Textos sobre Razão de Vergílio Ferreira

23 resultados
Textos de razão de Vergílio Ferreira. Leia este e outros textos de Vergílio Ferreira em Poetris.

A Insustent√°vel Leveza do Ser

Eis que ao despedir-vos, esse teu amigo te diz que ele n√£o √© esse teu amigo mas sim um seu irm√£o g√©meo. Imediatamente uma altera√ß√£o profunda se instalou nas vossas rela√ß√Ķes. Mas se te perguntares em qu√™, n√£o √© f√°cil responderes. Naturalmente dirias que esse teu amigo n√£o era ele, que era outra pessoa. Mas outra em qu√™? O corpo √© igual nos m√≠nimos pormenores, igual a face e os gestos e a voz e os olhos. Iguais as ideias, os sentimentos, as recorda√ß√Ķes, o todo integral da sua vida e do que ele √©. Se percorreres todos os pormenores, encontr√°-los-√°s em hip√≥tese absolutamente iguais. Come√ßa onde quiseres, examina cada min√ļcia que constitui o teu amigo, progride at√© ao mais extremo limite e verificar√°s que nada escapa a uma integral igualdade. Mas se isto √© assim, deveria ser-te indiferente seres amigo deste como eras amigo do outro. Pois se uma pessoa √© aquilo que ela nos √©, se uma pessoa √© aquilo que a manifesta, se aquilo que nos define √© aquilo que somos e se esse algu√©m que encontr√°mos em nada difere, em hip√≥tese, do algu√©m que esper√°vamos encontrar, nenhuma raz√£o havia para que as rela√ß√Ķes com ele se perurbassem.

Continue lendo…

A Dificuldade de Estabelecer e Firmar Rela√ß√Ķes

A dificuldade de estabelecer e firmar rela√ß√Ķes. H√° uma t√©cnica para isso, conhe√ßo-a. Nunca pude meter-me nela. Ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ. √Č realmente f√°cil: prestabilidade, autodom√≠nio. Mas. Ser soci√°vel exige um esfor√ßo enorme ‚ÄĒ f√≠sico. Quem se habituou, j√° se n√£o cansa. Tudo se passa √† superf√≠cie do esfor√ßo. Ter ¬ępersonalidade¬Ľ: n√£o descer um mil√≠metro no trato, mesmo quando por delicadeza se finge. Assumirmos a import√Ęncia de n√≥s sem o mostrar. Darmo-nos valor sem o exibir. Irresistivelmente, agacho-me. E logo: a pata dos outros em cima. Bem feito. Pois se me pus a jeito. E ent√£o reponto. O fim. Ser prest√°vel, colaborar nas tarefas que os outros nos inventam. Col√≥quios, confer√™ncias, organiza√ß√Ķes de. Ah, ser-se um ¬ęin√ļtil¬Ľ (um ¬ęparasita¬Ľ…). Raz√Ķes profundas ‚ÄĒ um complexo duplo que vem da juventude: incompreens√£o do irm√£o corpo e da bolsa paterna. O segundo remediou-se. Tenho desprezo pelo dinheiro. Ligo t√£o pouco ao dinheiro que nem o gasto… Mas ¬ęgastar¬Ľ faz parte da ¬ępersonalidade¬Ľ. Sa√ļde ‚ÄĒ mais dif√≠cil. Este ar apeur√© que vem logo ao de cima. A √ļnica defesa, obviamente, √© o resguardo, o isolamento, a medida.
√Č f√°cil ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ, dif√≠cil √© perseverar, assumir o artif√≠cio da facilidade. Conservar os amigos. ¬ęN√£o √©s capaz de dar nada¬Ľ,

Continue lendo…

O Paradoxo da Liberdade

√Č porque eu sou a minha voz, √© porque ela existe minha no instante em que a estou erguendo, que me escapa a sua intelec√ß√£o. E todo o equ√≠voco do problema da liberdade est√° a√≠. Porque a liberdade experimenta-se e nada a pode demonstrar. Demonstr√°-la exigiria que estiv√©ssemos fora de n√≥s, porque na pr√≥pria demonstra√ß√£o estamos sendo o homem livre cuja liberdade desej√°vamos provar. Assim essa tentativa, como disse, √© t√£o absurda como pretender a intelec√ß√£o de uma l√≠ngua fora de uma qualquer l√≠ngua. Porque enquanto entendo uma l√≠ngua, estou sendo aquela l√≠ngua dentro da qual estou entendendo a outra. Quanto estou tentando entender a minha liberdade estou sendo quem sou na intelec√ß√£o disso que sou. Eis-nos pois remetidos para o limiar de n√≥s pr√≥prios, para o absoluto da escolha antes da escolha, para a identidade incompreens√≠vel entre o ser que √© o nosso e a escolha desse ser.
Que tem que fazer aqui a razão? Somos livres, como sabemos na consciente vivência do acto de ser consciente. Somos livres, como o sabemos da possibilidade de se ser e de se saber que se é, da infinita e infinitesimal diferença entre mim e mim, entre ser-se o que se é e o saber-se que se é esse ser,

Continue lendo…

Todo o Presente Espera pelo Passado para nos Comover

H√° v√°ria gente que n√£o gosta de evocar o passado. Uns por energia, disciplina pr√°tica e arremesso. Outros por ideologia progressista, visto que todo o passado √© reaccion√°rio. Outros por superficialidade ou secura de pau. Outros por falta de tempo, que todo ele √© preciso para acudir ao presente e o que sobra, ao futuro. Como eu tenho pena deles todos. Porque o passado √© a ternura e a legenda, o absoluto e a m√ļsica, a irrealidade sem nada a acotovelar-nos. E um aceno doce de melancolia a fazer-nos sinais por sobre tudo. Tanta hora tenho gasto na simples evoca√ß√£o. Todo o presente espera pelo passado para nos comover. H√° a filtragem do tempo para purificar esse presente at√© √† fluidez imposs√≠vel, √† sublima√ß√£o do encantamento, √† incorrupt√≠vel verdade que nele se oculta e √© a sua √ļnica raz√£o de ser. O presente √© cheio de urg√™ncias mas ele que espere. Ha tanto que ser feliz na impossibilidade de ser feliz. Sobretudo quando ao futuro j√° se lhe toca com a m√£o. H√° tanto que ter vida ainda, quando j√° se a n√£o tem…

O Desperdício

O desperd√≠cio. Ele √© a faixa mais larga de todo o acontecer no universo. E na vida. Quanta energia se esgota at√© ao seu nada, para ter raz√£o esse tal segundo princ√≠pio da termodin√Ęmica. Que mundo incr√≠vel se perdeu com as pessoas que se n√£o cumpriram, que frac√ß√£o enorme do c√©rebro ficou sem aplica√ß√£o. E numa simples vida, que gasto enorme no comer e no dormir. N√≥s pod√≠amos ser como as plantas de ra√≠zes a√©reas e que s√≥ comem ar. Ou ser como o sol, que n√£o dorme. Ou Deus que tamb√©m n√£o, at√© h√° pouco. Mas nessa despropor√ß√£o alucinante entre o que se desperdi√ßa e o que se aproveita, o homem cria o espa√ßo para ser maior que o universo. Porque foi preciso o homem para o universo nascer. Tudo t√£o pouco.

O Homem n√£o Deseja a Paz

Que estranho bicho o homem. O que ele mais deseja no conv√≠vio inter-humano n√£o √© afinal a paz, a conc√≥rdia, o sossego colectivo. O que ele deseja realmente √© a guerra, o risco ao menos disso, e no fundo o desastre, o infort√ļnio. Ele n√£o foi feito para a conquista de seja o que for, mas s√≥ para o conquistar seja o que for. Poucos homens afirmaram que a guerra √© um bem (Hegel, por exemplo), mas √© isso que no fundo desejam. A guerra √© o perigo, o desafio ao destino, a possibilidade de triunfo, mas sobretudo a inquieta√ß√£o em ac√ß√£o. Da paz se diz que √© ¬ępodre¬Ľ, porque √© o estarmos reca√≠dos sobre n√≥s, a inactividade, a derrota que sobrev√©m n√£o apenas ao que ficou derrotado, mas ainda ou sobretudo ao que venceu. O que ficou derrotado √© o mais feliz pela necessidade inilud√≠vel de tentar de novo a sorte. Mas o que venceu n√£o tem paz sen√£o por algum tempo no seu cora√ß√£o alvoro√ßado. A guerra √© o estado natural do bicho humano, ele n√£o pode suportar a felicidade a que aspirou. Como o grupo de futebol, qualquer vit√≥ria alcan√ßada √© o est√≠mulo insuport√°vel para vencer outra vez.

Continue lendo…

A Verdade Est√° em Todo o Lado

Tantas vezes nos dizem isso: voc√™ n√£o √© cat√≥lico, mas tem um fundo cat√≥lico; voc√™ n√£o √© comunista (ou socialista, ou social-democrata, etc.) mas no fundo √© pelo comunismo (ou,ou); voc√™ diz que n√£o √© crente, mas o seu fundo √© de. Etc. E a raz√£o √© a de que todos os movimentos ou doutrinas t√™m de basear-se no que se sup√Ķe a verdade e a justi√ßa. O erro come√ßa quando se particularizam. Ser ¬ęno fundo¬Ľ isto ou aquilo √© quedar-se no limite. Mas para os fervorosos √© n√£o se ter a coragem de uma caracteriza√ß√£o.

Porque N√£o Te Calas?

O sil√™ncio – porque n√£o te calas? Decerto, como depois da morte, cair-te-√° em cima uma horda de malfeitores que se defendem na cal√ļnia e no insulto para seres tu a defender-te da ofensa deles. Ser o primeiro a caluniar √© ficar logo por cima. A n√£o ser, como nas aldeias, que respondas com outro insulto. E a raz√£o ficar√° ent√£o com quem tiver melhor pulmadura.

A Divinização do Utilitário

O grande conflito de hoje, no dom√≠nio socioecon√≥mico, por exemplo, e contra a previs√£o de um Marx, n√£o √© o que op√Ķe o Capital e o Trabalho, mas o que comanda a m√°quina e o que a serve (Fran√ßois Perroux). Mas o efeito mais vis√≠vel, porque mais extenso, da sua compacta presen√ßa, √© o que degrada os sonhos ao tang√≠vel e utilit√°rio que define a vituperada ¬ęsociedade de consumo¬Ľ. N√£o √© assim o √ļtil ou utili¬≠t√°rio que se condena: √© a sua diviniza√ß√£o. O que surpreende no mundo de hoje n√£o √© a sedu√ß√£o da comodidade, mas que ela esgote todas as sedu√ß√Ķes; n√£o √© o sonho de ¬ęviver bem¬Ľ, mas que s√≥ se viva bem com esse sonho. Decerto o viver bem foi sempre um sonho de quem teve por sorte o viver mal. Mas a realiza√ß√£o em massa dessa ambi√ß√£o instaura-se em plena for√ßa como modelo. E n√£o apenas por ser uma realiza√ß√£o em massa, mas porque aos ¬ęrespons√°veis¬Ľ nenhum valor se imp√Ķe para a esse imporem. O utilitarismo √© um valor negativo; mas con¬≠verte-se em positivo pela negatividade de quem poderia recus√°¬≠-lo. O que nos ¬ęirrespons√°veis¬Ľ √© uma ambi√ß√£o em positivo, √© nos ¬ęrespons√°veis¬Ľ uma aceita√ß√£o em negativo,

Continue lendo…

A Intensidade de um Sentimento

Creio que a intensidade de um sentimento tem que ver com o n√ļmero de elementos a que se aplica. Penso assim que ele varia na raz√£o inversa do n√ļmero desses elementos. Quanto maior for o n√ļmero de filhos, menor √© a alegria ou o desgosto que cada um provoca ao pai. O m√°ximo de sentir diz respeito a todos e divide-se portanto por cada um. Se um indiv√≠duo √© o chefe de um povo, transfere para a colectividade a sua capacidade de sentir. Assim ele √© praticamente insens√≠vel perante a sorte de cada um. A famosa insensibilidade de um chefe tem que ver com isso. O mesmo para o autodom√≠nio que se refere a um indiv√≠duo particular. Julgo que na realidade se trata de uma distribui√ß√£o do seu sentir por v√°rios elementos dos quais por exemplo os filhos (ou ele pr√≥prio) s√£o apenas uma frac√ß√£o. O resto dessa frac√ß√£o pode ir para os seus neg√≥cios, o seu partido pol√≠tico, os seus amigos ou amantes, o seu clube. E ent√£o o admit√°vel autodom√≠nio tem apenas que ver com uma parcela do sentir. E com essa parcela j√° se pode ser forte e aguentar. Isto, se se n√£o trata apenas, como julgo j√° ter dito,

Continue lendo…

Para Quê e Porquê

Vê se não insistes muito em perguntar porquê ou para quê, se não queres ficar paralítico. Porque a maior grandeza da vida tem o valor nela própria e não fora dela. Não se pode justificar a vida senão nela. Ou a luz. Ou a fraternidade humana. Ou a justiça. E o mais assim. E é o que é indiscutível que pode fundar um comportamento e uma razão de se estar vivo.
√Č f√°cil ainda inventar ou ter raz√Ķes para se atentar contra o que √© indiscut√≠vel. Porque se √© indiscut√≠vel, n√£o se pode discutir. E se se discute, o valor deixa de existir. Toda a cultura ou civiliza√ß√£o assenta em pressupostos que n√£o exigem uma demonstra√ß√£o e permanecem assim no intoc√°vel que √© seu. Eis que no nosso tempo, como em nenhum outro, o fundamental para a vida se determina pela nega√ß√£o. A arte foi como sempre o grande arauto da nossa terra queimada. Negar. Destruir. Porque tudo se contamina da possibilidade de nega√ß√£o. Das artes e as letras ao comportamento social.
E curiosamente a mais manifesta negação é a que se refere ao tabu sexual. E o que mais se destaca aí é o uso a frio das maiores obscenidades.

Continue lendo…

Ser Livre

√Č mais dif√≠cil ser livre do que puxar a uma carro√ßa. Isto √© t√£o evidente que receio ofender-vos. Porque puxar uma carro√ßa √© ser puxado por ela pela raz√£o de haver ordens para puxar, ou haver carro√ßa para ser puxada. Ou ser mesmo um passatempo passar o tempo puxando. Mas ser livre √© inventar a raz√£o de tudo sem haver absolutamente raz√£o nenhuma para nada. √Č ser senhor total de si quando se √© senhoreado. √Č darmo-nos inteiramente sem nos darmos absolutamente nada. √Č ser-se o mesmo, sendo-se outro. √Č ser-se sem se ser. Assim, pois, tudo √© complicado outra vez. √Č mesmo poss√≠vel que sofra aqui e ali de um pouco de engasgamento. Mas s√≥ a estupidez se n√£o engasga, √≥ merit√≠ssimos, na sua forma de ser quadr√ļpede, como v√≥s o deveis saber.

A Dádiva da Evidência de Si

Que havia, pois, mais para a vida, para responder ao seu desafio de milagre e de vazio, do que viv√™-la no imediato, na execu√ß√£o absoluta do seu apelo? Eliminar o desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia-a-dia os restos de ontem. Ser s√≥ abertura para amanh√£. A vida real n√£o eram as leis dos outros e a sua san√ß√£o e o seu teimoso estabelecimento de uma comunidade para o furor de uma plenitude solit√°ria. O absoluto da vida, a resposta fechada para o seu fechado desafio s√≥ podia revelar-se e executar-se na uni√£o total com n√≥s mesmos, com as for√ßas derradeiras que nos trazem de p√© e s√£o n√≥s e exigem realizar-se at√© ao esgotamento. Este ¬ęeu¬Ľ solit√°rio que achamos nos instantes de solid√£o final, se ningu√©m o pode conhecer, como pode algu√©m julg√°-lo? E de que serve esse ¬ęeu¬Ľ e a sua descoberta, se o condenamos √† pris√£o? Sab√™-lo √© afirm√°-lo! Reconhec√™-lo √© dar-lhe raz√£o. Que ignore isso o que ignora que √©. Que o despreze e o amordace o que vive no dia-a-dia animal. Mas quem teve a d√°diva da evid√™ncia de si, como condenar-se a si ao sil√™ncio prisional? Ningu√©m pode pagar, nada pode pagar a gratuitidade deste milagre de sermos.

Continue lendo…

A Verdade é um Modo de Estarmos a Bem Connosco

Cada √©poca, como cada idade da vida, tem o seu secreto e indiz√≠vel e injustific√°vel sentido de equil√≠brio. Por ele sabemos o que est√° certo e errado, sensato e rid√≠culo. E isto n√£o √© s√≥ vis√≠vel no que √© produto da emotividade. √Č vis√≠vel mesmo na manifesta√ß√£o mais neutral como uma not√≠cia ou um an√ļncio de jornal. Donde nasce esse equil√≠brio? Que √© que o constitui? O destr√≥i? Porque √© que se n√£o rebentava a rir com os an√ļncios de h√° cento e tal anos?¬†¬†¬†(Rebent√°mos n√≥s, aqui h√° uns meses, em casa dos Paix√Ķes, ao ler um jornal de 186…). Mas a raz√£o deve ser a mesma por que se n√£o rebentou a rir com a moda que h√° anos us√°mos, os livros rid√≠culos que nos entusiasmaram, as anedotas com que rimos e de que dev√≠amos apenas rir. O homem √©, no corpo como no esp√≠rito, um equil√≠brio de tens√Ķes. S√≥ que as do esp√≠rito, mais do que as do corpo, se reorganizam com mais frequ√™ncia. Equilibrado o esp√≠rito, mete-se-lhe uma ideia nova. Se n√£o √© expulsa, h√° nela a verdade. Porque a verdade √© isso: a inclus√£o de seja o que for no nosso mecanismo sem que lhe rebente as estruturas.

Continue lendo…

A Import√Ęncia de Dostoievski na Literatura

Os dois grandes monumentos do romance que o século passado (XIX) nos legou, ou seja aqueles em que poderemos reconhecer-nos, foram os erguidos por Tolstoi e por Dostoievski. Mas se a lição do primeiro foi facilmente assimilada, a do segundo levou tempo Рe tanto, que só hoje acabámos de entendê-la bem. Significa isto que Tolstoi, com incidências menores de moralização, continua um Balzac, é bem do século XIX. E foi por se pretender à força ligar a esse século também um Dostoievski que ele só tarde se nos revelou, para dominar ainda hoje, diga-se o que se disser, todo o romance europeu. Para usar uma expressão que já usei, não com inteira originalidade, e a que a crítica me ligou, direi que Tolstoi continua o romance-espectáculo e que Dostoievski inaugura o romance-problema.

Dir-se-ia, e com razão, que todo o romance é problema e espectáculo, já que o espectáculo resiste num romance de Kafka ou Dostoievski, e o problema implicita-se numa qualquer narrativa, nem que seja o Amadis de Gaula. Mas é tão visível a deslocação do acento na obra de Dostoievski, que ela foi defendida, para existir, pelo que lhe é inessencial (como por um Brunetière e recentemente um Ernst Fischer,

Continue lendo…

A Primeira Palavra que em Toda a Minha Vida me Esgotou o Ser

Uma palavra. Disse-a. Amo-te – uma palavra breve. Quantos milh√Ķes de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significa√ß√£o em si, o professor devia ter raz√£o. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas √†s outras para se aguentarem na sua rede a√©rea de sons. Mas houve uma palavra – meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das v√≠sceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articula√ß√£o rid√≠cula de sons e mobilizavam apenas a parte mec√Ęnica de mim, a parte fr√°gil e v√£. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora – onde est√°? Como se desfez? Ou n√£o desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a frac√ß√£o de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaix√£o. N√£o haver√° ent√£o uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E n√£o deixe de mim um recanto oculto que n√£o venha √† sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si?

Continue lendo…

A Verdade é Amor

A verdade √© amor ‚ÄĒ escrevi um dia. Porque toda a rela√ß√£o com o mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na inf√Ęncia e n√£o mais se p√īde esquecer. √Č esse equil√≠brio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho est√£o certos na composi√ß√£o de um quadro. √Č o mesmo equil√≠brio indiz√≠vel que ao fil√≥sofo imp√Ķe a verdade para a sua filosofia. Porque a filosofia √© um excesso da arte. Ela acrescenta em raz√Ķes ou explica√ß√Ķes o que lhe imp√īs esse equil√≠brio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser artista. Assim o que exprime o nosso equil√≠brio interior, gerado no impens√°vel ou impensado de n√≥s, √© um sentimento est√©tico, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em. raz√£o ou mesmo em intelig√™ncia. Porque s√≥ se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se est√° ¬ęfeito um para o outro¬Ľ. S√≥ entra em harmonia connosco o que o nosso equil√≠brio consente. E s√≥ o consente, se o amar. Porque mesmo a verdade dos outros ‚ÄĒ a pol√≠tica, por exemplo ‚ÄĒ se temos improvavelmente de a reconhecer, reconhecemo-la talvez no √≥dio, que √© a outra face do amor e se organiza ainda na sensibilidade.

Continue lendo…

A Inspiração da Leitura

Fala-se √†s vezes de ‘inspira√ß√£o’ a prop√≥sito de quem escreve uma obra. Mas nunca se diz isso de quem a l√™. Mas l√™-la √© escrev√™-la outra vez. E √© preciso estar-se inspirado para o conseguir bem. A inspira√ß√£o poss√≠vel de quem escreve um livro cumpre-se nele sem mais para o autor. Mas a de quem o reescreve, ou seja l√™, √© sempre vari√°vel. Ela varia n√£o s√≥ com o desgaste da repeti√ß√£o da leitura, mas ainda com a varia√ß√£o dessa varia√ß√£o e o motivo dela. Porque por arranjos incognosc√≠veis pode alternar a ades√£o com a repulsa e recuperar depois em ades√£o o que repelira e o contr√°rio. Como pode tudo ter que ver com raz√Ķes mais cognosc√≠veis ou razo√°veis e tudo depender assim de um insulto que nos doeu ou de um vinho que nos caiu mal. Um livro que se escreveu √© imut√°vel. O mesmo livro que se l√™ n√£o o √©. A inspira√ß√£o de quem escreveu deu o que tinha a dar. A de quem o recebe varia e n√£o se esgota. Porque se se esgotar, o livro n√£o tinha nenhuma.

Porque Escrevo?

Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espa√ßo habit√°vel da minha necessidade, do que me oprime, do que √© dif√≠cil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha s√£o verdade e a sua sedu√ß√£o √© mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degrada√ß√£o e a injusti√ßa n√£o devem ter raz√£o. Escrevo para tornar poss√≠vel a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que s√≥ na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que √© a primeira e a √ļltima que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar vis√≠vel o mist√©rio das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem raz√£o.

A Consciência Débil da Nossa Autenticidade

A consciência que te acompanha no que vais sendo é o puro registo disso que vais sendo para o poderes ler, se quiseres, depois de já ter sido. Mas no instante de seres o que és, o que és é apenas, por uma decisão anterior ao decidires. O que és é-lo onde a tua realidade profunda em profundeza obscura se realizou. O que és é-lo no absoluto de ti. A consciência testifica-nos apenas como o ser privilegiado que sabe o que é por aquilo que vai sendo e pode assim reconverter-se à posse iluminada disso que vai sendo. A consciência constata mas não interfere senão para se não ser mais o que se foi, ou mais rigorosamente, para se não querer ser o que se é Рo que é ser-se ainda, embora de outra maneira.
Porque se neste instante me sobreponho, ao que sou, outra maneira de ser Рa consciência que me altera o primeiro modo de ser é a paralela iluminação do modo de ser segundo. Decidi ainda antes de decidir, quando decidi não ser o que primeiramente decidira. Assim no torvelinho dos actos que me presentificam e da consciência desses actos, sempre o insondável de nós se abre para lá do que podemos sondar.

Continue lendo…