Textos sobre Sempre de Cesare Pavese

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Textos de sempre de Cesare Pavese. Leia este e outros textos de Cesare Pavese em Poetris.

A Única Alegria Neste Mundo é a de Começar

A √ļnica alegria neste mundo √© a de come√ßar. √Č belo viver, porque viver √© come√ßar, sempre, a cada instante. Quando esta sensa√ß√£o desapaece – pris√£o, doen√ßa, h√°bito, estupidez – deseja-se morrer.
√Č por isso que quando uma situa√ß√£o dolorosa se reproduz de modo id√™ntico – parece id√™ntica – nada apaga o horror que tal coisa nos provoca.
O princ√≠pio acima enunciado n√£o √©, portanto, pr√≥prio de um viveur. Porque h√° mais h√°bito na experi√™ncia a todo o custo (cfr, o antip√°tico ¬ęviajar a todo o custo¬Ľ) do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e intelig√™ncia. Estou convencido de que h√° mais h√°bito nas aventuras de do que num bom casamento.
Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimónio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.
Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura.
A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo.

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Dar Significado ao Tempo

Um dos prazeres humanos menos observados √© o de preparar acontecimentos √† dist√Ęncia, de organizar um grupo de acontecimentos que tenham uma constru√ß√£o, uma l√≥gica, um come√ßo e um fim. Este √© quase sempre apercebido como um acme sentimental, uma alegre ou lisonjeira crise de conhecimento de si pr√≥prio. Isto aplica-se tanto √† constru√ß√£o de uma resposta pronta como √† de uma vida. E o que √© isto, sen√£o a premissa da arte de narrar? A arte narrativa apazigua precisamente esse gosto profundo.
O prazer de narrar e de escutar √© o de ver os factos serem dispostos segundo aquele gr√°fico. A meio de uma narrativa volta-se √†s premissas e tem-se o prazer de encontrar raz√Ķes, chaves, motiva√ß√Ķes causais. Que outra coisa fazemos quando pensamos no nosso pr√≥prio passado e nos comprazemos em reconhecer os sinais do presente ou do futuro? Esta constru√ß√£o d√°, em subst√Ęncia, um significado ao tempo. E o narrar √©, em suma, apenas um meio de o transformar em mito, de lhe fugir.

Os Pr√°ticos e os Contemplativos

T√™m sentido de humor os que t√™m sentido pr√°tico. Quem descuida a vida, embevecido numa ing√©nua contempla√ß√£o (e todas as contempla√ß√Ķes s√£o ing√©nuas), n√£o v√™ as coisas com desprendimento, dotadas de livre, complexo e contrastante movimento, que forma a ess√™ncia da sua comicidade. O t√≠pico da contempla√ß√£o √©, pelo contr√°rio, determo-nos no sentimento difuso e vivaz que surge em n√≥s ao contacto com as coisas. √Č aqui que reside a desculpa dos contemplativos: vivem em contacto com as coisas e, necessariamente, n√£o lhes sentem as singularidades e caracter√≠sticas; sentem-nas, pura e simplesmente.
Os práticos Рparadoxo Рvivem distantes das coisas, não as sentem, mas compreendem o mecanismo que as faz funcionar. E só ri de uma coisa quem está distante dela. Aqui está, implícita, uma tragédia: habituamo-nos a uma coisa afastando-nos dela, quer dizer, perdendo o interesse. Daqui, a corrida afanosa.
Naturalmente, de um modo geral, ninguém é contemplativo ou prático de forma total, mas, como nem tudo pode ser vivido, resta sempre, mesmo aos mais experimentados, o sentimento de qualquer coisa.

A Nossa Arte

A arte de desenvolver os pequenos motivos para nos decidirmos a realizar as grandes ac√ß√Ķes que nos s√£o necess√°rias. A arte de nunca nos deixarmos desencorajar pelas reac√ß√Ķes dos outros, recordando que o valor de um sentimento √© ju√≠zo nosso, pois seremos n√≥s a senti-lo e n√£o os que assistem. A arte de mentir a n√≥s pr√≥prios, sabendo que estamos a mentir. A arte de encarar as pessoas de frente, incluindo n√≥s pr√≥prios, como se fossem personagens de uma novela nossa. A arte de recordar sempre que, n√£o tendo n√≥s qualquer import√Ęncia e n√£o tendo tamb√©m os outros qualquer esp√©cie de import√Ęncia, n√≥s temos mais import√Ęncia que qualquer outro, simplesmente porque somos n√≥s.
A arte de considerar a mulher como um peda√ßo de p√£o: problema de ast√ļcia. A arte de mergulhar fulminante e profundamente na dor, para vir novamente √† tona gra√ßas a um golpe de rins. A arte de nos substituirmos a qualquer um, e de saber, portanto, que cada pessoa se interessa apenas por si pr√≥pria. A arte de atribuir qualquer dos nossos gestos a outrem, para verificarmos imediatamente se √© sensato.
A arte de viver sem a arte.
A arte de estar só.

A Imaginação Humana é Imensamente Mais Pobre que a Realidade

A imagina√ß√£o humana √© imensamente mais pobre que a realidade. Se pensamos no futuro, vemo-lo sempre desenvolver-se segundo um sistema mon√≥tono. N√£o pensamos que o passado √© um multicolor caos de gera√ß√Ķes. Isto pode tamb√©m servir para nos consolar dos terrores causados pela ¬ębarb√°rie t√©cnica e totalit√°ria¬Ľ do futuro. Nos cem anos mais pr√≥ximos poder√° produzir-se uma sequ√™ncia de, pelo menos, tr√™s momentos, e o esp√≠rito humano poder√°, sucessivamente, viver na rua, na pris√£o e nos jornais.
O mesmo se pode dizer do futuro pessoal.

O Erro de Desconhecer o Passado

Uma obra n√£o resolve nada, assim como o trabalho de uma gera√ß√£o inteira n√£o resolve nada. Os filhos – o amanh√£ – recome√ßam sempre e ignoram alegremente os pais, o j√° feito. √Č mais aceit√°vel o √≥dio, a revolta contra o passado do que esta beata ignor√Ęncia. O que havia de bom nas √©pocas antigas era a sua constitui√ß√£o gra√ßas √† qual se olhava sempre para o passado. Este o segredo da sua inesgot√°vel plenitude. Porque a riqueza de uma obra – de uma gera√ß√£o – √© sempre determinada pela quantidade de passado que cont√©m.

Agimos Sempre no Sentido do Destino

No fundo, a sabedoria do destino √© a nossa pr√≥pria. Porque a acompanhamos com uma consci√™ncia incessante daquilo que, no fundo, nos √© permitido fazer. Podemos estar sujeitos a algumas tenta√ß√Ķes mas nunca nos enganamos. Agimos sempre no sentido do destino. As duas coisas formam uma s√≥.
Quem se engana é porque ainda não compreende o seu destino. Quer dizer, não compreende qual a resultante de todo o seu passado Рo qual lhe indica o futuro. Mas quer o compreenda ou não, indica-lho à mesma. Cada vida é aquilo que devia ser.