O Espaço PĂșblico

VĂȘ-se que o espaço pĂșblico falta cruelmente em Portugal. Quando hĂĄ diĂĄlogo, nunca ou raramente ultrapassa as «opiniĂ”es» dos dois sujeitos bem personalizados (cara, nome, estatuto social) que se criticam mutuamente atravĂ©s das crĂłnicas nos jornais respectivos (ou no mesmo jornal).
O «debate» Ă© necessariamente «fulanizado», o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como uma mais-valia de sentido e de verdade no seu discurso. É uma espĂ©cie de argumento de autoridade invisĂ­vel que pesa na discussĂŁo: se Ă© X que o diz, com a sua inteligĂȘncia, a sua cultura, o seu prestĂ­gio (de economista, de sociĂłlogo, de catedrĂĄtico, etc.), entĂŁo as suas palavras enchem-se de uma força que nĂŁo teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos. Mais: a condição de legitimação de um discurso Ă© a sua passagem pelo plano do prestĂ­gio mediĂĄtico – que, longe de dissolver o sujeito, o reforça e o enquista numa imagem «em carne e osso», subjectivando-o como o melhor, o mais competente, o que realmente merece estar no palco do mundo.