Passagens sobre Sombrios

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Frases sobre sombrios, poemas sobre sombrios e outras passagens sobre sombrios para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Todos são talentosos. Difícil é ter coragem de seguir pelo caminho sombrio através do qual o talento guia.

Exilada

Bela viajante dos países frios
N√£o te seduzam nunca estes aspectos
Destas paisagens tropicais — secretos,
— Os teus receios devem ser sombrios.

√Čs branca e √©s loura e tens os amavios
Os incógnitos filtros prediletos
Que podem produzir ondas de afetos
Nos mais sens√≠veis cora√ß√Ķes doentios.

Loura Visão, Ofélia desmaiada,
Deixa esta febre de ouro, a febre ansiada
Que nos venenos deste sol consiste.

Emigra destes cálidos países,
Foge de amargas, fundas cicatrizes,
Das alucina√ß√Ķes de um vinho triste…

De Que S√£o Feitos os Dias?

De que s√£o feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre m√°goas sombrias,
moment√Ęneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alian√ßas…

Sacrilégio

Como a alma pura, que teu corpo encerra,
Podes, t√£o bela e sensual, conter?
Pura demais para viver na terra,
Bela demais para no céu viver.

Amo-te assim! – exulta, meu desejo!
√Č teu grande ideal que te aparece,
Oferecendo loucamente o beijo,
E castamente murmurando a prece!

Amo-te assim, à fronte conservando
A parra e o acanto, sob o alvor do véu,
E para a terra os olhos abaixando,
E levantando os braços para o céu.

Ainda quando, abraçados, nos enleva
O amor em que me abraso e em que te abrasas,
Vejo o teu resplandor arder na treva
E ouço a palpitação das tuas asas.

Em v√£o sorrindo, pl√°cidos, brilhantes,
Os céus se estendem pelo teu olhar,
E, dentro dele, os serafins errantes
Passam nos raios claros do luar:

Em v√£o! – descerras √ļmidos, e cheios
De promessas, os l√°bios sensuais,
E, à flor do peito, empinam-se-te os seios,
Ameaçadores como dois punhais.

Como é cheirosa a tua carne ardente!
Toco-a, e sinto-a ofegar, ansiosa e louca.

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Vis√£o

Noiva de Satan√°s, Arte maldita,
Mago Fruto letal e proibido,
Son√Ęmbula do Al√©m, do Indefinido
Das profundas paix√Ķes, Dor infinita.

Astro sombrio, luz amarga e aflita,
Das Ilus√Ķes tant√°lico gemido,
Virgem da Noite, do luar dorido,
Com toda a tua Dor oh! sê bendita!

Seja bendito esse clar√£o eterno
De sol, de sangue, de veneno e inferno,
De guerra e amor e ocasos de saudade…

Sejam benditas, imortalizadas
As almas castamente amortalhadas
Na tua estranha e branca Majestade!

O Noivado do Sepulcro

Vai alta a lua! na mans√£o da morte
J√° meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranquila!… mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D’entre os sepulcros a cabe√ßa ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!… na amplid√£o celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!… com sombrio espanto
Olhou em roda… n√£o achou ningu√©m…
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

“Mulher formosa, que adorei na vida,
“E que na tumba n√£o cessei d’amar,
“Por que atrai√ßoas, desleal, mentida,
“O amor eterno que te ouvi jurar?

“Amor! engano que na campa finda,
“Que a morte despe da ilus√£o falaz:
“Quem d’entre os vivos se lembrara ainda
“Do pobre morto que na terra jaz?

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S√£o Francisco E O Rouxinol

Um rouxinol cantava. Alegremente,
quis S√£o Francisco, no frutal sombrio,
acompanhar o p√°ssaro contente,
e começa a cantar, ao desafio.

E cantavam os dois, junto à corrente
do Arno sonoro, do lend√°rio rio.
Mas Sào Francisco, exausto, finalmente,
parou, tendo cantado horas a fio.

E o rouxinol l√° prosseguiu cantando,
redobrando as constantes cantilenas,
os trilados festivos redobrando.

E o santo assim reflete, satisfeito,
que feito foi para escutar, apenas,
e o rouxinol para cantar foi feito.

Chegada a Hora o Sonho Ser√° Terra

Chegada a hora o sonho ser√° terra,
o medo dar√° seu √ļltimo vint√©m,
e o passado e o futuro ser√£o guerra
do não-ser sobre terras de ninguém
√Ārvore g√©mea √† que em dor se enterra,
o céu descerá em busca de outro além,
e unidos ambos, corpo e céu, a alma er-
rará distante, mas morta, também.
Será possível mesmo o fim de tudo,
tudo t√£o r√°pido? √ď p√°ssaro ao vento,
ó ave sombria: cantai num templo mudo,
a atroz saudade da alma nunca vista,
passo perdido em negro firmamento,
paisagem morta ‚ÄĒ que a terra conquista!

Flor Do Mar

√Čs da origem do mar, vens do secreto,
Do estranho mar espumaroso e frio
Que p√Ķe rede de sonhos ao navio,
E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afeto,
As dormências nervosas e o sombrio
E torvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas no atro e proceloso aspecto.

Num fundo ideal de p√ļrpuras e rosas
Surges das √°guas mucilaginosas
Como a lua entre a n√©voa dos espa√ßos…

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens musicas marinhas,
Acres aromas de algas e sarga√ßos…

Rebelado

Ri tua face um riso acerbo e doente,
Que fere, ao mesmo tempo que contrista…
Riso de ateu e riso de budista
Gelado no Nirvana impenitente.

Flor de sangue, talvez, e flor dolente
De uma paix√£o espiritual de artista,
Flor de Pecado sentimentalista
Sangrando em riso desdenhosamente.

Da alma sombria de tranq√ľilo asceta
Bebeste, entanto, a morbidez secreta
Que a febre das ins√Ęnias adormece.

Mas no teu l√°bio convulsivo e mudo
Mesmo até riem, com desdéns de tudo,
As sílabas simbólicas da Prece!

Que Natal?

Natal n√£o tive. Ou tive
só o Natal que tiveram
minhas filhas. Esse vive
como as coisas que viveram
mas j√° n√£o s√£o. Que Natal
tenho hoje? Que alegria,
que festa, neste final,
nesta descida sombria?
Diz Natal quem diz começo,
ou chegada, ou descoberta…
Onde estou, só há tropeço,
terra fria e deserta.

Se, no fim, recomeçasse!
Se, descendo, eu subisse!
Se, parando, n√£o parasse!
Ressuscitar… quem o disse?

N√£o olhes as partes sombrias; olha as partes iluminadas. Manifesta-se mais nitidamente o aspecto que for reconhecido.

Escola

O que significa o rio,
a pedra, os l√°bios da terra
que murmuram, de manh√£,
o acordar da respiração?

O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?

O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de √°gua na ponta dos
cabelos, os muros de hera?

A linha envolve os objectos
com a nitidez abstracta
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;

e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do p√°tio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.

A chave das coisas est√°
no equívoco da idade,
na sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens.

Surdina

No ar sossegado um sino canta,
Um sino canta no ar sombrio…
P√°lida, V√™nus se levanta…
Que frio!

Um sino canta. O campan√°rio
Longe, entre n√©voas, aparece…
Sino, que cantas solit√°rio,
Que quer dizer a tua prece?

Que frio! embuçam-se as colinas;
Chora, correndo, a √°gua do rio;
E o céu se cobre de neblinas.
Que frio!

Ningu√©m… A estrada, ampla e silente,
Sem caminhantes, adormece…
Sino, que cantas docemente,
Que quer dizer a tua prece?

Que medo p√Ęnico me aperta
O coração triste e vazio!
Que esperas mais, alma deserta?
Que frio!

J√° tanto amei! j√° sofri tanto!
Olhos, por que inda estais molhados?
Por que é que choro, a ouvir-te o canto,
Sino que dobras a finados?

Trevas, caí! que o dia é morto!
Morre também, sonho erradio!
A morte √© o √ļltimo conforto…
Que frio!

Pobres amores, sem destino,
Soltos ao vento, e dizimados!
Inda vos choro… E, como um sino,
Meu coração dobra a finados.

E com que m√°goa o sino canta,

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Ouvi, Senhora, O C√Ęntico Sentido

Ouvi, senhora, o c√Ęntico sentido
Do cora√ß√£o que geme e s’estertora
N’√Ęnsia letal que o mata e que o devora,
E que tornou-o assim, triste e descrido.

Ouvi, senhora, amei; de amor ferido,
As minhas crenças que alentei outrora
Rolam dispersas, p√°lidas agora,
Desfeitas todas num guaiar dorido.

E como a luz do sol vai-se apagando!
E eu triste, triste pela vida afora,
Eterno pegureiro caminhando,

Revolvo as cinzas de passadas eras,
Sombrio e mudo e glacial, senhora,
Como um coveiro a sepultar quimeras!

A juventude passa e o crep√ļsculo espalha-se no seu sorriso.
A vida, exilada do seu sonho é uma viagem sombria.

O que Poder√° Ver quem j√° da Vista Cegou?

Ante Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n’√°gua salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amaram
como males lhe causaram
este bem, que nunca fora,
pois foi o que n√£o cuidarom.

A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele t√£o mal merecia.
Sendo de pouca idade,
n√£o se ver tanto sentiam
que o dia que n√£o se viam,
se via na saudade
o que ambos se queriam.

Algumas horas falavam,
andando o gado pascendo;
e ent√£o se apascentavam
os olhos, que, em se vendo,
mais famintos lhe ficavam.
E com quanto era Maria
pequena e, tinha cuidado
de guardar melhor o gado
o que lhe Crisfal dizia;
mas, em fim, foi mal guardado;

Que, depois de assim viver
nesta vida e neste amor,
depois de alcançado ter
maior bem pera mor dor,
em fim se houve de saber
por Joana,

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Cabelos

I

Cabelos! Quantas sensa√ß√Ķes ao v√™-los!
Cabelos negros, do esplendor sombrio,
Por onde corre o fluido vago e frio
Dos brumosos e longos pesadelos…

Sonhos, mistérios, ansiedades, zelos,
Tudo que lembra as convuls√Ķes de um rio
Passa na noite c√°lida, no estio
Da noite tropical dos teus cabelos.

Passa através dos teus cabelos quentes,
Pela chama dos beijos inclementes,
Das dol√™ncias fatais, da nostalgia…

Auréola negra, majestosa, ondeada,
Alma da treva, densa e perfumada,
L√Ęnguida Noite da melancolia!

VI

P. Si√£o que dorme ao luar. Vozes diletas
Modulam salmos de vis√Ķes contritas…
E a sombra sacrossanta dos Profetas
Melancoliza o canto dos levitas.

As torres brancas, terminando em setas,
Onde velam, nas noites infinitas,
Mil guerreiros sombrios como ascetas,
Erguem ao C√©u as c√ļpulas benditas.

As virgens de Israel as negras comas
Aromatizam com os ung√ľentos brancos
dos nigromantes de mortais aromas…

Jerusalém, em meio às Doze Portas,
Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos
Evoca ruínas de cidades mortas.

Amor

Tu acendeste-me o lume,
Naquela tarde de frio. E do jardim,
Solit√°rio e sombrio,
Vinha até mim
Um suave perfume
De goivos a morrer.

Sobre a cidade calma,
As nuvens, uma a uma,
Como flocos de espuma,
Passavam a correr.

Era uma tarde, das tardes mais frias!
E as coisas n√£o me sorriam.
Somente,
Doente,
Tu me sorrias.

Na vidraça, como gelo,
Soluçaram gotas de água.
Afaguei o teu cabelo,
Com alegria e com m√°goa.

Era uma tarde sombria,
De luz bem singular.
Tarde t√£o fria,
Até parecia
Que tudo ia gelar.