Passagens sobre Ouro

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Seios

IV

Magnólias tropicais, frutos cheirosos
Das √°rvores do Mal fascinadoras,
Das negras mancenilhas tentadoras,
Dos vagos narcotismos venenosos.

O√°sis brancos e miraculosos
Das frementes vol√ļpias pecadoras
Nas paragens fatais, aterradoras
Do T√©dio, nos desertos tenebrosos…

Seios de aroma embriagador e langue,
Da aurora de ouro do esplendor do sangue,
A alma de sensa√ß√Ķes tantalizando.

√ď seios virginais, t√°lamos vivos
Onde do amor nos êxtases lascivos
Velhos faunos febris dormem sonhando…

O Corpo Insurrecto

Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem),

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas réstias mais íntimas,
as gl√Ęndulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aqu√°ticas
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar, h√° ainda um outro
corpo incluído,
mas um corpo aquém
de ser s√£o ou podre,
um repuxo, um magma,
subst√Ęncia solta,
com pulm√Ķes.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o p√Ķem em pr√°tica
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,

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Construir a Realidade

A pura verdade √© que no mundo acontece a todo instante, e, portanto, agora, infinidade de coisas. A pretens√£o de dizer o que √© que acontece agora no mundo deve ser entendida, pois, como ironizando-se a si mesma. Mas assim como √© imposs√≠vel conhecer directamente a plenitude do real, n√£o temos outro rem√©dio sen√£o construir arbitrariamente uma realidade, supor que as coisas s√£o de certa maneira. Isto proporciona-nos um esquema, quer dizer, um conceito ou entretecido de conceitos. Com ele, como atrav√©s de uma quadr√≠cula, olhamos depois a efectiva realidade, e ent√£o, s√≥ ent√£o, conseguimos uma vis√£o aproximada dela. Nisto consiste o m√©todo cient√≠fico. Mais ainda: nisto consiste todo uso do intelecto. Quando ao ver chegar o nosso amigo pela vereda do jardim dizemos: ¬ęEste √© o Pedro¬Ľ, cometemos deliberadamente, ironicamente, um erro. Porque Pedro significa para n√≥s um esquem√°tico repert√≥rio de modos de se comportar f√≠sica e moralmente ‚Äď o que chamamos ¬ęcar√°cter¬Ľ ‚Äď, e a pura verdade √© que o nosso amigo Pedro n√£o se parece, em certos momentos, em quase nada √† ideia ¬ęo nosso amigo Pedro¬Ľ.
Todo o conceito, o mais vulgar como o mais técnico, vai incluso na ironia de si mesmo, nos entredentes de um sorriso tranquilo,

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Hora Mística

Noite caindo … C√©u de fogo e flores.
Voz de Crep√ļsculo exalando cores,
O céu vai cheio de Deus e de harmonia.
Sil√™ncio … Eis-me rezando aos fins do dia.

Névoa de luz criando imagens na água,
Nome das águas esculpindo os céus,
Tarde aos relevos h√ļmidos de fr√°gua,
Boca da noite, eis-me rezando a Deus.

Eis-me entoando, a voz de cinza e ouro,
‚ÄĒ Oh, cores na √°gua vindo √†s m√£os em branco! ‚ÄĒ
Minha √≥pera de Sol ao √ļltimo arranco.

E, oh! hora mística em que o olhar abraso,
‚ÄĒ Sol expirando aos P√≥rticos do Ocaso! ‚ÄĒ
Dobra em meu peito um oceano em coro.

Infante

D√°-me o sol a minha fronte. Doloridos
e chagados meus p√©s descal√ßos v√£o fugindo…
РMemórias dos meus doidos passos incontidos!
– √ď meu rumor do mundo em p√©talas abrindo!

√ď cor√ßas que correis pela tarde desferindo
o balido ligeiro que alonga os ouvidos…
– Tarde de √©cloga e mel silvestre reluzindo…
– Minhas vinhas de vinhos de oiro n√£o bebidos…

Desfolham-se ilus√Ķes e v√£o-se sem apegos…
Murchou a flor dos meus desejos com que pude
a vida transformar em √≥cios e sossegos…

Que lucrei, eu, Senhor! com horas execr√°veis
dum sonho que perdeu meu corpo de virtude?
Рo pródigo que fui dos erros inefáveis!

Bela

Bela,
como na pedra fresca
da fonte, a √°gua
abre um vasto rel√Ęmpago de espuma,
assim é o sorriso do teu rosto,
bela.

Bela,
de finas mãos e delicados pés
como um cavalinho de prata,
caminhando, flor do mundo,
assim te vejo,
bela.

Bela,
com um ninho de cobre enrolado
na cabeça, um ninho
da cor do mel sombrio
onde o meu coração arde e repousa,
bela.

Bela,
n√£o te cabem os olhos na cara,
n√£o te cabem os olhos na terra.
Há países, há rios
nos teus olhos,
a minha p√°tria est√° nos teus olhos,
eu caminho por eles,
eles d√£o luz ao mundo
por onde quer que eu v√°,
bela.

Bela,
os teus seios s√£o como dois p√£es feitos
de terra cereal e lua de ouro,
bela.

Bela,
a tua cintura
moldou-a o meu braço como um rio quando
passou mil anos por teu doce corpo,
bela.

Bela,
n√£o h√° nada como as tuas coxas,

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Marília De Dirceu

Soneto 2

Num fértil campo de soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva, descansava,
Quando vi que a Fortuna me mostrava
Com alegre semblante o seu tesouro.

De uma parte, um mont√£o de prata e ouro
Com pedras de valor o ch√£o curvava;
Aqui um cetro, ali um trono estava,
Pendiam coroas mil de grama e louro.

– Acabou – diz-me ent√£o – a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna os concedo, vai, procura.

Escolhi, acordei, e n√£o vi nada:
Comigo assentei logo que a ventura
Nunca chega a passar de ser sonhada.

Fado Português

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu ch√£o , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do fr√°gil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do l√°bio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

M√£e, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

A Decadência do Coração nos Tempos Modernos

Nestes ruins tempos de material e nauseante industrialismo, a fase do cora√ß√£o √© curta, o amor vem tempor√£o, e como que apodrece antes de sazonado. De toda a parte, aos ouvidos do mancebo vem a soada do martelar da ind√ļstria. A sociedade, aparelhada em oficina, n√£o d√° por ele, se o n√£o v√™ a labutar e mourejar no veio da riqueza. T√≠tulos, gl√≥ria, homenagens, regalos, as fei√ß√Ķes todas da festejada m√°scara, com que por aqui nos andamos entrudando uns aos outros, s√≥ pode ser afivelada com broches de ouro. Dislates do amor empecem o ir direito ao fim. O cora√ß√£o √© v√≠scera que derranca o sangue, se com as muitas vertigens o vascoleja demais. Faz-se mister abafar-lhe as v√°lvulas e exercitar o c√©rebro, onde demora a bossa do c√°lculo, da empresa, da sord√≠cia gananciosa, e outras muitas bossas filiadas ao est√īmago, o qual √©, sem debate, a v√≠scera por excel√™ncia, o luzeiro perene entre as trevas que ofuscam as almas.

Se podemos extrair ouro de uma mina, √© porque o ouro existia ali desde o princ√≠pio. A base de nossa salva√ß√£o eterna est√° no fato de que nossa ess√™ncia √© nosso ‚ÄėEu eterno‚Äô, ou seja, filho de Deus.

Loira

Eu descia o Chiado lentamente
Parando junto às montras dos livreiros
Quando passaste ir√īnica e insolente,
Mal pousando no chão os pés ligeiros.

O céu nublado ameaçava chuva,
Saía gente fina de uma igreja;
Destacavam no traje de vi√ļva
Teus cabelos de um louro de cerveja.

E a mim, um desgraçado a quem seduzem
Compara√ß√Ķes estranhas, sem raz√£o,
Lembrou-me este contraste o que produzem
Os gal√Ķes sobre os panos de um caix√£o.

Eu buscava uma rima bem intensa
Para findar uns versos com amor;
Olhaste-me com cega indiferença
Através do lorgnon provocador.

Detinham-se a medir tua eleg√Ęncia
Os dandies com aprumo e galhardia;
Segui-te humildemente e a dist√Ęncia,
N√£o fosses suspeitar que te seguia.

E pensava de longe, triste e pobre,
Desciam pela rua umas varinas
Como podias conservar-te sobre
O salto exagerado das botinas.

E tu, sempre febril, sempre inquieta,
Havia pela rua uns charcos de √°gua
Ergueste um pouco a saia sobre a an√°gua
De um tecido ligeiro e violeta.

Adorável! Na idéia de que agora
A branda an√°gua a levantasse o vento
Descobrindo uma curva sedutora,

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Rei Destronado

O teu lugar vaz√£o!… E esteve cheio,
Cheio de mocidade e de ternura!
Como brilhava a tua formosura!
Que luz divina te doirava o seio!

Quando a camisa tépida despias,
– Sob o reflexo do cabelo louro,
De pé, na alcova, ardias e fulgias
Como um ídolo de ouro.

Que fundo o fogo do primeiro beijo,
Que eu te arrancava ao l√°bio recendente!
Morria o meu desejo… outro desejo
Nascia mais ardente.

Domada a febre, l√Ęnguida, em meus bra√ßos
Dormias, sobre os linhos revolvidos,
Inda cheios dos √ļltimos gemidos,
Inda quentes dos √ļltimos abra√ßos…

Tudo quanto eu pedira e ambicionara,
Tudo meus dedos e meus olhos calmos
Gozavam satisfeitos nos seis palmos
De tua carne saborosa e clara:

Reino perdido! glória dissipada
T√£o loucamente! A alcova est√° deserta,
Mas inda com o teu cheiro perfumada,
Do teu fulgor coberta…

Repouso na Alegria Comedido

Leda serenidade deleitosa,
Que representa em terra um paraíso;
Entre rubis e perlas, doce riso,
Debaixo de ouro e neve, cor-de-rosa;

Presença moderada e graciosa,
Onde ensinando est√£o despejo e siso
Que se pode por arte e por aviso,
Como por natureza, ser formosa;

Fala de que ou j√° vida, ou morte pende,
Rara e suave, enfim, Senhora, vossa,
Repouso na alegria comedido:

Estas as armas s√£o com que me rende
E me cativa Amor; mas n√£o que possa
Despojar-me da glória de rendido.

O Procurador do Amor

Amor, a quanto me obrigas.
De dorso curvo e olhar aceso,
troto as avenidas neutras
atr√°s da sombra que me inculcas.

Esta sombra que se confunde
com as mulheres gordas e magras,
entra numa porta, sai por outra
como nos filmes americanos,
e reaparece olhando as vitrinas.

Meu olhar desnuda as passantes.
Às vezes um bico de seio
vale mais que o melhor Baedeker.
Mas onde seio para minha sede?

O andar, a curva de um joelho,
vinco de seda no quadril
(n√£o sabia quanto eras pura),
faço a polícia dos dessous.

Eu sei que o êxtase supremo,
o looping no céu espiritual
pode enredar-se, malicioso,
no que as mulheres mais (?) escondem
no que meus olhos mais indagam.

O dia se emenda com a noite
As mulheres v√£o para a rua
mas a mulher que tu me destinas
talvez ainda esteja em Peiping.

Desiludido ainda me iludo.
Namoro a plumagem do galo
no ouro pérfido do coquetel.
Enquanto as mulheres cocoricam
os homens engolem veneno.

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Supremo Verbo

– Vai, Peregrino do caminho santo,
Faz da tu’alma l√Ęmpada do cego,
Iluminando, pego sobre pego,
As invis√≠veis amplid√Ķes do Pranto.

Ei-lo, do Amor o C√°lix sacrossanto!
Bebe-o, feliz, nas tuas m√£os o entrego…
√Čs o filho leal, que eu n√£o renego,
Que defendo nas dobras do meu manto.

Assim ao Poeta a Natureza fala!
Enquanto ele estremece ao escut√°-la,
Transfigurado de emo√ß√£o, sorrindo…

Sorrindo a céus que vão se desvendando,
A mundos que v√£o se multiplicando,
A portas de ouro que v√£o se abrindo!