CitaĆ§Ć£o de

Dar Significado ao Tempo

Um dos prazeres humanos menos observados Ć© o de preparar acontecimentos Ć  distĆ¢ncia, de organizar um grupo de acontecimentos que tenham uma construĆ§Ć£o, uma lĆ³gica, um comeƧo e um fim. Este Ć© quase sempre apercebido como um acme sentimental, uma alegre ou lisonjeira crise de conhecimento de si prĆ³prio. Isto aplica-se tanto Ć  construĆ§Ć£o de uma resposta pronta como Ć  de uma vida. E o que Ć© isto, senĆ£o a premissa da arte de narrar? A arte narrativa apazigua precisamente esse gosto profundo.
O prazer de narrar e de escutar Ć© o de ver os factos serem dispostos segundo aquele grĆ”fico. A meio de uma narrativa volta-se Ć s premissas e tem-se o prazer de encontrar razƵes, chaves, motivaƧƵes causais. Que outra coisa fazemos quando pensamos no nosso prĆ³prio passado e nos comprazemos em reconhecer os sinais do presente ou do futuro? Esta construĆ§Ć£o dĆ”, em substĆ¢ncia, um significado ao tempo. E o narrar Ć©, em suma, apenas um meio de o transformar em mito, de lhe fugir.