Textos sobre Miser√°veis de Arthur Schopenhauer

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Textos de miser√°veis de Arthur Schopenhauer. Leia este e outros textos de Arthur Schopenhauer em Poetris.

Abster-se e Suportar

Limitar os nossos desejos, refrear a nossa cobi√ßa, domar a nossa c√≥lera, tendo sempre em mente que s√≥ podemos alcan√ßar uma parte infinitamente pequena das coisas desej√°veis, enquanto males m√ļltiplos nos v√£o ferindo; em suma: abster-se e suportar (Epticteto), √© uma regra que, caso n√£o seja observada, nem riqueza nem poder podem impedir que nos sintamos miser√°veis. A esse prop√≥sito, diz Hor√°cio, nas Ep√≠stolas:

Em todos os teus actos, lê e pergunta aos doutos
Procurando assim conduzir serenamente a tua vida;
Que não sejas atormentado pela cobiça sempre insaciável,
Nem pelo temor e pela esperança de bens de pouca utilidade.

Boa e M√° Literatura

O que acontece na literatura n√£o √© diferente do que acontece na vida: para onde quer que se volte, depara-se imediatamente com a incorrig√≠vel plebe da humanidade, que se encontra por toda a parte em legi√Ķes, preenchendo todos os espa√ßos e sujando tudo, como as moscas no ver√£o.
Eis a raz√£o do n√ļmero incalcul√°vel de livros maus, essa erva daninha da literatura que tudo invade, que tira o alimento do trigo e o sufoca. De facto, eles arrancam tempo, dinheiro e aten√ß√£o do p√ļblico – coisas que, por direito, pertencem aos bons livros e aos seus nobres fins – e s√£o escritos com a √ļnica inten√ß√£o de proporcionar algum lucro ou emprego. Portanto, n√£o s√£o apenas in√ļteis, mas tamb√©m positivamente prejudiciais. Nove d√©cimos de toda a nossa literatura actual n√£o possui outro objectivo sen√£o o de extrair alguns t√°leres do bolso do p√ļblico: para isso, autores, editores e recenseadores conjuraram firmemente.
Um golpe astuto e maldoso, porém notável, é o que teve êxito junto aos literatos, aos escrevinhadores que buscam o pão de cada dia e aos polígrafos de pouca conta, contra o bom gosto e a verdadeira educação da época, uma vez que eles conseguiram dominar todo o mundo elegante,

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Glória é Vaidade

A gl√≥ria repousa propriamente sobre aquilo que algu√©m √© em compara√ß√£o com os outros. Portanto, ela √© essencialmente relativa; por isso, s√≥ pode ter valor relativo. Desapareceria inteiramente se os outros se tornassem o que o glorioso √©. Uma coisa s√≥ pode ter valor absoluto se o mantiver sob todas as circunst√Ęncias; aqui, contudo, trata-se daquilo que algu√©m √© imediatamente e por si mesmo. Consequentemente, √© nisso que tem de residir o valor e a felicidade do grande cora√ß√£o e do grande esp√≠rito. Logo, valiosa n√£o √© a gl√≥ria, mas aquilo que faz com que algu√©m a mere√ßa, pois isso, por assim dizer, √© a subst√Ęncia, e a gl√≥ria √© apenas o acidente. Ela age sobre quem √© c√©lebre, sobretudo como um sintoma exterior pelo qual ele adquire a confirma√ß√£o da opini√£o elevada de si mesmo. Desse modo, poder-se-ia dizer que, assim como a luz n√£o √© vis√≠vel se n√£o for reflectida por um corpo, toda a excel√™ncia s√≥ adquire total consci√™ncia de si pr√≥pria pela gl√≥ria. Mas o sintoma n√£o √© sempre infal√≠vel, visto que tamb√©m h√° gl√≥ria sem m√©rito e m√©rito sem gl√≥ria. Eis a justificativa para a frase t√£o distinta de Lessing: Algumas pessoas s√£o famosas, outras merecem s√™-lo.

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Quem n√£o Ama a Solid√£o, n√£o Ama a Liberdade

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.
Assim como o nosso corpo est√° envolto em vestes, o nosso esp√≠rito est√° revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas ac√ß√Ķes, todo o nosso ser √© mentiroso, e s√≥ por meio desse inv√≥lucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.

Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomoda√ß√£o m√ļtua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha ser√°. Cada um s√≥ pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, n√£o ama a solid√£o, tamb√©m n√£o ama a liberdade: apenas quando se est√° s√≥ √© que se est√° livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade.

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Instinto de Sociabilidade

O instinto de sociabilidade de cada um est√° na propor√ß√£o inversa da sua idade. A criancinha solta gritos de medo e de dor, lamentando ter sido deixada sozinha por alguns minutos. Para jovens rapazes, estar sozinho √© uma grande penit√™ncia. Os adolescentes reunem-se com facilidade: s√≥ os mais nobres e mais dotados de esp√≠rito j√° procuram, √†s vezes, a solid√£o. Contudo, passar um dia inteiro sozinhos ainda lhes √© penoso. Para o homem adulto, todavia, isso √© f√°cil: ele consegue passar bastante tempo sozinho, e tanto mais quanto mais avan√ßa nos anos. O anci√£o, √ļnico sobrevivente de gera√ß√Ķes desaparecidas, encontra na solid√£o o seu elemento pr√≥prio, em parte porque j√° ultrapassou a idade de sentir os prazeres da vida, em parte porque j√° est√° morto para eles. Entretanto, em cada indiv√≠duo, o aumento da inclina√ß√£o para o isolamento e a solid√£o ocorrer√° em conformidade com o seu valor intelectual.
Pois tal tend√™ncia, como dito, n√£o √© puramente natural, produzida directamente pela necessidade, mas, antes, s√≥ um efeito da experi√™ncia vivida e da reflex√£o sobre ela, sobretudo da intelec√ß√£o adquirida a respeito da miser√°vel √≠ndole moral e intelectual da maioria dos homens. O que h√° de pior nesse caso √© o facto de as imperfei√ß√Ķes morais e intelectuais do indiv√≠duo conspirarem entre si e trabalharem de m√£os dadas,

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Os Livros Representam a Essência de um Espírito

As obras s√£o a quintess√™ncia de um esp√≠rito: por conseguinte, mesmo se este for o esp√≠rito mais sublime, elas sempre ser√£o, sem compara√ß√£o, mais ricas de cont√ļdo do que a sua companhia, e a substituir√£o tamb√©m na ess√™ncia – ou melhor, ultrapass√°-la-√£o em muito e a deixar√£o para tr√°s: At√© mesmo os escritos de uma cabe√ßa med√≠ocre podem ser instrutivos, dignos de leitura e divertidos, justamente porque s√£o sua quintess√™ncia, o resultado, o fruto de todo o seu pensamento e estudo; enquanto a sua companhia n√£o nos consegue satisfazer. Sendo assim, podem-se ler livros de pessoas em cujas companhias n√£o se encontraria nenhum prazer, e √© por essa raz√£o que uma cultura intelectual elevada nos induz pouco a pouco a encontrar o nosso prazer quase exclusivamente na leitura dos livros, e n√£o na conversa com as pessoas.
Não há maior refrigério para o espírito do que a leitura dos clássicos antigos: tão logo temos um deles nas mãos, e mesmo que seja por apenas meia hora, sentimo-nos imdediatamente refrescados, aliviados, purificados, elevados e fortalecidos; como se nos tivéssemos deleitado na fonte fresca de uma rocha. Tal facto depende das línguas antigas e da sua perfeição ou da grandeza dos espíritos,

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