Textos de Emil Cioran

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Textos de Emil Cioran. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

Lucidez Orgulhosa

Os te√≥logos h√° muito o notaram: a esperan√ßa √© o fruto da paci√™ncia. Dever√≠amos acrescentar: e da mod√©stia. O orgulhoso n√£o tem tempo de esperar… Sem querer nem poder estar √† espera, for√ßa os acontecimentos, como for√ßa a sua natureza; amargo, corrompido, quando esgota as suas revoltas, abdica: para ele, n√£o h√° qualquer forma interm√©dia. √Č ineg√°vel que √© l√ļcido; mas n√£o esque√ßamos que a lucidez √© pr√≥pria daqueles que, por incapacidade de amar, se dessolidarizam tanto dos outros como de si pr√≥prios.

Não há Descoberta sem Violência

Devemos a quase totalidade das nossas descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. Mesmo Deus, na medida em que nos intriga, não é no mais íntimo de nós que o discernimos, mas antes no limite exterior da nossa febre, no ponto preciso em que, confrontando-se a nossa ira com a sua, se produz um choque, um encontro tão ruinoso para Ele como para nós. Ferido pela maldição que se liga aos actos, o violento só força a sua natureza, só se ultrapassa a si próprio, para a ela regressar, furioso e agressor, seguido pelas suas empresas, que o punem por as ter feito nascer. Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de acção. Destrói-se quem, respondendo à sua vocação e cumprindo-a, se agita no interior da história; apenas se salva aquele que sacrifica dons e talentos para, desprendido da sua qualidade de homem, poder repousar no ser. Se aspiro a uma carreira metafísica, não posso por preço algum conservar a minha identidade: terei de liquidar o menor resíduo que dela possa guardar; se, pelo contrário, escolho a aventura de um papel histórico,

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O Saber Altera a Economia de um Ser

O que aprendemos por nós próprios, seja que conhecimento for extraído do nosso próprio fundo, é algo que teremos que expiar por um suplemento de desequilíbrio. Fruto de uma desordem íntima, de uma doença definida ou difusa, de uma perturbação na raiz da nossa existência, o saber altera a economia de um ser. Cada um de nós terá que pagar pelo mais pequeno golpe que vibra num universo criado para a indiferença e para a estagnação; cedo ou tarde, arrepender-se-á, arrepender-nos-emos, de o não ter, ou de o não termos, deixado intacto.
O que sendo verdade para o conhecimento é mais verdade ainda para a ambição, porque invadir o terreno de outrem acarreta consequências mais graves e mais imediatas do que invadir o terreno do mistério ou simplesmente da matéria.
Come√ßamos por fazer tremer os outros, mas os outros acabam por nos comunicar os seus terrores. √Č por isso que os tiranos, tamb√©m eles, vivem no pavor. O que o nosso futuro senhor h√°-de conhecer ser√° sem d√ļvida exacerbado por uma felicidade sinistra, como ningu√©m experimentou compar√°vel, √† medida do solit√°rio por excel√™ncia, erguido diante da humanidade toda, semelhante a um deus entronizado no medo, num p√Ęnico omnipotente,

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Um Homem Realizado

Ao indiv√≠duo acostumado ao √≠ntimo das profundidades, o ¬ęmist√©rio¬Ľ n√£o intimida; n√£o fala dele e n√£o sabe o que seja: vive-o… A realidade em que se move n√£o comporta outra: n√£o tem uma zona inferior nem um al√©m: est√° abaixo de tudo e para al√©m de tudo. Farto de transcend√™ncia, superior √†s opera√ß√Ķes do esp√≠rito e √†s servid√Ķes que se lhe associam, repousa na sua curiosidade inexaur√≠vel… Nem a religi√£o nem a metaf√≠sica o intrigam: o que poderia sondar ele que se encontra j√° em pleno insond√°vel? Cumulado, est√°-o sem d√ļvida; mas ignora se continua a existir.
Afirmamo-nos na medida em que, por tr√°s de uma realidade dada, perseguimos uma outra e em que, para al√©m do pr√≥prio absoluto, continuamos √† procura. A teologia det√©m-se em Deus? De maneira nenhuma. Quer remontar mais alto, tal como a metaf√≠sica que, ao mesmo tempo que investiga a ess√™ncia, n√£o se digna fixar-se nela. Uma e outra temem ancorar num princ√≠pio √ļltimo; passam de segredo em segredo; incensam o inexplic√°vel e abusam dele sem pudor. O mist√©rio, que oferenda! Mas que maldi√ß√£o pensar t√™-lo atingido, imaginar que o conhecemos e que poderemos residir nele! J√° n√£o h√° que procurar: a√≠ est√° ele,

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Ambição e Poder

Examinemo-nos no momento em que a ambi√ß√£o nos trabalha, em que lhe sofremos a febre; dissequemos em seguida os nossos ¬ęacessos¬Ľ. Verificaremos que estes s√£o precedidos de sintomas cuirosos, de um calor especial, que n√£o deixa nem de nos arrastar nem de nos alarmar. Intoxicados de porvir por abuso de esperan√ßa, sentimo-nos de s√ļbito respons√°veis pelo presente e pelo futuro, no n√ļcleo da dura√ß√£o, carregada esta dos nossos fr√©mitos, com a qual, agentes de uma anarquia universal, sonhamos explodir. Atentos aos acontecimentos que se passam no nosso c√©rebro e √†s vicissitudes do nosso sangue, virados para o que nos altera, espiamos-lhe e acarinhamos-lhe os sinais. Fonte de perturba√ß√Ķes, de transtornos √≠mpares, a loucura pol√≠tica, se afoga a intelig√™ncia, favorece em contrapartida os instintos e mergulha-os num caos salutar. A ideia do bem e sobretudo do mal que imaginamos ser capazes de cumprir regozijar-nos-√° e exaltar-nos-√°; e o feito das nossas enfermidades, o seu prod√≠gio, ser√° tal que elas nos instituir√£o senhores de todos e de tudo.
À nossa volta, observaremos uma alteração análoga naqueles que a mesma paixão corrói. Enquanto sofrerem o seu império, serão irreconhecíves, presas de uma embriaguez diferente de todas as outras. Tudo mudará neles, até o timbre da voz.

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O Grau da Nossa Emancipação

A esfera da consciência reduz-se na acção; por isso ninguém que aja pode aspirar ao universal, porque agir é agarrar-se às propriedades do ser em detrimento do ser, a uma forma de realidade em prejuízo da realidade. O grau da nossa emancipação mede-se pela quantidade das iniciativas de que nos libertámos, bem como pela nossa capacidade de converter em não-objecto todo o objecto. Mas nada significa falar de emancipação a propósito de uma humanidade apressada que se esqueceu de que não é possível reconquistar a vida nem gozá-la sem primeiro a ter abolido.
Respiramos demasiado depressa para sermos capazes de captar as coisas em si pr√≥prias ou de denunciar a sua fragilidade. O nosso ofegar postula-as e deforma-as, cria-as e desfigura-as, e amarra-nos a elas. Agito-me e portanto emito um mundo t√£o suspeito como a minha especula√ß√£o, que o justifica, adopto o movimento que me transforma em gerador de ser, em artes√£o de fic√ß√Ķes, ao mesmo tempo que a minha veia cosmog√≥nica me faz esquecer que, arrastado pelo turbilh√£o dos actos, n√£o passo de um ac√≥lito do tempo, de um agente de universos caducos.
Empanturrados de sensa√ß√Ķes e do seu corol√°rio, o devir, somos seres n√£o libertos, por inclina√ß√£o e por princ√≠pio,

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Renunciar à Sede de Poder

Quem n√£o conheceu a tenta√ß√£o de ser o primeiro na cidade nada compreender√° do jogo pol√≠tico, da vontade de submeter os outros para deles fazer objectos, nem adivinhar√° os elementos de que √© composta a arte do desprezo. A sede de poder, raros s√£o os que n√£o a tenham num grau ou noutro experimentado: √©-nos natural, e contudo, se a considerarmos melhor, assume todos os car√°cteres de um estado m√≥rbido do qual apenas nos curamos por acidente ou ent√£o por meio de um amadurecimento interior, aparentado com o que se operou em Carlos V quando, ao abdicar em Bruxelas, no topo da sua gl√≥ria, ensinou ao mundo que o excesso de cansa√ßo podia suscitar cenas t√£o admir√°veis como o excesso de coragem. Mas, anomalia ou maravilha, a ren√ļncia, desafio √†s nossas contantes, √† nossa identidade, sobrev√©m somente em momentos excepcionais, caso limite que satisfaz o fil√≥sofo e perturba profundamente o historiador.