Poemas sobre Pulm√Ķes

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Poemas de pulm√Ķes escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

Ainda N√£o

Ainda n√£o
n√£o h√° dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda n√£o se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda n√£o h√° uma flor na boca
para os poetas que est√£o aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
.
ainda n√£o h√° nada no pulm√£o direito
ainda n√£o se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda n√£o h√° uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
.
ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda n√£o h√° uma granada
ainda não há um coração

O P√£o

Não é ainda um seio
mas quase. Na brancura.
Porém, onda de leite
a branca levedura.

Um mecanismo incerto
de ferro e madrugada.
A fome e o excesso
futuros. Na seara.

A fome e a carência
de sol(o) para a boca.
Não é ainda um campo
de areia. Ou terra solta.

Um campo descampado
um canto com bolor.
√Č arte que se move
minéria como a água.

Engenho de palato.
Alvéolo de pulmão.
Respira-se o exemplo
de sol. Oxigénio.

Não é ainda um círculo
branco por toda a mesa:
manchado na toalha
de sombra e aspereza.

Não é ainda uma ave
descendo sobre a pele:
um mecanismo triste
movendo a boca breve.

Ninguém o Tinha Amado, Afinal

O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe pira tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu.
Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo:
Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem,
est√£o presentes.
(E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco
nos pulm√Ķes)
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor,
uma liberdade
no peito.

Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os √°cidos, os gumes
E os √Ęngulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulm√Ķes doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas…

O obst√°culo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, h√° dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

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Fragmento Terceiro

I

Campos de ira, t√£o vasto sentimento
vos afasta. íris morta! Os actos radicais
constroem, em projeto, um fr√°gil
universo ‚Äď a tinta, o espa√ßo √≥ptico.
Descansam os sentidos sobre pródigas
defesas: os filtros turvos, as precau√ß√Ķes
na sua cura. Os nervos tersos
da análise da vida e da matéria.

II

Desviam-se dos livros. Hoje escreve
contra a morte dos olhos, a existência
passível de leitura. Ineptos, os sons
perdem-se na encosta. o vento fere
ainda? Inscrito
na área da cabeça, é esse rastro
ainda vivo. Domino a sua queda, os seus poderes
punitivos, a sua força hereditária.

III

Persistir no imóvel. Preencher
os anos que nos moldam
no vigor da fibra, no duro movimento
interior ‚ÄĒ a que destino, a que imaturo
ritmo, sem preço? Pois é o caro
prémio deste dorso
de o cumprir, pensar, até ao fim.
Ou de saber adestrá-lo até que,
exausto, só impulso
vigore ‚ÄĒ a morte lida
num próximo sentido, ainda vivo.

IV

Como contacto √ļnico,

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Na Ponta dos Dedos

Na ponta dos dedos
batem as palavras sísmicas.

E a testa abre-se profusamente
à força do nome.

Só aquele que escreve infunde o prodígio,

respira ao cimo com a luz nos pulm√Ķes,

Atravessa como se florisse nos abismos.

Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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Revolução Orbital

Revolução orbital: vai-se a rosa transformando
na coisa m√ļltipla, amante e amada, na ac√ß√£o
que assim a faz e nos acidentes m√≠nimos ‚Äď paisagens,
esta√ß√Ķes dos dias e das noites, dos anos da hist√≥ria.
Ondula no cérebro a fronteira que as margens da luz
desenham. E a rosa é uma hélice que vibra
no ar que a respirar obriga(s): tor√ß√£o dos pulm√Ķes,
do tronco e do sexo, dos nomes e dos vocativos
que se respondem: como um coração que deflagra
a rosa faz do ar que te falta a terra de onde nasces
e o chão sobre que danças.

A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra dist√Ęncia e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra √°gua pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como est√°tuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
n√£o h√° rua de sons que a palavra n√£o corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

Meu Camarada e Amigo

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irm√£o suando p√£o
sem casa mas com raz√£o.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As can√ß√Ķes que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

√Č por dentro desta selva
desta raiva   deste grito
desta toada que vem
dos pulm√Ķes do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que est√£o doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
v√£o movendo Portugal
‚ÄĒ mas um poeta s√≥ fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que est√£o em Paris
muitos que s√£o de Lisboa.

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O Corpo Insurrecto

Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem),

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas réstias mais íntimas,
as gl√Ęndulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aqu√°ticas
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar, h√° ainda um outro
corpo incluído,
mas um corpo aquém
de ser s√£o ou podre,
um repuxo, um magma,
subst√Ęncia solta,
com pulm√Ķes.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o p√Ķem em pr√°tica
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,

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Poema do homem-r√£

Sou feliz por ter nascido
no tempo dos homens-r√£s
que descem ao mar perdido
na doçura das manhãs.
Mergulham, imponder√°veis,
por entre as √°guas tranquilas,
enquanto singram, em filas,
peixinhos de cores am√°veis.
Vão e vêm, serpenteiam,
em compassos de ballet.
Seus lentos gestos penteiam
madeixas que ninguém vê.

Com barbatanas calçadas
e pulm√Ķes a tiracolo,
roçam-se os homens no solo
sob um céu de águas paradas.

Sob o luminoso feixe
correm de um lado para outro,
montam no lombo de um peixe
como no dorso de um potro.

Onde as sereias de espuma?
Trit√Ķes escorrendo babugem?
E os monstros cor de ferrugem
rolando trov√Ķes na bruma?

Eu sou o homem. O Homem.
Desço ao mar e subo ao céu.
N√£o h√° temores que me domem
√Č tudo meu, tudo meu.

Com Palavras

Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manh√£s, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras Рinaudíveis Рgrito
para rasgar os risos que nos cercam.
Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.
As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, viol√°ceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?
Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade…
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulm√£o que as encerra.
Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar…

Aqui Louvo os Animais

S√ļbdito s√≥ de quem n√£o reina,
aqui louvo os animais.
H√°, entre mim e eles, uma funda
relação de videntes:
as paisagens que fendem
e a minha, sepulta,
perfazem um mesmo habitat.
Desde que os n√£o sondo,
fez-se luz em nosso convívio.
O ar inicial
que ensaiava, ic√°rico,
nas bolas de sab√£o,
mas n√£o atina com o v√°cuo
da cidade, vem-me
dos seus pulm√Ķes arborescentes.
Alheios à sua pele
na osmose dos textos,
ignoram que nas √°guas
por correr, desta p√°gina,
cruzam, saudando-se,
o ¬ęBeagle¬Ľ e a Arca de No√©.

Também o que é Eterno

Também o que é eterno morre um dia.
Eu tusso e sinto a dor que a tosse traz;
O doutor quer por força a ecografia,
Mas eu n√£o estou pra tantas precis√Ķes.

Eu rio à morte com um riso largo:
Morrer é tão banal, tão tem que ser!
Disto ou daquilo, que me importa a mim?
Mas, ó horror, com fotos, não, nem documentos!

A tanta exactidão mata o mistério.
O pH, o √≠ndice quarenta…
N√£o quero as pulsa√ß√Ķes, os eritr√≥citos,
O temeroso alzaimer, ou o cancro,
Nem sequer o tão raro, do coração.

Ver o pulmão, o peito aberto, o coração,
A palpitar a cores no computador?
Eu morro, eu morro, n√£o se preocupem,
Mas sem saber, de gripe, ou duma coisa,
Ou doutra coisa.