Citações de José Henrique dos Santos Barros

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Alexandrina, Como Era

Minha tia Alexandrina bebia café
meia tigela de manhĂŁ e meia de tarde
o que dava mais dum litro.
Com esse rio de fogo correndo no seu corpo
punha ela dez filhos fora de casa
e lavava dez sobrados Ă s senhoras da cidade.

E quando voltava para os Biscoitos na camioneta da carreira
deixava-me nos ouvidos a mĂşsica das gargalhadas dadas
e nos olhos os demĂłnios dos seus olhos
pretos, estrelas pequeninas fulgurantes.

NĂŁo passo pela ilha sem ir aos Biscoitos
não por vê-la, que ela já não está:
(levou-a o Canadá, a carta de chamada)
mas porque tenho consciĂŞncia que sĂŁo esplĂŞndidos
os ramos das vinhas que alastram nos calhaus.

Humidade

O melhor Ă© abrir a porta minha mĂŁe
respirar o cansaço por fora enquanto bordas
borda a borda o barco se parte todo
um mau fogo o abrasa.

NĂłs estamos silenciosos e hĂşmidos.
Escuta a pulsação como doem os pulsos
pulos da infância o respirar da arca
entrar o sol ao fechá-lo dentro

Pássaros

Eu não sei o nome destes pássaros que viajam alto.
Anjos? Não. Ouve-se-lhes bater o coração.

Os nazis distribuĂ­am sopa aos pobres
(vejo na TV como quem diz «nem tudo foi mau»).
Revejo-me numa foto de 70
dando sopa aos pobres de Cangombe. – «Tu Ă©s nazi,
pergunto?»

NĂŁo te compete a ti explicares-te, rapaz
sobretudo quando escreves versos
e pensas que em qualquer caso vale sempre a pena
adiar um pouco mais a morte.
E nem nunca mesmo ninguém explicou se um império que morre
morre de imortalidade ou de morte natural.

Tranquiliza-te: a besta que Ă©s
tu a suportas cada vez menos. Isso é bom, tão sério sendo?