Sonetos de Vasco Mouzinho de Quebedo

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Sonetos de Vasco Mouzinho de Quebedo. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

Soneto IIII

Ao Reitor António de Mendonça.

Neste árduo labirinto onde me guio,
Sem esperança algua de saída,
Mostrai, senhor, o fio à minha vida,
Pois está minha vida já no fio.

Incertos passos, hórrido desvio,
Medonhos ares, confusão crescida
Ma trazem com temor desfalecida,
E dela já de todo desconfio.

A vós só tem minha esperança morta,
Se morta pode ser ua esperança
Que vos tem vivo, e largos anos tenha.

Se espera mal, e ser queimada importa
Por crer mais do que pode e cá se alcança,
O fogo ponde, que eu lhe ajunto a lenha.

Soneto XI

Lá nua estranha e solitária terra,
De gente e nação bárbara habitada,
O metal nobre não se estima em nada
Que embalde seu valor e preço encerra.

Ouro, com que se arrea e move guerra
A corações, a Dama delicada,
Serve lá de grilhão, que em apertada
Corrente a malfeitores fecha e cerra.

Nace esta confusão e diferença
Do muito que uns o seu valor alcançam,
E do pouco que de outros se conhece.

Julguem do Sol, e sua glória imensa
Os olhos d’Águia, já que todos cansam,
Que só para tais olhos resplandece.

Soneto XXVIII

Dizeis que alcançastes e perdestes
Um bem, que muito tempo procurastes,
Se entre todos os males, mal achastes,
Que comparação possa ter com estes?

Dizeis que entre outros males que tivestes,
Nenhum mal tão cruel experimentastes
Como perder um bem, que já lograstes,
Pois então mais que nunca lhe quisestes.

E se é mais grave o mal, quanto é mais raro
O bem, que se perdeu; julgai qual seja
Meu mal, pois que meu bem não teve igual.

Isto faz que duvide o que deseja
Alcançar, pois enfim custa tão caro,
Inda que é certo o bem, e incerto o mal.

Soneto XXX

Quando às vezes a mi, por mi pergunto,
Quem fui responde que me não conhece
Com não ser, de quem sou me desconhece,
E tem-me por defunto, o já defunto.

Ele chora-me a mi, por ele ajunto
Com ele minhas lágrimas, e crece
Ua com outra dor, pois se oferece
Chorar quem já fui, e quem sou, junto.

Choro porque o não vejo qual o via,
Ele porque me vê, qual me vê chora,
De mim, e dele, só lágrimas há.

Espero por um dia, cada dia,
Que ou acabe de ser quem sou agora,
Ou acabe o lembrar-me quem fui já.