha sempre presente a diferen√ßa das almas e dos h√°bitos; dar-lhe-√£o, se quiserem, o tom da ironia, para si pr√≥prios, para os outros; mas n√£o h√£o-de cair no cepticismo e no c√≥modo sorriso superior; quando chegar o proceder, saber√£o o gosto da energia e das firmes atitudes. Mais a h√£o-de ter como vencedores do que como vencidos; a toler√Ęncia em face do que esmaga n√£o anda longe do temor; ent√£o, antes os quero violentos que cobardes.
Mas tu mesmo, Marcos, com que direito és tolerante? Acaso te julgas possuidor da verdade? Em que trono te sentaram para que assim olhes de cima o resto dos humanos e todo o mundo em redor? Por que tão cedo te separas de compreender e de amar? Tens a pena do rico para o pobre, dás-lhe a esmola de lhe não fazer mal;

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Insultar é uma Honra

Assim como ser insultado √© uma vergonha, insultar √© uma honra. Por exemplo, mesmo que a verdade, o direito e a raz√£o estejam do lado do meu advers√°rio, n√£o deixo de insult√°-lo; desse modo, todas as suas qualidades passam a ser desconsideradas, e o direito e a honra passam a estar do meu lado. Ele, pelo contr√°rio, perdeu provisoriamente a sua honra – at√© conseguir restabelec√™-la, n√£o mediante direito e raz√£o, mas por tiros e estocadas. Logo, a rudeza √© uma qualidade que, no ponto de honra, substitui ou se sobrep√Ķe sobre as outras. O mais rude tem sempre raz√£o: para qu√™ tantas palavras? Qualquer estupidez, insol√™ncia, maldade que algu√©m possa ter feito, uma rudeza retira-lhes essa caracter√≠stica e elas s√£o de imediato legitimadas. Se, numa discuss√£o ou conversa, outro indiv√≠duo mostra conhecimento mais correcto do assunto, um amor mais austero √† verdade, um ju√≠zo mais saud√°vel, mais entendimento que n√≥s, ou se em geral exibe m√©ritos intelectuais que nos deixam na sombra, ent√£o podemos de imediato suprimir semelhantes superioridades e a nossa pr√≥pria mesquinhez por elas revelada e sermos, por nosso turno, superiores, tornando-nos ofensivos e rudes.
Pois uma rudeza derrota todo o argumento e eclipsa qualquer espírito;

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Os que Morrem por Amor

Os que morrem por amor continuam a pertencer √† lenda. Os seus funerais arrastam uma multid√£o piedosa, tal como decerto aconteceu na cidade de Verona, h√° seiscentos anos. Ainda que nesse tempo os costumes fossem bastante f√°ceis, a pr√°tica er√≥tica da juventude era muito mais modesta. Reflectindo melhor, √© de crer que a pr√≥pria licen√ßa produzisse um tipo de pessoas orgulhosas da sua intimidade afectiva; o que, se n√£o √© virtude, algo se parece. Este orgulho da pr√≥pria intimidade conduz a uma atitude hostil em rela√ß√£o a tudo o que pode burocratizar os sentimentos. H√° um soci√≥logo inclinado a crer que existe muito de romantismo burocr√°tico no amor moderno. √Č poss√≠vel. E quando aparecem os contestat√°rios dessa esp√©cie de burocracia, como s√£o os Romeus e Julietas do Candal, a cidade fica-lhes agradecida. No campo dos afectos trata-se da luta obstinada que resulta do choque entre a vida privada e o regime governativo; entre um corpo animado de impulsos e uma autoridade explicada por leis. Atrav√©s de inqu√©ritos feitos nos meios juvenis para inquirir das transforma√ß√Ķes que se efectuam no √Ęmbito das rela√ß√Ķes afectivas, deparam-se declara√ß√Ķes bastante confusas. Elas pairam entre uma sinceridade elementar que descura a experi√™ncia e teorias perfeitamente viciadas nos lugares-comuns do s√©culo.

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Faz Acontecer

Mais vale uma √ļnica a√ß√£o rumo ao que desejas do que dez palavras ditas, cem frases escritas ou mil pensamentos iguais.

As coisas n√£o acontecem pelo n√ļmero de vezes que as dizes, escreves ou pensas nelas; as coisas acontecem por aquilo que tu fazes para elas acontecerem.

Nada acontece porque, e por exemplo, afirmas que amanhã é que vais começar a perder peso ou porque desabafas sistematicamente para o papel todas as tuas tristezas ou porque não paras de pensar naquilo que te faria bem. Nada. Rigorosamente nada. O que dizes é zero se não deres forma às tuas palavras. O que escreves é nulo se não existir compromisso para além das palavras. E o que pensas não vale nada se não deres vida aos pensamentos.

As palavras faladas ou escritas têm uma força poderosíssima, é indesmentível, assim como tudo aquilo que pensamos. No entanto, sem ação, sem criação em movimento, de nada valem. O sumo de todas as conversas que tens, de todos os livros que lês ou de todos os diários que escreves e todas as ideias que te pincelam a cabeça, resume-se a nada se daí não se originar mudança.

E não há mudança sem saíres do conforto.

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A Serenidade

A serenidade n√£o √© feita nem de tro√ßa nem de narcisismo, √© conhecimento supremo e amor, afirma√ß√£o da realidade, aten√ß√£o desperta junto √† borda dos grandes fundos e de todos os abismos; √© uma virtude dos santos e dos cavaleiros, √© indestrut√≠vel e cresce com a idade e a aproxima√ß√£o da morte. √Č o segredo da beleza e a verdadeira subst√Ęncia de toda a arte.
O poeta que celebra, na dan√ßa dos seus versos, as magnific√™ncias e os terrores da vida, o m√ļsico que lhes d√° os tons de duma pura presen√ßa, trazem-nos a luz; aumentam a alegria e a clareza sobre a Terra, mesmo se primeiro nos fazem passar por l√°grimas e emo√ß√Ķes dolorosas. Talvez o poeta cujos versos nos encantam tenha sido um triste solit√°rio, e o m√ļsico um sonhador melanc√≥lico: isso n√£o impede que as suas obras participem da serenidade dos deuses e das estrelas. O que eles nos d√£o, n√£o s√£o mais as suas trevas, a sua dor ou o seu medo, √© uma gota de luz pura, de eterna serenidade. Mesmo quando povos inteiros, l√≠nguas inteiras, procuram explorar as profundezas c√≥smicas em mitos, cosmogonias, religi√Ķes, o √ļltimo e supremo termo que poder√£o atingir √© essa serenidade.

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