Textos sobre Cara de Franz Kafka

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Textos de cara de Franz Kafka. Leia este e outros textos de Franz Kafka em Poetris.

Viver Sozinho

A infelicidade do celibatário, pretensa ou verdadeira, é tão fácil de adivinhar pelo mundo que o rodeia que ele maldiz a decisão, pelo menos se ficou solteiro por causa dos prazeres que tem em segredo. Anda por aí com o casaco abotoado, as mãos nos bolsos do casaco, os braços flectidos, o chapéu bem enterrado para a cara, um sorriso falso, que se tornou natural nele, pretende esconder-lhe a boca como os óculos lhe escondem os olhos, as calças demasiado apertadas para parecerem bem nas pernas. Mas toda a gente sabe da sua situação, pode pormenorizar os sofrimentos. Uma brisa fria sopra sobre ele vinda de dentro e ele olha lá para dentro com a metade ainda mais triste da sua dupla cara. Muda-se incessantemente, mas com regularidade previsível, de um apartamento para outro. Quanto mais foge dos vivos, para quem, contudo, e é este o ponto mais cruel, ele tem de trabalhar como um escravo consciente, que não pode revelar a sua consciência, tanto menor é o espaço que consideram bastar-lhe. Enquanto é a morte que irá fazer tombar os outros, mesmo que tenham passado a vida num leito de doente, porque embora eles já há muito tivessem sucumbido por si próprios devido à sua fraqueza,

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Possuídos pelo Demónio

A inven√ß√£o do dem√≥nio. Se estamos possu√≠dos pelo dem√≥nio, n√£o pode ser s√≥ por um, porque ent√£o viver√≠amos, pelo menos na terra, em paz, como se fosse com Deus, em uni√£o, sem contradi√ß√Ķes, sem reflex√£o, sempre seguros do homem atr√°s de n√≥s. O seu rosto n√£o nos amedrontaria, porque, como seres diab√≥licos, ter√≠amos, mesmo que um pouco sens√≠veis √† vista, a esperteza suficiente de preferir sacrificar uma m√£o para lhe tapar a cara com ela. Se estiv√©ssemos possu√≠dos apenas por um dem√≥nio, um que tivesse uma vis√£o tranquila, calma, de toda a nossa natureza, e liberdade para dispor de n√≥s em qualquer momento, esse dem√≥nio teria tamb√©m poder suficiente para nos manter durante o √Ęmbito de uma vida humana muito acima do esp√≠rito de Deus em n√≥s, e mesmo para nos balan√ßar de um lado para o outro para que assim n√£o v√≠ssemos nenhum sinal dele e consequentemente n√£o f√īssemos perturbados por esse lado. S√≥ uma multid√£o de dem√≥nios pode ser respons√°vel pelas nossas desgra√ßas terrenas. Porque n√£o se matam eles uns aos outros at√© s√≥ ficar um, ou porque n√£o ficam subordinados a um grande dem√≥nio? Qualquer das duas hip√≥teses estaria de acordo com o princ√≠pio diab√≥lico de nos enganar tanto quanto poss√≠vel.

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Vida de Escritor

√Č f√°cil reconhecer em mim a concentra√ß√£o de todas as minhas for√ßas sobre a escrita. Quando se tornou claro no meu organismo que escrever era a direc√ß√£o mais produtiva que podia tomar o meu ser, tudo correu para esse lado e deixou-me vazio de todas as capacidades que se dirigiam para as alegrias do sexo, da comida, da bebida, da reflex√£o filos√≥fica e, acima de tudo, da m√ļsica. Eu atrofiava em todas estas direc√ß√Ķes. Isto era necess√°rio porque a totalidade das minhas for√ßas √© t√£o leve que s√≥ colectivamente √© que elas podiam semi-servir a finalidade da minha escrita. √Č claro que n√£o encontrei esta finalidade independentemente ou conscientemente, ela encontrou-se a si pr√≥pria e s√≥ o escrit√≥rio interfere com ela, e interfere completamente. De qualquer modo, eu n√£o me devia queixar pelo facto de n√£o conseguir ter uma namorada, de perceber exactamente tanto de amor como de m√ļsica e de ter de me resignar nos esfor√ßos mais superficiais de que posso lan√ßar m√£o, de na noite de fim de ano ter jantado escorcioneira e espinafres com um quarto de Ceres e de no domingo n√£o ter podido participar na leitura que Max fez dos seus trabalhos filos√≥ficos; a compensa√ß√£o de tudo isto √© clara como o dia.

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