Textos sobre Raz√£o de Marguerite Yourcenar

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Textos de raz√£o de Marguerite Yourcenar. Leia este e outros textos de Marguerite Yourcenar em Poetris.

As Virtudes de Cada Um

N√£o desprezo os homens. Se o fizesse, n√£o teria direito algum nem raz√£o alguma para tentar govern√°-los. Sei que s√£o v√£os, ignorantes, √°vidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus pr√≥prios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. Sei muito bem: sou como eles, pelo menos momentaneamente, ou poderia t√™-lo sido. Entre outrem e eu, as diferen√ßas que distingo s√£o demasiado insignificantes para que a minha atitude se afaste tanto da fria superioridade do fil√≥sofo como da arrog√Ęncia de C√©sar. Os mais opacos dos homens tamb√©m t√™m os seus clar√Ķes: este assassino toca correctamente flauta; este contramestre que dilacera o dorso dos escravos com chicotadas √© talvez um bom filho; este idiota partilharia comigo o seu √ļltimo bocado de p√£o. H√° poucos a quem n√£o possa ensinar-se convenientemente alguma coisa. O nosso grande erro √© querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele n√£o tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.

A Ordem das Coisas

Natura deficit, fortuna mutatur, deus omnia cernit. A natureza trai-nos, a sorte muda, um deus v√™ do alto todas estas coisas. Apertava ao dedo a mesa de um anel onde, num dia de amargura, mandava gravar estas palavras tristes; ia mais longe no desengano, talvez na blasf√©mia; acabava por achar natural, sen√£o justo, que dev√≠amos perecer. As nossas letras esgotam-se; as nossas artes adormecem; P√Ęncrates n√£o √© Homero; Arriano n√£o √© Xenofonte; quando tentei imortalizar na pedra a forma de Ant√≠noo n√£o encontrei Prax√≠teles. Depois de Arist√≥teles e de Arquimedes, as nossas ci√™ncias n√£o progridem; os nossos progressos t√©cnicos n√£o resistiriam ao desgaste de uma longa guerra; mesmo os nossos voluptuosos desgostam-se da felicidade. O abrandamento dos costumes, o avan√ßo das ideias no decorrer do √ļltimo s√©culo √© obra de uma infima minoria de bons esp√≠ritos; a massa continua ignara, feroz, quando pode, de qualquer forma ego√≠sta e limitada, e h√° raz√Ķes para apostar que ficar√° sempre assim. Procuradores a mais, publicanos √°vidos, demasiados senadores desconfiados, demasiados centuri√Ķes brutais comprometeram adiantadamente a nossa obra; e os imp√©rios, como os homens, j√° n√£o t√™m tempo para se instru√≠rem √† custa das suas faltas. Onde quer que um tecel√£o remendar o seu pano,

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