Poemas sobre Sono de Fernando Pessoa

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Poemas de sono de Fernando Pessoa. Leia este e outros poemas de Fernando Pessoa em Poetris.

Começa a Ir Ser Dia

Começa a ir ser dia,
O céu negro começa,
Numa menor negrura
Da sua noite escura,
A Ter uma cor fria
Onde a negrura cessa.

Um negro azul-cinzento
Emerge vagamente
De onde o oriente dorme
Seu tardo sono informe,
E há um frio sem vento
Que se ouve e mal se sente.

Mas eu, o mal-dormido,
NĂŁo sinto noite ou frio,
Nem sinto vir o dia
Da solidĂŁo vazia.
SĂł sinto o indefinido
Do coração vazio.

Em vĂŁo o dia chega
Quem nĂŁo dorme, a quem
NĂŁo tem que ter razĂŁo
Dentro do coração,
Que quando vive nega
E quando ama nĂŁo tem.

Em vão, em vão, e o céu
Azula-se de verde
Acinzentadamente.
Que Ă© isto que a minha alma sente?
Nem isto, nĂŁo, nem eu,
Na noite que se perde.

Entre o Sono e Sonho

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.

Conta a Lenda que Dormia

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem sĂł despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que Ă  Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela Ă© ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mĂŁo, e encontra hera,
E vĂŞ que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

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