Poemas de Jer├│nimo Corte-Real

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Poemas de Jer├│nimo Corte-Real. Conhe├ža este e outros autores famosos em Poetris.

A Tempestade

Cobre-se ├│ c├ęu de grossas negras nuvens,
Os ventos mais e mais cada hora crescem,
J├í se escurece o c├ęu, j├í. com soberba
Inchadas grossas ondas se levantam.
A nau come├ža j├í passar trabalho,
J├í come├ža gemer, e em tal afronta
O apito soa, brada o mestre, acodem
Com presteza var├Áes no mar expertos.
P├Áe-se o fero Vulturno junto ao cabo,
Levanta l├í no c├ęu furiosas ondas;
Austro bramando corre ali com f├║ria,
Dando um balan├žo ├á nau que quase a rende,
Vem com grande furor B├│reas raivoso,
Comete por davante, o passo impide,
Encontra as grandes velas, e, por for├ža,
Ao mastro as pega e a nau atrás empuxa:
Rompe-se por mil partes o c├ęu, e arde
Em ligeiro, apressado, vivo fogo.
Um rugido espantoso vai correndo
Desde o Antárctico Pólo ao seu oposto.
Arremessam-se lan├žas pelos ares
De congelada pedra em água envolta;
Com espantoso ├şmpeto, e rasgadas
As densas negras nuvens raios cospem:
De um golpe as velas vêm todas abaixo.

Retrato de D. Leonor de Sá

Criava-se Leonor, crescendo sempre
Em suma perfei├ž├úo, suma beleza,
E crescendo s├│ nela as outras gra├žas
Por grandes fermosuras repartidas,
Produziam-se dos seus fermosos olhos
Efeitos mil, e extremos diferentes,
Que olhando davam vida, e outras vezes
Olhando cem mil vidas destru├şam.
A branca cor do rosto acompanhada
De uma cor natural honesta e pura,
E a cabe├ža de crespo ouro coberta,
Lembran├ža do mais alto c├ęu faziam.
Prax├şteles nem F├şdias n├úo lavraram
De branqu├şssimo m├írmore igual corpo;
Nem aquele, que Zuxis entre tantas
Fermosuras deixou por mais perfeito,
Não se igualava a este, antes ficava
Abatido, e julgado em pouco pre├žo;
Que mal pode igualar-se humano engenho
Co’aquilo, em que Deus tal saber nos mostra.
Da boca o suave riso alegra os ares,
Mostrando entre rubis orientais perlas
E sobre tudo, quanto a natureza
Lhe deu perfeito, a gra├ža se avantaja.
No peito eb├║rneo as pomas, que em brancura
Levam da neve o justo pre├žo e a palma,
Apartando-se, deixam de a├žucena
Alv├şssima um florido e fresco vale.
Quem pode (sem perder-se) louvar cousa
Onde não chega humano entendimento?

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