Sonetos sobre √Āgua de Camilo Pessanha

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Sonetos de √°gua de Camilo Pessanha. Leia este e outros sonetos de Camilo Pessanha em Poetris.

Fonógrafo

Vai declamando um c√īmico defunto.
Uma platéia ri, perdidamente,
Do bom jarreta… E h√° um odor no ambiente.
A cripta e a p√≥, – do anacr√īnico assunto.

Muda o registo, eis uma barcarola:
L√≠rios, l√≠rios, √°guas do rio, a lua…
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul, – ext√°tica corola.

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos
Dum clarim de oiro – o cheiro de junquilhos,
V√≠vido e agro! – tocando a alvorada…

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manh√£. Que efl√ļvio de violetas!

Vênus II

Singra o navio. Sob a √°gua clara
V√™-se o fundo do mar, de areia fina…
– Impec√°vel figura peregrina,
A dist√Ęncia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a √°gua plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufr√°gios, perdi√ß√Ķes, destro√ßos!
– √ď f√ļlgida vis√£o, linda mentira!

R√≥seas unhinhas que a mar√© partira…
Dentinhos que o vaiv√©m desengastara…
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…

Esbelta Surge! Vem Das √Āguas, Nua

Esbelta surge! Vem das √°guas, nua,
Timonando uma concha alvinitente!
Os rins flex√≠veis e o seio fremente…
Morre-me a boca por beijar a tua.

Sem vil pudor! Do que h√° que ter vergonha?
Eis-me formoso, moço e casto, forte.
T√£o branco o peito! – para o expor √† Morte…
Mas que ora – a infame! – n√£o se te anteponha.

A hidra torpe!… Que a estrangulo! Esmago-a
De encontro à rocha onde a cabeça te há de,
Com os cabelos escorrendo √°gua,

Ir inclinar-se, desmaiar de amor,
Sob o fervor da minha virgindade
E o meu pulso de jovem gladiador.

Paisagens de Inverno

I

√ď meu cora√ß√£o, torna para tr√°s.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou! o sol! Volvei, noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido…
√ď meus olhos, cismai como os velhinhos.

Extintas primaveras evocai-as:
_ J√° vai florir o pomar das maceiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias._

Sossegai, esfriai, olhos febris.
_ E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas…Doces vozes senis…_

II

Passou o outono j√°, j√° torna o frio…
_ Outono de seu riso magoado.
llgido inverno! Obl√≠quo o sol, gelado…
_ O sol, e as águas límpidas do rio.

√Āguas claras do rio! √Āguas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu v√£o cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das √°guas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando…

Onde ides a correr, melancolias?
_ E, refratadas, longamente ondeando,

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Imagens Que Passais Pela Retina

Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque n√£o vos fixais?
Que passais como a √°gua cristalina
Por uma fonte para nunca mais!…

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
– Porque ides sem mim, n√£o me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
– O espelho in√ļtil, meus olhos pag√£os!
Aridez de sucessivos desertos…

Fica sequer, sombra das minhas m√£os,
Flex√£o casual de meus dedos incertos,
– Estranha sombra em movimentos v√£os.

Vénus

I

À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda…
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a raz√£o se perde!

P√ļtrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfato que se embriaga)
Como em um sorvo, murmura de gozo.

O seu esbo√ßo, na marinha turva…
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os p√©s atr√°s, como voando…

E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que a desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co’a salsugem.

II

Singra o navio. Sob a √°gua clara
V√™-se o fundo do mar, de areia fina…
_ Impec√°vel figura peregrina,
A dist√Ęncia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a √°gua plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufr√°gios, perdi√ß√Ķes, destro√ßos!
_ √ď f√ļlgida vis√£o, linda mentira!

R√≥seas unhinhas que a mar√© partira…
Dentinhos que o vaiv√©m desengastara…

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Canção da Partida

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei de prender na volta do mar.
Ao meu cora√ß√£o um peso de ferro… Lan√ß√°-lo ao mar.
Quem vai embarcar, que vai degredado,

As penas do amor n√£o queira levar…
Marujos, erguei o cofre pesado, Lançai-o ao mar.
E hei de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.

A sete chaves: tem dentro uma carta…
_ A √ļltima, de antes do teu noivado.
A sete chaves, _ a carta encantada!

E um len√ßo bordado… Esse hei de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.

Paisagens De Inverno II

Passou o outono j√°, j√° torna o frio…
– Outono de seu riso magoado.
√Ālgido inverno! Obl√≠quo o sol, gelado…
РO sol, e as águas límpidas do rio.

√Āguas claras do rio! √Āguas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu v√£o cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das √°guas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando…

Onde ides a correr, melancolias?
– E, refratadas, longamente ondeando,
As suas m√£os transl√ļcidas e frias…

Poema Final

√ď cores virtuais que jazeis subterr√Ęneas,
_ Fulgura√ß√Ķes azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clar√Ķes, crom√°ticas ves√Ęnias,
No limbo onde esperais a luz que vos batize,

As p√°lpebras cerrai, ansiosas n√£o veleis.
Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
T√£o graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da √°gua na clepsidra,

Vagamente sorris, resignados e ateus,
Cessai de cogitar, o abismo n√£o sondeis.
Gemebundo arrulhar dos sonhos n√£o sonhados,

Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,
Adormecei. N√£o suspireis. N√£o respireis.