Textos sobre Dor de Pablo Neruda

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Textos de dor de Pablo Neruda. Leia este e outros textos de Pablo Neruda em Poetris.

Os Deuses Reclinados

… Por todos os lados as est√°tuas de Buda, de Lorde Buda… As severas, verticais, carcomidas est√°tuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolu√ß√£o como se o ar as desgastasse… Crescem-lhes nas faces, nas pregas das t√ļnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas m√°culas: fungos, porosidades, vest√≠gios excrement√≠cios da selva… Ou ent√£o as jacentes, as imensas jacentes, as est√°tuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, p√°lidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante… Adormecidas ou n√£o adormecidas, est√£o ali h√° cem anos, mil anos, mil vezes mil anos… Mas s√£o suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora… E aquele sorriso de suav√≠ssima pedra, aquela majestade imponder√°vel, mas feita de pedra dura, perp√©tua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?… Passaram as camponesas que fugiam, os homens do inc√™ndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores…

E manteve-se no seu lugar a est√°tua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na t√ļnica de pedra, com o olhar perdido e n√£o obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma tamb√©m humana, de alguma forma ou de alguma contradi√ß√£o estatu√°ria,

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Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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Tango do Vi√ļvo

Tive dificuldades na minha vida privada. A doce Josie Bliss foi-se convencendo e apaixonando at√© adoecer de ci√ļmes. Se n√£o fosse isso, talvez tivesse continuado indefinidamente ao lado dela. Enterneciam-me os seus p√©s nus, as brancas flores que lhe brilhavam na cabeleira negra. Mas o seu temperamento levava-a at√© paroxismos selvagens. Tinha ci√ļmes e avers√£o √†s cartas que me chegavam de longe; escondia-me os telegramas sem os abrir, olhava com rancor o ar que eu respirava.

Por vezes acordava-me uma luz, um fantasma que se movia por detr√°s da rede do mosquiteiro. Era ela, vestida de branco, brandindo o seu longo e afiado punhal ind√≠gena. Era ela, rondando-me a cama horas inteiras sem se decidir a matar-me. ¬ęQuando morreres, acabar√£o os meus receios¬Ľ, dizia-me. No dia seguinte realizava misteriosos ritos para garantir a minha fidelidade.

Acabaria por me matar. Por sorte, recebi uma mensagem oficial participando-me que fora transferido para Ceilão. Preparei a minha viagem em segredo e um dia, abandonando a minha roupa e os meus livros, saí de casa como de costume e entrei no barco que me levaria para longe.

Deixava Josie Bliss, espécie de pantera birmanesa, na maior dor. Mal o barco começou a mover-se sobre as ondas do golfo de Bengala,

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Somos o Mistério

No fim desta √©poca, como se toda a longa viagem tivesse sido in√ļtil, volto a ficar sozinho nos territ√≥rios rec√©m-descobertos. Como na crise do nascimento, como no come√ßo alarmante e alarmado do terror metaf√≠sico donde brota o manancial dos meus primeiros versos, como num novo crep√ļsculo que a minha pr√≥pria cria√ß√£o provocou, entro numa nova agonia e na segunda solid√£o. Para onde ir? Para onde regressar, conduzir, calar ou palpitar? Olho para todos os pontos da claridade e da obscuridade e n√£o encontro sen√£o o vazio que as minhas pr√≥prias m√£os elaboraram com persist√™ncia fatal.

Mas o mais pr√≥ximo, o mais fundamental, o mais extenso, o mais incalcul√°vel, n√£o apareceria, afinal, sen√£o neste momento no meu caminho. Tinha pensado em todos os mundos, mas n√£o no homem. Tinha explorado com crueldade e agonia o cora√ß√£o do homem. Sem pensar nos homens, tinha visto cidades, mas cidades vazias. Tinha visto f√°bricas de tr√°gico aspecto, mas n√£o vira o sofrimento debaixo dos tectos, sobre as ruas, em todas as esta√ß√Ķes, nas cidades e no campo.

√Äs primeiras balas que trespassaram as violas de Espanha, quando, em vez de sons, sa√≠ram delas borbot√Ķes de sangue, a minha poesia deteve-se como um fantasma no meio das ruas da ang√ļstia humana e come√ßou a subir por ela uma torrente de ra√≠zes e de sangue.

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A Minha Poesia

A minha poesia e a minha vida flu√≠ram como um rio americano, como uma torrente de √°guas do Chile, nascidas na intimidade profunda das montanhas austrais e dirigindo sem cessar para uma sa√≠da mar√≠tima o movimento do caudal. A minha poesia n√£o rejeitou nada do que p√īde transportar nas suas √°guas. Aceitou a paix√£o, desenvolveu o mist√©rio, abriu passagem nos cora√ß√Ķes do povo.

Coube-me sofrer e lutar, amar e cantar. Tocaram-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e do sangue. Que mais quer um poeta? Todas as alternativas, do pranto até aos beijos, da solidão até ao povo, estão vivas na minha poesia, reagem nela, porque vivi para a minha poesia e porque a poesia sustentou as minhas lutas. E se muitos prémios alcancei, prémios fugazes como borboletas de pólen evasivo, alcancei um prémio maior, um prémio que muitos desdenham, mas que, na realidade, é para muitos inatingível.

Consegui chegar, atrav√©s de uma dura li√ß√£o de est√©tica e rebusca, atrav√©s dos labirintos da palavra escrita, √† altura de poeta do meu povo. O meu pr√©mio maior √© esse ‚ÄĒ n√£o os livros e os poemas traduzidos, n√£o os livros escritos para descreverem ou dissecarem as palavras dos meus livros.

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