Textos sobre Arte de Cesare Pavese

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Textos de arte de Cesare Pavese. Leia este e outros textos de Cesare Pavese em Poetris.

Existir Eficazmente

Esta necessidade de estar s√≥, de n√£o sentir que te pedem seja o que for, que te separam de ti pr√≥prio. Este horror a que tenham o m√≠nimo direito sobre ti, de que to fa√ßam sentir… Esta evidente impertin√™ncia dos outros, quando esperam qualquer coisa, quando take for granted alguma coisa de ti.
Tornas-te de s√ļbito distante, apagas-te, ficas r√≠gido, repeles. Incapaz de dizer uma boa palavra. P√Ķes ponto final e afastas-te.
Rancor contra aqueles que tiveste de eliminar dessa maneira e que, por piedade, por espírito de sacrifício, tens de voltar a aceitar.

A sa√ļde interior que d√£o a profiss√£o pol√≠tico-moral e o contacto com as massas n√£o √© diferente da que prov√©m de qualquer ocupa√ß√£o, de qualquer actividade a que um homem se consagre. Quando escreves e te entregas inteiramente √† tua arte, sentes-te sereno, equilibrado, feliz.

Dar Significado ao Tempo

Um dos prazeres humanos menos observados √© o de preparar acontecimentos √† dist√Ęncia, de organizar um grupo de acontecimentos que tenham uma constru√ß√£o, uma l√≥gica, um come√ßo e um fim. Este √© quase sempre apercebido como um acme sentimental, uma alegre ou lisonjeira crise de conhecimento de si pr√≥prio. Isto aplica-se tanto √† constru√ß√£o de uma resposta pronta como √† de uma vida. E o que √© isto, sen√£o a premissa da arte de narrar? A arte narrativa apazigua precisamente esse gosto profundo.
O prazer de narrar e de escutar √© o de ver os factos serem dispostos segundo aquele gr√°fico. A meio de uma narrativa volta-se √†s premissas e tem-se o prazer de encontrar raz√Ķes, chaves, motiva√ß√Ķes causais. Que outra coisa fazemos quando pensamos no nosso pr√≥prio passado e nos comprazemos em reconhecer os sinais do presente ou do futuro? Esta constru√ß√£o d√°, em subst√Ęncia, um significado ao tempo. E o narrar √©, em suma, apenas um meio de o transformar em mito, de lhe fugir.

A Arte de Viver

A arte de viver Рdado que para viver é preciso fazer sofrer os outros (ver vida sexual, ver comércio, ver qualquer actividade) Рconsiste em habituarmo-nos a fazer todas as patifarias sem abalar o nosso equilíbrio interior. Ser capaz de todas as patifarias é a melhor bagagem que um homem pode possuir.

A Nossa Arte

A arte de desenvolver os pequenos motivos para nos decidirmos a realizar as grandes ac√ß√Ķes que nos s√£o necess√°rias. A arte de nunca nos deixarmos desencorajar pelas reac√ß√Ķes dos outros, recordando que o valor de um sentimento √© ju√≠zo nosso, pois seremos n√≥s a senti-lo e n√£o os que assistem. A arte de mentir a n√≥s pr√≥prios, sabendo que estamos a mentir. A arte de encarar as pessoas de frente, incluindo n√≥s pr√≥prios, como se fossem personagens de uma novela nossa. A arte de recordar sempre que, n√£o tendo n√≥s qualquer import√Ęncia e n√£o tendo tamb√©m os outros qualquer esp√©cie de import√Ęncia, n√≥s temos mais import√Ęncia que qualquer outro, simplesmente porque somos n√≥s.
A arte de considerar a mulher como um peda√ßo de p√£o: problema de ast√ļcia. A arte de mergulhar fulminante e profundamente na dor, para vir novamente √† tona gra√ßas a um golpe de rins. A arte de nos substituirmos a qualquer um, e de saber, portanto, que cada pessoa se interessa apenas por si pr√≥pria. A arte de atribuir qualquer dos nossos gestos a outrem, para verificarmos imediatamente se √© sensato.
A arte de viver sem a arte.
A arte de estar só.

O Instinto Trabalhado

S√≥ pode inspirar a ac√ß√£o, servir de credo, o pensamento que se tenha tornado maquinal, instintivo. Perigo de nos analisarmos demasiadamente: as veias vivas do temperamento ficam, dessa maneira, excessivamente dilucidadas e tornadas maquinais, devido √† familiaridade. O que √© preciso, pelo contr√°rio, √© a arte de dar livre curso aos impulsos espirituais, deixando-os agir, mecanicamente, sob o est√≠mulo. H√° o manual do catecismo – por de mais conhecido e posti√ßo – e o maquinal do instinto. √Č preciso favorecer, explorar, reconhecer e apoiar o instinto, sem lhe roubar o vigor por meio da reflex√£o. Mas √© preciso reflectir nele, para o acompanhar na ac√ß√£o e substitu√≠-lo nos momentos de surdez.