Passagens sobre Mito

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Frases sobre mito, poemas sobre mito e outras passagens sobre mito para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Nunca nos Assemelhamos a nós Próprios

O homem não é conhecível a si próprio, porque a sua vida consiste em esforços alternados para ser o que não é, e essa transposição e substituição contínuas de almas irreais e estranhas fazem com que aquilo que na verdade e, ao contrário de Deus, pareça o que nunca é. Mesmo no mais pobre de nós existem pelo menos sete homens.
Há aquele que parece aos outros e o julgado, justamente, sabe quase sempre que não é.
Há aquele que diz ser e ele próprio sabe não ser, porque a vaidade ou medo tornam sempre mentiroso.
Há aquele que julga ser e é o mais distante da verdade, que cada um se inclina para se julgar aquilo que não é, por uma retorsão do orgulho que afasta tudo o pior, que é a maioria.
H√° aquele que quereria ser, o mito pessoal de todo o homem, o sonho reservado ao futuro, aquele que depois deforma todas as autobiografias.
Aquele que finge ser para comodidade e necessidade da vida comum, onde o insensível deve mostrar-se caloroso, o avarento liberal e o vil corajoso.
H√° aquele que se poderia chamar o nosso duplo desconhecido: a personalidade subconsciente,

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Vencido

No auge de atordoadora e √°vida sanha
Leu tudo, desde o mais prístino mito,
Por exemplo: o do boi √Āpis do Egito
Ao velho Niebelungen da Alemanha.

Acometido de uma febre estranha
Sem o esc√Ęndalo f√īnico de um grito,
Mergulhou a cabeça no Infinito,
Arrancou os cabelos na montanha!

Desceu depois à gleba mais bastarda,
Pondo a áurea insígnia heráldica da farda
A vontade do v√īmito plebeu…

E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria
O vencido pensava que cuspia
Na célula infeliz de onde nasceu.

A igualdade de oportunidades, independentemente dos meios de fortuna e da posi√ß√£o social, √© cada vez mais um mito, designadamente em sectores como a sa√ļde, a habita√ß√£o e o ensino, onde tudo se degrada a um ritmo alucinante.

Hóstias

A Emílio de Menezes

Nos arminhos das nuvens do infinito
Vamos noivar por entre os esplendores,
Como aves soltas em vergéis de flores,
Ou penitentes de um estranho rito.

Que seja nosso amor — sid√©rio mito! —
O límpido turíbulo das dores,
Derramando o incenso dos amores
Por sobre o humano coração aflito.

Como num templo, numa clara igreja,
Que o sonho nupcial gozado seja,
Que eu durma e sonhe nos teus níveos flancos.

Contigo aos astros f√ļlgidos alado,
Que sejam hóstias para o meu noivado
As flores virgens dos teus seios brancos!

Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade.

Venda da Alma e Venda do Corpo

N√£o s√≥ as mulheres que casam sem amor, mas apenas por conveni√™ncia; n√£o s√≥ as esposas que continuam a comer o p√£o daquele que j√° n√£o amam e enganam; n√£o s√≥ as mulheres se prostituem. √Č prostituto o escritor que coloca a pena ao servi√ßo das ideias em que n√£o cr√™; o advogado que defende causas que reconhece injustas; quem finge a ades√£o aos mitos e interesses dos poderosos para obter recompensas materiais e morais; o actor e o bobo que se exp√Ķem diante dos idiotas pagantes para arrecadar aplausos e dinheiro; o poeta que abre aos estranhos os segredos da sua alma, amores e melancolias, para obter em compensa√ß√£o um pouco de fama, de dinheiro ou de compaix√£o; e, acima de tudo, √© prostituto o pol√≠tico, o demagogo, o tribuno que todos devem acariciar, seduzir, a todos promete favores e felicidade e a todos se entrega por amor √† popularidade – justamente chamado homem p√ļblico, quase irm√£o de toda a mulher p√ļblica.
Mas quem de entre n√≥s, pelo menos um dia da sua vida, n√£o simulou um sentimento que n√£o tinha e um entusiasmo que n√£o sentia e repetiu uma opini√£o falsa para obter compensa√ß√Ķes, cumplicidades, sorrisos ou benef√≠cios?

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Ao Amor

O que desejas de mim
nunca o dar√° o lampejo de um momento,
a conquista de um dia da montanha.

Meu corpo ‚ÄĒ para ti somente ‚ÄĒ
deve emergir a cada gesto límpido
e profundo deve ser meu futuro
para reter-te e recriar-te permanente.

Sei que em mim te estender√°s, n√£o mais disperso,
em desejo e em procura de teu filho
e que todo movimento de meu ser
ser√° o rumo de teu universo.

E por isso temo. No meu sentimento
sofro por ti. Receio
ser larga a hesitação de meu caminho,
ser um mito a conquista da montanha,
ser pobre e fugaz o meu espaço
na extens√£o que reduz teu infinito.

A Paix√£o

A paixão é um incêndio
na fábrica de fogos de artifício.
A paixão é um balé
à beira do precipício.

Quando a paix√£o termina
o mito se quebra.
E resta a sensação de uma viagem
contra uma chuva de pedra.

√Č Delicada, Suave, Vaporosa

√Č delicada, suave, vaporosa,
A grande atriz, a singular feitura…
√Č linda e alva como a neve pura,
D√©bil, franzina, divinal, nervosa!…

E d’entre os l√°bios setinais, de rosa
Libram-se p√©rolas de nitente alvura…
E doce aroma de sutil frescura
Sai-lhe da leve complei√ß√£o mimosa!…

Quando aparece no febril proscênio
Bem como os mitos do passado, ingentes,
Bem como um astro majestoso, hel√™nio…

Sente-se n’alma as atra√ß√Ķes potentes
Que só se operam ao fulgor do gênio,
As rubras chispas ideais, ferventes!…

O Homem n√£o Deseja a Paz

Que estranho bicho o homem. O que ele mais deseja no conv√≠vio inter-humano n√£o √© afinal a paz, a conc√≥rdia, o sossego colectivo. O que ele deseja realmente √© a guerra, o risco ao menos disso, e no fundo o desastre, o infort√ļnio. Ele n√£o foi feito para a conquista de seja o que for, mas s√≥ para o conquistar seja o que for. Poucos homens afirmaram que a guerra √© um bem (Hegel, por exemplo), mas √© isso que no fundo desejam. A guerra √© o perigo, o desafio ao destino, a possibilidade de triunfo, mas sobretudo a inquieta√ß√£o em ac√ß√£o. Da paz se diz que √© ¬ępodre¬Ľ, porque √© o estarmos reca√≠dos sobre n√≥s, a inactividade, a derrota que sobrev√©m n√£o apenas ao que ficou derrotado, mas ainda ou sobretudo ao que venceu. O que ficou derrotado √© o mais feliz pela necessidade inilud√≠vel de tentar de novo a sorte. Mas o que venceu n√£o tem paz sen√£o por algum tempo no seu cora√ß√£o alvoro√ßado. A guerra √© o estado natural do bicho humano, ele n√£o pode suportar a felicidade a que aspirou. Como o grupo de futebol, qualquer vit√≥ria alcan√ßada √© o est√≠mulo insuport√°vel para vencer outra vez.

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Na Europa h√° um mito hist√≥rico e religioso. A Uni√£o Europeia tende para isso: um s√≥ comando gen√©rico e uma s√≥ f√© que √© posta na democracia. Tira-se a religi√£o um pouco para o lado e estabelece-se uma democracia generalizada, a uni√£o da Europa com um mesmo fim: um s√≥ rei e um s√≥ papa. √Č o mito que se est√° a tornar uma realidade actualmente com Bruxelas no centro da Uni√£o Europeia. Acho que √© √≥ptimo mas √© muito dif√≠cil porque h√° diferentes climas nas regi√Ķes, h√° diferentes idiossincrasias, diferentes l√≠nguas. √Č sempre muito dif√≠cil tornar uma coisa acess√≠vel a toda essa diversidade.

O grande inimigo da verdade não é muito frequentemente a mentira (deliberada, controvertida e desonesta), mas o mito Рpersistente, persuasivo, e não realista.

Controlar a Vida a 360 Graus

Vivemos numa sociedade dominada cada vez mais pelo mito do controlo. E o seu postulado dogm√°tico √© este: a receita para uma vida realizada √© a capacidade de control√°-la a 360 graus. N√£o percebemos at√© que ponto uma mentalidade assim representa a nega√ß√£o do princ√≠pio de realidade. Isto para dizer como somos pouco ajudados a lidar com a irrup√ß√£o do inesperado que hoje o sofrimento representa. Sentimos a dor como uma tempestade estranha que se abate sobre n√≥s, tir√Ęnica e inexplic√°vel. Quando ela chega, s√≥ conseguimos sentir-nos capturados por ela, e os nossos sentidos tornam-se como persianas que, mesmo inconscientemente, baixamos. A luz j√° n√£o nos √© t√£o grata, as cores deixam de levar-nos consigo na sua ligeireza, os odores atormentam-nos, ignoramos o prazer, evitamos a melodia das coisas. Damos por n√≥s ausentes nessa combust√£o silenciosa e fechada onde parece que o interesse sensorial pela vida arde. ¬ęA dor √© t√£o grande, a dor sufoca, j√° n√£o tem ar. A dor precisa de espa√ßo¬Ľ, escreve Marguerite Duras nas p√°ginas autobiogr√°ficas do volume a que chamou ¬ęA Dor¬Ľ. E descobrimo-nos mais s√≥s do que pens√°vamos no meio desse inc√™ndio √≠ntimo que cresce. Nas etapas de sofrimento a impot√™ncia parece aprisionar enigmaticamente todas as nossas possibilidades.

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O Grande Mito Nacional

Há uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação Рa construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou. Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, por cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.

Dizem os S√°bios

Dizem os s√°bios que j√° nada ignoram
Que alma, √© um mito!…
Eles que há muito, em vão, dos céus exploram
O almo infinito…
Eles, que nunca achavam no ente humano
Mais que esta face
De ser finito, org√Ęnico, o gusano
Que morre e nasce,
Fundam-se na raz√£o.
E a raz√£o erra!…

Quem da lagarta a rastejar na terra
Pode supor,
Sonhar sequer, que um dia h√°-de nascer
A borboleta, aquela alada flor
Matiz dos céus?
S√°bios, achai em v√£o o pode ser
Saber… s√≥ Deus.

O homem rasteja, semelhante ao verme
Por que n√£o h√°-de a paz da sepultura
– Quanto labor sob a aparente calma!
Servir d’abrigo √†quele ser inerme,
De que há-de um dia após tarefa oscura
Surgir vivaz, alada e flor, a Alma.

Pedra de Canto

Ainda ter√°s alento e pedra de canto,
Mito de Pégaso, patada de sangue da mentira,
Para cantar em sílabas ásperas o canto,
De rima em -anto, o pranto,
O amor, o apego, o sossego, a rima interna
Das almas calmas, isto e aquilo, o canto
Do pranto em pedra aparelhada a corpo e escopro,
O estupro de outrora, a triste vida dela, o canto,
Buraco onde te metes, duplamente: com falo,
Falas, f√°-la chorar e ganir, com falo o canto
No buraco de grilo onde anoiteces,
No buraco de falso eremita onde conheces
Teu nada, o dela, o buraco dela, o canto
De pedra, sim, canteiro por cantares e aparelhares
Com ela em rua e cama o falo f√°-la cheia,
Canteiro porque o falo a julga flores, o canto
√Āspero do canteiro de pedra e s√©men que tu √©s
(No buraco do falo falaste),
Tu, falaz√£o de amor, que a amas e conheces.
Amas a quem? Conheces quem? Pobre Hipocrene,
Apolo de pataco, Cam√Ķes binocular, poeta de merda,

Embora isso em sangue dessa pobre alma em ferida:
A dela,

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Dar Significado ao Tempo

Um dos prazeres humanos menos observados √© o de preparar acontecimentos √† dist√Ęncia, de organizar um grupo de acontecimentos que tenham uma constru√ß√£o, uma l√≥gica, um come√ßo e um fim. Este √© quase sempre apercebido como um acme sentimental, uma alegre ou lisonjeira crise de conhecimento de si pr√≥prio. Isto aplica-se tanto √† constru√ß√£o de uma resposta pronta como √† de uma vida. E o que √© isto, sen√£o a premissa da arte de narrar? A arte narrativa apazigua precisamente esse gosto profundo.
O prazer de narrar e de escutar √© o de ver os factos serem dispostos segundo aquele gr√°fico. A meio de uma narrativa volta-se √†s premissas e tem-se o prazer de encontrar raz√Ķes, chaves, motiva√ß√Ķes causais. Que outra coisa fazemos quando pensamos no nosso pr√≥prio passado e nos comprazemos em reconhecer os sinais do presente ou do futuro? Esta constru√ß√£o d√°, em subst√Ęncia, um significado ao tempo. E o narrar √©, em suma, apenas um meio de o transformar em mito, de lhe fugir.