Sonetos sobre Bem de Cl√°udio Manuel da Costa

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Sonetos de bem de Cl√°udio Manuel da Costa. Leia este e outros sonetos de Cl√°udio Manuel da Costa em Poetris.

XLIV

Há quem confie, Amor, na segurança
De um falsíssimo bem, com que dourando
O veneno mortal, v√°s enganando
Os tristes cora√ß√Ķes numa esperan√ßa!

Há quem ponha inda cego a confiança
Em teu fingido obséquio, que tomando
Li√ß√Ķes de desengano, n√£o v√° dando
Pelo mundo certeza da mudança!

H√° quem creia, que pode haver firmeza
Em peito feminil, quem advertido
Os cultos n√£o profane da beleza!

H√° inda, e h√° de haver, eu n√£o duvido,
Enquanto n√£o mudar a Natureza
Em Nise a formosura, o amor em Fido.

LXXV

Clara fonte, teu passo lisonjeiro
P√°ra, e ouve-me agora um breve instante;
Que em paga da piedade o peito amante
Te ser√° no teu curso companheiro.

Eu o primeiro fui, fui o primeiro,
Que nos braços da ninfa mais constante
Pude ver da fortuna a face errante
Jazer por glória de um triunfo inteiro.

Dura mão, inflexível crueldade
Divide o laço, com que a glória, a dita
Atara o gosto ao carro da vaidade:

E para sempre a dor ter n’alma escrita,
De um breve bem nasce imortal saudade,
De um caduco prazer m√°goa infinita.

LXXIV

Sombrio bosque, sítio destinado
À habitação de um infeliz amante,
Onde chorando a m√°goa penetrante
Possa desafogar o seu cuidado;

Tudo quieto est√°, tudo calado;
N√£o h√° fera, que grite; ave, que cante;
Se acaso saber√°s, que tens diante
Fido, aquele pastor desesperado!

Escuta o caso seu: mas n√£o se atreve
A erguer a voz; aqui te deixa escrito
No tronco desta faia em cifra breve:

Mudou-se aquele bem; hoje é delito
Lembrar-me de Marfisa; era mui leve:
N√£o h√° mais, que atender; tudo est√° dito.

XXXIX

Breves horas, Amor, h√°, que eu gozava
A glória, que minha alma apetecia;
E sem desconfiar da aleivosia,
Teu lisonjeiro obséquio acreditava.

Eu só à minha dita me igualava;
Pois assim avultava, assim crescia,
Que nas cenas, que ent√£o me oferecia,
O maior gosto, o maior bem lograva;

Fugiu, faltou-me o bem: j√° descomposta
Da vaidade a brilhante arquitetura,
Vê-se a ruína ao desengano exposta:

Que ligeira acabou, que mal segura!
Mas que venho a estranhar, se estava posta
Minha esperança em mãos da formosura!

XLII

Morfeu doces cadeias estendia,
Com que os cansados membros me enlaçava;
E quanto mal o coração passava,
Em sonhos me debuxa a fantasia.

Lise presente vi, Lise, que um dia
Todo o meu pensamento arrebatava,
Lise, que na minha alma impressa estava,
Bem apesar da sua tirania.

Corro a prendê-la em amorosos laços
Buscando a sombra, que apertar intento;
Nada vejo (ai de mim!) perco os meus passos.

Ent√£o mais acredito o fingimento:
Que ao ver, que Lise foge de meus braços,
A crê pelo costume o pensamento.

LXI

Deixemo-nos, Algano, de porfia;
Que eu sei o que tu és, contra a verdade
Sempre h√°s de sustentar, que a divindade
Destes campos é Brites, não Maria!

Ora eu te mostrarei inda algum dia,
Em que est√° teu engano: a novidade,
Que agora te direi, é, que a cidade
Por melhor, do que todas a avalia.

H√° pouco, que encontrei l√° junto ao monte
Dous pastores, que estavam conversando,
Quando passaram ambas para a fonte;

Nem falaram em Brites: mas tomando
Para um cedro, que fica bem defronte,
O nome de Maria v√£o gravando.

XVI

Toda a mortal fadiga adormecia
No silêncio, que a noite convidava;
Nada o sono suavíssimo alterava
Na muda confus√£o da sombra fria:

Só Fido, que de amor por Lise ardia,
No sossego maior n√£o repousava;
Sentindo o mal, com l√°grimas culpava
A sorte; porque dela se partia.

Vê Fido, que o seu bem lhe nega a sorte;
Querer enternec√™-na √© in√ļtil arte;
Fazer o que ela quer, é rigor forte:

Mas de modo entre as penas se reparte;
Que à Lise rende a alma, a vida à morte:
Por que uma parte alente a outra parte.

XXVIII

Faz a imaginação de um bem amado,
Que nele se transforme o peito amante;
Daqui vem, que a minha alma delirante
Se n√£o distingue j√° do meu cuidado.

Nesta doce loucura arrebatado
Anarda cuido ver, bem que distante;
Mas ao passo, que a busco neste instante
Me vejo no meu mal desenganado.

Pois se Anarda em mim vive, e eu nela vivo,
E por força da idéia me converto
Na bela causa de meu fogo ativo;

Como nas tristes l√°grimas, que verto,
Ao querer contrastar seu gênio esquivo,
T√£o longe dela estou, e estou t√£o perto.

XIII

Nise ? Nise ? onde est√°s ? Aonde espera
Achar te uma alma, que por ti suspira,
Se quanto a vista se dilata, e gira,
Tanto mais de encontrar te desespera!

Ah se ao menos teu nome ouvir pudera
Entre esta aura suave, que respira!
Nise, cuido, que diz; mas é mentira.
Nise, cuidei que ouvia; e tal n√£o era.

Grutas, troncos, penhascos da espessura,
Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,
Mostrai, mostrai me a sua formosura.

Nem ao menos o eco me responde!
Ah como é certa a minha desventura!
Nise ? Nise ? onde est√°s ? aonde ? aonde ?

XXIX

Ai Nise amada! se este meu tormento,
Se estes meus sentidíssimos gemidos
L√° no teu peito, l√° nos teus ouvidos
Achar pudessem brando acolhimento;

Como alegre em servir-te, como atento
Meus votos tributara agradecidos!
Por séculos de males bem sofridos
Trocara todo o meu contentamento.

Mas se na incontrast√°vel, pedra dura
De teu rigor não há correspondência,
Para os doces afetos de ternura;

Cesse de meus suspiros a veemência;
Que é fazer mais soberba a formosura
Adorar o rigor da resistência.

XXXV

Aquele, que enfermou de desgraçado,
N√£o espere encontrar ventura alguma:
Que o Céu ninguém consente, que presuma,
Que possa dominar seu duro fado.

Por mais, que gire o espírito cansado
Atr√°s de algum prazer, por mais em suma,
Que porfie, trabalhe, e se consuma,
Mudança não verá do triste estado.

N√£o basta algum valor, arte, ou engenho
A suspender o ardor, com que se move
A infausta roda do fatal despenho:

E bem que o peito humano as forças prove,
Que h√° de fazer o temer√°rio empenho,
Onde o raio é do Céu, a mão de Jove.

IX

Pouco importa, formosa Daliana,
Que fugindo de ouvir me, o fuso tomes;
Se quanto mais me afliges, e consomes,
Tanto te adoro mais, bela serrana.

Ou j√° fujas do abrigo da cabana,
Ou sobre os altos montes mais te assomes,
Faremos imortais os nossos nomes,
Eu por ser firme, tu por ser tirana.

Um obséquio, que foi de amor rendido,
Bem pode ser, pastora, desprezado;
Mas nunca se ver√° desvanecido:

Sim, que para lisonja do cuidado,
Testemunhas ser√£o de meu gemido
Este monte, este vale, aquele prado.

LII

Que molesta lembrança, que cansada
Fadiga é esta! vejo-me oprimido,
Medindo pela magoa do perdido
A grandeza da glória já passada.

Foi grande a dita sim; porem lembrada,
Inda a pena é maior de a haver perdido;
Quem n√£o fora feliz, se o haver sido
Faz, que seja a paix√£o mais avultada!

Propício imaginei (é bem verdade)
O malévolo fado: oh quem pudera
Conhecer logo a hipócrita piedade!

Mas que em v√£o esta dor me desespera,
Se j√° entorpecida a enfermidade
Inda agora o remédio se pondera!

LI

Adeus, ídolo belo, adeus, querido,
Ingrato bem; adeus: em paz te fica;
E essa vitória mísera publica,
Que tens barbaramente conseguido.

Eu parto, eu sigo o norte aborrecido
De meu fado infeliz: agora rica
De despojos, a teu desdém aplica
O rouco acento de um mortal gemido.

E se acaso alguma hora menos dura
Lembrando-te de um triste, consultares
A série vil da sua desventura;

Na imensa confus√£o de seus pesares
Achar√°s, que ardeu simples, ardeu pura
A vítima de uma alma em teus altares.

LXXXI

Junto desta corrente contemplando
Na triste falta estou de um bem que adoro;
Aqui entre estas l√°grimas, que choro,
Vou a minha saudade alimentando.

Do fundo para ouvir-me vem chegando
Das claras hamadríades o coro;
E desta fonte ao murmurar sonoro,
Parece, que o meu mal est√£o chorando.

Mas que peito h√° de haver t√£o desabrido,
Que fuja à minha dor! que serra, ou monte
Deixar√° de abalar-se a meu gemido!

Igual caso n√£o temo, que se conte;
Se até deste penhasco endurecido
O meu pranto brotar fez uma fonte.

XXXI

Estes os olhos s√£o da minha amada:
Que belos, que gentis, e que formosos!
N√£o s√£o para os mortais t√£o preciosos
Os doces frutos da estação dourada.

Por eles a alegria derramada,
Tornam-se os campos de prazer gostosos;
Em zéfiros suaves, e mimosos
Toda esta região se vê banhada;

Vinde, olhos belos, vinde; e enfim trazendo
Do rosto de meu bem as prendas belas,
Dai alívios ao mal, que estou gemendo:

Mas ah delírio meu, que me atropelas!
Os olhos, que eu cuidei, que estava vendo,
Eram (quem crera tal!) duas estrelas.

LVII

Bela imagem, emprego idolatrado,
Que sempre na memória repetido,
Est√°s, doce ocasi√£o de meu gemido,
Assegurando a fé de meu cuidado.

Tem-te a minha saudade retratado;
Não para dar alívio a meu sentido;
Antes cuido; que a m√°goa do perdido
Quer aumentar coa pena de lembrado.

N√£o julgues, que me alento com trazer-te
Sempre viva na idéia; que a vingança
De minha sorte todo o bem perverte.

Que alívio em te lembrar minha alma alcança,
Se do mesmo tormento de n√£o ver-te,
Se forma o desafogo da lembrança ?

XLVIII

Traidoras horas do enganoso gosto,
Que nunca imaginei, que o possuía,
Que ligeiras passastes! mal podia
Deixar aquele bem de ser suposto.

J√° de parte o tormento estava posto;
E meu peito saudoso, que isto via,
As imagens da pena desmentia,
Pintando da ventura alegre o rosto.

Desanda ent√£o a f√°brica elevada,
Que o pl√°cido Morfeu tinha erigido,
Das espécies do sono fabricada:

Então é, que desperta o meu sentido,
Para observar na pompa destroçada,
Verdadeira a ruína, o bem fingido.

I

Para cantar de amor tenros cuidados,
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi pois o meu f√ļnebre lamento;
Se é, que de compaixão sois animados:

Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do tr√°cio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de Anfi√£o ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.
Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino:

O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.

XXX

N√£o se passa, meu bem, na noite, e dia
Uma hora só, que a mísera lembrança
Te não tenha presente na mudança,
Que fez, para meu mal, minha alegria.

Mil imagens debuxa a fantasia,
Com que mais me atormenta e mais me cansa:
Pois se tão longe estou de uma esperança,
Que alívio pode dar me esta porfia!

Tirano foi comigo o fado ingrato;
Que crendo, em te roubar, pouca vitória,
Me deixou para sempre o teu retrato:

Eu me alegrara da passada glória,
Se quando me faltou teu doce trato,
Me faltara também dele a memória.