Poemas sobre Elementos

8 resultados
Poemas de elementos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

An√ļncio no Ar

Céus, nuvens, ondas, ventos,
dai-me notícias do meu amor norueguês.

Elementos da natureza gastos por tantos versos,
ferralha rom√Ęntica, brilhai de novo
e trazei-me notícias do meu amor norueguês.

Aquela que eu amei um ver√£o na praia
Рpérola cuja ostra era um barco de carvão,
matrícula de Bergen, essa mesma, elementos!,
notícias, notícias do meu amor norueguês.

A que veio dos fiordes e vivia num barco
encostado ao cais, junto de um guindaste;
a que me acendeu a manh√£ do amor,
a que abriu a porta às tempestades,
a que me deu a chave da inven√ß√£o…
Existe? Fugiu à ocupação? Morreu prisioneira?

Notícias, notícias do seu rosto que mal lembro,
do seu corpo de caule adolescente…
Notícias do seixo branco que trocámos
com palavras de amor em inglês mal decorado.

Notícias da que foi espiga mal madura,
notícias do meu amor norueguês.

Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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C√Ęmara Escura

A meu pai

3

A biografia. Revejo-a em tecidos
fibrosos, retraindo-se. √Č j√° vis√≠vel
a anquilose o vento austero
disperso pelos gestos, mais lentos

e difíceis. A migração das aves
inicia-se. Junto à costa
atl√Ęntica, falava-me do tempo, a vira√ß√£o
nefasta, o nevoeiro

poroso, sobre os ossos. Era o período
de estado: rajadas cubitais, golpes
de vento, as migra√ß√Ķes da dor, articulares…
As metáforas clínicas. Procura,

apesar disso, algum sossego. Invoca ainda
o elemento natal, o livro prematuro
do inverno. E a dureza da neve,
os domínios do gelo, imprevisíveis.

Com as chuvas de abril, a migração
atinge órgãos vitais. A violência
perdida pelos móveis, nas janelas
transl√ļcidas, no rumo vagaroso

da voz. Vigia os gestos, os indícios de
p√Ęnico, a previs√≠vel eclos√£o
da crise. Deforma√ß√Ķes, desvio dos
dedos no lado cubital, arthritis

– o peso das no√ß√Ķes.
Endurecem os sons, as linhas vistas
até ao declínio, o vento imóvel
semeado nos campos. Todo o regresso

persiste na matéria: os vários
motores de frio,

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Algumas Proposi√ß√Ķes com Crian√ßas

A crian√ßa est√° completamente imersa na inf√Ęncia
a crian√ßa n√£o sabe que h√°-de fazer da inf√Ęncia
a crian√ßa coincide com a inf√Ęncia
a crian√ßa deixa-se invadir pela inf√Ęncia como pelo sono
deixa cair a cabe√ßa e voga na inf√Ęncia
a crian√ßa mergulha na inf√Ęncia como no mar
a inf√Ęncia √© o elemento da crian√ßa como a √°gua
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a inf√Ęncia
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Um Ofício que Fosse de Intensidade e Calma

Um ofício que fosse de intensidade e calma
e de um fulgor feliz E que durasse
com a densidade ardente e contempor√Ęneo
de quem está no elemento aceso e é a estatura
da água num corpo de alegria E que fosse   fundo
o fervor de ser a metamorfose da matéria
que j√° n√£o se separa da incessante busca
que se identifica com a concavidade origin√°ria
que nos faz andar e estar de pé
expostos sempre √† √ļnica face do mundo
Que a palavra fosse sempre   a travessia
de um espaço em que ela própria fosse aérea
do outro lado de nós e do outro lado de cá
tão idêntica a si que unisse o dizer e o ser
e j√° sem dist√Ęncia e n√£o-dist√Ęncia nada a separasse
desse rosto que na travessia é o rosto do ar e de nós próprios

Em Todas as Ruas te Encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a √°gua e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

A Dor Tem um Elemento de Vazio

A Dor – tem um Elemento de Vazio –
N√£o se consegue lembrar
De quando começou Рou se houve
Um tempo em que n√£o existiu –

N√£o tem Futuro – para l√° de si pr√≥pria –
O seu Infinito contém
O seu Passado – iluminado para aperceber
Novas √Čpocas – de Dor.

Tradu√ß√£o de Nuno J√ļdice