Textos sobre Estado de Clarice Lispector

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Textos de estado de Clarice Lispector. Leia este e outros textos de Clarice Lispector em Poetris.

Daqui a Vinte e Cinco Anos

Perguntaram-me uma vez se eu saberia calcular o Brasil daqui a vinte e cinco anos. Nem daqui a vinte e cinco minutos, quanto mais vinte e cinco anos. Mas a impressão-desejo é a de que num futuro não muito remoto talvez compreendamos que os movimentos caóticos atuais já eram os primeiros passos afinando-se e orquestrando-se para uma situação económica mais digna de um homem, de uma mulher, de uma criança. E isso porque o povo já tem dado mostras de ter maior maturidade política do que a grande maioria dos políticos, e é quem um dia terminará liderando os líderes. Daqui a vinte e cinco anos o povo terá falado muito mais.
Mas se n√£o sei prever, posso pelo menos desejar. Posso intensamente desejar que o problema mais urgente se resolva: o da fome. Muit√≠ssimo mais depressa, por√©m, do que em vinte e cinco anos, porque n√£o h√° mais tempo de esperar: milhares de homens, mulheres e crian√ßas s√£o verdadeiros moribundos ambulantes que tecnicamente deviam estar internados em hospitais para subnutridos. Tal √© a mis√©ria, que se justificaria ser decretado estado de prontid√£o, como diante de calamidade p√ļblica. S√≥ que √© pior: a fome √© a nossa endemia, j√° est√° fazendo parte org√Ęnica do corpo e da alma.

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O Casal Comum

Depois da √©poca de palavras de amor, de palavras de raiva, de palavras, as rela√ß√Ķes entre os dois tornaram-se aos poucos imposs√≠veis de resultar numa frase ou numa realidade clara. √Ä medida que estavam casados h√° tanto tempo, as diverg√™ncias, as desconfian√ßas, certa rivalidade jamais chegavam √† tona, embora elas existissem entre eles como o plano dentro do qual se entendiam. Esse estado quase impedia uma ofensa e uma defesa, e jamais uma explica√ß√£o. Formavam o que se chama um casal comum.

Mais do que Amor

O amor veio afirmar todas as coisas velhas de cuja exist√™ncia apenas sabia sem nunca ter aceito e sentido. O mundo rodava sob seus p√©s, havia dois sexos entre os humanos, um tra√ßo ligava a fome √† saciedade, o amor dos animais, as √°guas das chuvas encaminhavam-se para o mar, crian√ßas eram seres a crescer, na terra o broto se tornaria planta. N√£o poderia mais negar… o qu√™? ‚ÄĒ perguntava-se suspensa. O centro luminoso das coisas, a afirma√ß√£o dormindo em baixo de tudo, a harmonia existente sob o que n√£o entendia.

Erguia-se para uma nova manh√£, docemente viva. E sua felicidade era pura como o reflexo do sol na √°gua. Cada acontecimento vibrava em seu corpo como pequenas agulhas de cristal que se espeda√ßassem. Depois dos momentos curtos e profundos vivia com serenidade durante largo tempo, compreendendo, recebendo, resignando-se a tudo. Parecia-lhe fazer parte do verdadeiro mundo e estranhamente ter-se distanciado dos homens. Apesar de que nesse per√≠odo conseguia estender-lhes a m√£o com uma fraternidade de que eles sentiam a fonte viva. Falavam-lhe das pr√≥prias dores e ela, embora n√£o ouvisse, n√£o pensasse, n√£o falasse, tinha um olhar bom ‚ÄĒ brilhante e misterioso como o de uma mulher gr√°vida.

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Estado de Graça

Quem j√° conheceu o estado de gra√ßa reconhecer√° o que vou dizer. N√£o me refiro √† inspira√ß√£o, que √© uma gra√ßa especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte. O estado de gra√ßa de que falo n√£o √© usado para nada. √Č como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Nesse estado, al√©m da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, h√° uma lucidez que s√≥ chamo de leve porque na gra√ßa tudo √© t√£o, t√£o leve. E uma lucidez de quem n√£o adivinha mais: sem esfor√ßo, sabe. Apenas isto: sabe. N√£o perguntem o qu√™, porque s√≥ posso responder do mesmo modo infantil: sem esfor√ßo, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de gra√ßa v√™-se √†s vezes a profunda beleza, antes inating√≠vel, de outra pessoa. Tudo, ali√°s, ganha uma esp√©cie de nimbo que n√£o √© imagin√°rio: vem do esplendor da irradia√ß√£o quase matem√°tica das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe ‚ÄĒ pessoa ou coisa ‚ÄĒ respira e exala uma esp√©cie de fin√≠ssimo resplendor de energia.

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Estado Agudo de Felicidade

Com duas pessoas eu j√° entrei em comunica√ß√£o t√£o forte que deixei de existir, sendo. Como explicar? Olh√°vamo-nos nos olhos e n√£o diz√≠amos nada, e eu era a outra pessoa e a outra pessoa era eu. √Č t√£o dif√≠cil falar, √© t√£o dif√≠cil dizer coisas que n√£o podem ser ditas, √© t√£o silencioso. Como traduzir o profundo sil√™ncio do encontro entre duas almas? E dific√≠limo contar: n√≥s est√°vamos nos olhando fixamente, e assim ficamos por uns instantes. √Čramos um s√≥ ser. Esses momentos s√£o o meu segredo. Houve o que se chama de comunh√£o perfeita. Eu chamo isso de: estado agudo de felicidade. Estou terrivelmente l√ļcida e parece que estou atingindo um plano mais alto de humanidade. Foram os momentos mais altos que jamais tive.

Liberdade e Eternidade

A liberdade que √†s vezes sentia n√£o vinha de reflex√Ķes n√≠tidas, mas de um estado como feito de percep√ß√Ķes por demais org√Ęnicas para serem formuladas em pensamentos. √Äs vezes no fundo da sensa√ß√£o tremulava uma ideia que lhe dava leve consci√™ncia de sua esp√©cie e de sua cor.

O estado para onde deslizava quando murmurava: eternidade. O pr√≥prio pensamento adquiria uma qualidade de eternidade. Aprofundava-se magicamente e alargava-se, sem propriamente um conte√ļdo e uma forma, mas sem dimens√Ķes tamb√©m. A impress√£o de que se conseguisse manter-se na sensa√ß√£o por mais uns instantes teria uma revela√ß√£o ‚ÄĒ facilmente, como enxergar o resto do mundo apenas inclinando-se da terra para o espa√ßo. Eternidade n√£o era s√≥ o tempo, mas algo como a certeza enraizadamente profunda de n√£o poder cont√™-lo no corpo por causa da morte; a impossibilidade de ultrapassar a eternidade era eternidade; e tamb√©m era eterno um sentimento em pureza absoluta, quase abstracto. Sobretudo dava ideia de eternidade a impossibilidade de saber quantos seres humanos se sucederiam ap√≥s seu corpo, que um dia estaria distante do presente com a velocidade de um b√≥lido.

Definia eternidade e as explica√ß√Ķes nasciam fatais como as pancadas do cora√ß√£o. Delas n√£o mudaria um termo sequer,

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