Textos sobre Saber de Mia Couto

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Textos de saber de Mia Couto. Leia este e outros textos de Mia Couto em Poetris.

Temos que o Saber Conquistar

Estou completamente cansado de pessoas que só pensam numa coisa: queixar-se e lamentar-se num ritual em que nos fabricamos mentalmente como vítimas. Choramos e lamentamos, lamentamos e choramos. Queixamo-nos até à náusea sobre o que os outros nos fizeram e continuam a fazer. E pensamos que o mundo nos deve qualquer coisa. Lamento dizer-vos que isto não passa de uma ilusão. Ninguém nos deve nada. Ninguém está disposto a abdicar daquilo que tem, com a justificação de que nós também queremos o mesmo. Se quisermos algo temos que o saber conquistar. Não podemos continuar a mendigar, meus irmãos e minhas irmãs.

Mudar o Governo

N√£o se pode governar um pa√≠s como se a pol√≠tica fosse um quintal e a economia fosse um bazar. Ao avaliar um regime de governa√ß√£o precisamos, no entanto, de ir mais fundo e saber se as quest√Ķes n√£o prov√™m do regime mas do sistema e a cultura que esse sistema vai gerando. Pode-se mudar o governo e tudo continuar√° igual se mantivermos intacto o sistema de fazer economia, o sistema que administra os recursos da nossa sociedade. N√≥s temos hoje gente com dinheiro. Isso em si mesmo n√£o √© mau. Mas esses endinheirados n√£o s√£o ricos. Ser rico √© outra coisa. Ser rico √© produzir emprego. Ser rico √© produzir riqueza. Os nossos novos-ricos s√£o quase sempre predadores, vivem da venda e revenda de recursos nacionais.

Afinal, culpar o governo ou o sistema e ficar apenas por a√≠ √© f√°cil. Algu√©m dizia que ¬ęgovernar √© t√£o f√°cil que todos o sabem fazer at√© ao dia em que s√£o governo¬Ľ. A verdade √© que muitos dos problemas que n√≥s vivemos resultam da falta de resposta nossa como cidad√£os activos. Resulta de apenas reagirmos no limite quando n√£o h√° outra resposta sen√£o a viol√™ncia cega. Grande parte dos problemas resulta de ficarmos calados quando podemos pensar e falar.

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Fomos Deixando de Escutar

Me entristece o quanto fomos deixando de escutar. Deix√°mos de escutar as vozes que s√£o diferentes, os sil√™ncios que s√£o diversos. E deix√°mos de escutar n√£o porque nos rodeasse o sil√™ncio. Fic√°mos surdos pelo excesso de palavras, fic√°mos autistas pelo excesso de informa√ß√£o. A natureza converteu-se em ret√≥rica, num emblema, num an√ļncio de televis√£o. Falamos dela, n√£o a vivemos. A natureza, ela pr√≥pria, tem que voltar a nascer. E quando voltar a nascer teremos que aceitar que a nossa natureza humana √© n√£o ter natureza nenhuma. Ou que, se calhar, fomos feitos para ter todas as naturezas.

Falei dos pecados da Biologia. Mas eu não trocaria esta janela por nenhuma outra. A Biologia ensinou-me coisas fundamentais. Uma delas foi a humildade. Esta nossa ciência me ajudou a entender outras linguagens, a fala das árvores, a fala dos que não falam. A Biologia me serviu de ponte para outros saberes. Com ela entendi a Vida como uma história, uma narrativa perpétua que se escreve não em letras mas em vidas.

A Biologia me alimentou a escrita liter√°ria como se fosse um desses velhos contadores n√£o de hist√≥rias mas de sabedorias. E reconheci li√ß√Ķes que j√° nos tinham sido passadas quando ainda n√£o t√≠nhamos sido dados √† luz.

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Por um Mundo Escutador

N√£o existe alternativa: a globaliza√ß√£o come√ßou com o primeiro homem. O primeiro homem (se √© que alguma vez existiu ¬ęum primeiro¬Ľ homem) era j√° a humanidade inteira. Essa humanidade produziu infinitas respostas adaptativas. O que podemos fazer, nos dias de hoje, √© responder √† globaliza√ß√£o desumanizante com uma outra globaliza√ß√£o, feita √† nossa maneira e com os nossos prop√≥sitos. N√£o tanto para contrapor. Mas para criar um mundo plural em que todos possam mundializar e ser mundializados. Sem hegemonia, sem domina√ß√£o. Um mundo que escuta as vozes diversas, em que todos s√£o, em simult√Ęneo, centro e periferia.

S√≥ h√° um caminho. Que n√£o √© o da imposi√ß√£o. Mas o da sedu√ß√£o. Os outros necessitam conhecer-nos. Porque at√© aqui ¬ęeles¬Ľ conhecem uma miragem. O nosso retrato – o retrato feito pelos ¬ęoutros¬Ľ – foi produzido pela sedimenta√ß√£o de estere√≥tipos. Pior do que a ignor√Ęncia √© essa presun√ß√£o de saber. O que se globalizou foi, antes de mais, essa ignor√Ęncia disfar√ßada de arrog√Ęncia. N√£o √© o rosto mas a m√°scara que se veicula como retrato.
A questão é, portanto, a de um outro conhecimento. Se os outros nos conhecerem, se escutarem a nossa voz e, sobretudo, se encontrarem nessa descoberta um motivo de prazer,

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