Textos sobre Tempo de Friedrich Nietzsche

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Textos de tempo de Friedrich Nietzsche. Leia este e outros textos de Friedrich Nietzsche em Poetris.

O Efeito da Verdadeira Maturidade

A altern√Ęncia de amor e √≥dio caracteriza, durante muito tempo, a condi√ß√£o √≠ntima de uma pessoa que quer ser livre no seu ju√≠zo acerca da vida; ela n√£o esquece e guarda rancor √†s coisas por tudo, pelo bom e pelo mau. Por fim, quando, √† for√ßa de anotar as suas experi√™ncias, todo o quadro da sua alma estiver completamente escrito, j√° n√£o desprezar√° nem odiar√° a exist√™ncia, mas t√£o-pouco a amar√°, antes permanecer√° por cima dela, ora com o olhar da alegria, ora com o da tristeza, e, tal como a Natureza, a sua disposi√ß√£o ora ser√° estival, ora outunal.
(…) Quem quiser seriamente ser livre perder√° de mais a mais, sem qualquer constrangimento, a propens√£o para os erros e v√≠cios; tamb√©m a irrita√ß√£o e o aborrecimento o acometer√£o cada vez mais raramente. √Č que a sua vontade n√£o quer nada mais instantaneamente do que conhecer e o meio para tanto, ou seja, a condi√ß√£o permanente em que ele est√° mais apto para o conhecimento.

Conhecimento sem Paixão seria Castrar a Inteligência

Como investigadores do conhecimento, n√£o sejamos ingratos com os que mudaram por completo os pontos de vista do esp√≠rito humano; na apar√™ncia foi uma revolu√ß√£o in√ļtil, sacr√≠lega; mas j√° de si o querer ver de modo diverso dos outros, n√£o √© pouca disciplina e prepara√ß√£o do entendimento para a sua futura ¬ęobjectividade¬Ľ, entendendo por esta palavra n√£o a ¬ęcontempla√ß√£o desinteressada¬Ľ, que √© um absurdo, sen√£o a faculdade de dominar o pr√≥ e o contra, servindo-se de um e de outro para a interpreta√ß√£o dos fen√≥menos e das paix√Ķes. Acautelemo-nos pois, oh senhores fil√≥sofos!
Desta confabula√ß√£o das ideias antigas acerca de um ¬ęassunto do conheciemnto puro, sem vontade, sem dor, sem tempo¬Ľ, defendamo-nos das mo√ß√Ķes contradit√≥rias ¬ęraz√£o pura¬Ľ, ¬ęespiritualidade absoluta¬Ľ, ¬ęconhecimento subsistente¬Ľ que seria um ver subsistente em si pr√≥prio e sem √≥rg√£o visual, ou um olho sem direc√ß√£o, sem faculdades activas e interpretativas? Pois o mesmo sucede com o conhecimento: uma vista, e se √© dirigida pela vontade, veremos melhor, teremos mais olhos, ser√° mais completa a nossa ¬ęobjectividade¬Ľ. Mas eliminar a vontade, suprimir inteiramente as paix√Ķes – supondo que isso fosse poss√≠vel – seria castrar a intelig√™ncia.

A Genética Condiciona a Felicidade

Uma era de felicidade simplesmente n√£o √© poss√≠vel porque as pessoas querem apenas desej√°-la, mas n√£o possu√≠-la, e cada indiv√≠duo aprende durante os seus bons tempos a de facto rezar por inquieta√ß√Ķes e desconforto. O destino do homem est√° projetado para momentos felizes ‚ÄĒ toda a vida os t√™m ‚ÄĒ, mas n√£o para eras felizes. Estas, por√©m, permanecer√£o fixadas na imagina√ß√£o humana como “o que est√° al√©m das montanhas”, como um legado de nossos ancestrais: pois o conceito de uma era de felicidade foi sem d√ļvida adquirido nos tempos primordiais, a partir da condi√ß√£o em que, depois de um esfor√ßo violento na ca√ßa e na guerra, o homem se entrega ao repouso, estica os membros e sente as asas do sono ro√ßando a sua pele. Ser√° uma falsa conclus√£o se, na trilha dessa remota e familiar experi√™ncia, o homem imaginar que, ap√≥s eras inteiras de labor e inquieta√ß√£o, ele poder√° usufruir, de modo correspondente, daquela condi√ß√£o de felicidade intensa e prolongada.

O Bom Senso como Suporte da Humanidade

Se n√£o tivesse havido em todos os tempos uma maioria de homens para fazer depender o seu orgulho, o seu dever, a sua virtude da disciplina do seu esp√≠rito, da sua ¬ęraz√£o¬Ľ, dos amigos do ¬ębom senso¬Ľ, para se sentirem feridos e humilhados pela menor fantasia, o menor excesso da imagina√ß√£o, a humanidade j√° teria naufragado h√° muito tempo.
A loucura, o seu pior perigo, n√£o deixou nunca, com efeito, de planar por cima dela, a loucura prestes a estalar… quer dizer a irrup√ß√£o da lei do bom prazer em mat√©ria de sentimento de sensa√ß√Ķes visuais ou auditivas, o direito de gozar com o jorro do esp√≠rito e de considerar como um prazer a irris√£o humana. N√£o s√£o a verdade, a certeza que est√£o nos ant√≠podas do mundo dos insensatos; √© a cren√ßa obrigat√≥ria e geral, √© a exclus√£o do bom prazer no ajuizar. O maior trabalho dos homens foi at√© agora concordar sobre uma quantidade de coisas, e fazer uma lei desse acordo,… quer essas coisas fossem verdadeiras ou falsas. Foi a disciplina do esp√≠rito que preservou a humanidade,… mas os instintos que a combatem s√£o ainda t√£o poderosos que em suma s√≥ se pode falar com pouca confian√ßa no futuro da humanidade.

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Prejudicar com o que se tem de Melhor

As nossas forças levam-nos por vezes tão longe que não podemos continuar a suportar as nossas fraquezas e disso perecemos: bem nos sucede prever esse resultado, mas não lhe podemos introduzir nenhuma modificação. Usamos então a dureza contra o que seria necessário poupar em nós memos, e a nossa grandeza faz a nossa barbárie.
Esta experi√™ncia, que acabamos por pagar com a vida, simboliza a ac√ß√£o dos grandes homens nos outros e no seu tempo: √© com aquilo que t√™m de melhor, com aquilo que s√£o os √ļnicos a poder fazer, que arruinam grande n√ļmero de seres fracos, incertos, sem vontade pr√≥pria, ainda em mudan√ßa, √© com aquilo que t√™m de melhor em si pr√≥prios que se tornam nocivos. Pode at√© acontecer que s√≥ prejudiquem porque aquilo que h√° de melhor nele s√≥ pode ser absorvido, esvaziado de um trago, de qualquer maneira, por seres que ali afogam a sua raz√£o e a sua individualidade, como se fosse num licor excessivamente forte: est√£o de tal modo embriagados que n√£o poder√£o deixar de partir os membros em todos os caminhos em que a sua embriaguez os fulminar√°.

A Gravidade e a Seriedade nem Sempre andam Juntas

Tomar a verdade a s√©rio! De quantas maneiras diferentes n√£o entendem os homens esta frase! S√£o as mesmas opini√Ķes, as mesmas formas de exame e de demonstra√ß√£o que um pensador considera com uma ligeireza quando as aplica por si pr√≥prio – sucumbiu-lhes para sua vergonha, neste ou naquele momento da sua vida -, s√£o essas mesmas opini√Ķes, esses mesmos m√©todos que podem dar a um artista, quando com eles se choca e com eles vive algum tempo, a consci√™ncia de ter sido dominado pela profunda gravidade da verdade, de ter mostrado – coisa espantosa -, ainda que artista, a mais s√©ria necessidade do contr√°rio da apar√™ncia.
√Č assim que acontece que uma pomposa gravidade revele precisamente a aus√™ncia de seriedade com que um esp√≠rito que se contenta com pouco se tenha debatido at√© ent√£o no dom√≠nio do conhecimento… N√£o somos n√≥s sempre tra√≠dos por aquilo que consideramos importante? A nossa gravidade mostra onde se encontram os nossos pesos e os casos em que temos falta deles.

A Necessidade do Mal

Examinai a vida dos homens e dos povos melhores e mais fecundos, e perguntai se uma √°rvore que deve elevar-se altivamente nos ares pode dispensar o mau tempo e as tempestades; se a hostilidade do exterior, as resist√™ncias exteriores, todas as esp√©cies de √≥dio de inveja, de teimosia, de desconfian√ßa, de dureza, de avidez e de viol√™ncia n√£o fazem parte das circunst√Ęncias favor√°veis sem as quais nada, nem sequer a virtude, poderia crescer grandemente? O veneno que mata as naturezas fracas √© um fortificante para as fortes; … e por isso n√£o lhe chamam veneno.

Ciência Redutora da Vida

Proclama-se com um ar de triunfo que ¬ęa ci√™ncia come√ßa a dominar a vida¬Ľ. Pode ser que chegue a isso, mas √© certo que a vida assim dominada n√£o tem mais grande valor, porque √© muito menos uma vida, e garante para o futuro muito menos vida que essa mesma vida fazia em outros tempos, dominada n√£o pela ci√™ncia, mas pelos instintos e por algumas grandes ilus√Ķes.

A Doutrina do Objectivo da Vida

Quer considere os homens com bondade ou malevol√™ncia, encontro-os sempre, a todos e a cada um em particular, empenhados na mesma tarefa: tornar-se √ļteis √† conserva√ß√£o da esp√©cie. E isto n√£o por amor a essa esp√©cie, mas simplesmente porque n√£o h√° neles nada mais antigo, mais poderoso, mais impiedoso e mais invenc√≠vel do que esse instinto… porque esse instinto √© propriamente a ess√™ncia da nossa esp√©cie, do nosso rebanho.

Se bem que se chegue assaz rapidamente, com a miopia ordin√°ria, a separar a cinco passos os nossos semelhantes em √ļteis e em prejudiciais, em seres bons e maus, quando fazemos o nosso balan√ßo final e reflectimos sobre o conjunto acabamos por desconfiar destas depura√ß√Ķes, destas distin√ß√Ķes, e acabamos por renunciar a elas.

Talvez o homem mais prejudicial seja ainda, no fim de contas, o mais √ļtil √† conserva√ß√£o da esp√©cie; porque sustenta em si mesmo, ou nos outros, com a sua ac√ß√£o, instintos sem os quais a humanidade estaria h√° muito tempo mole e corrompida. O √≥dio, o prazer de prejudicar, a sede de tomar e de dominar, e, de uma maneira geral, tudo aquilo a que se d√° o nome de mal, n√£o passam no fundo de um dos elementos da espantosa economia da conserva√ß√£o da esp√©cie;

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A Cautela dos Espíritos Livres

Os homens de esp√≠rito livre, que vivem s√≥ para o conhecimento, em breve achar√£o ter alcan√ßado a sua definitiva posi√ß√£o relativamente √† sociedade e ao Estado e, por exemplo, dar-se-√£o de bom grado por satisfeitos com um pequeno emprego ou com uma fortuna que chega √† justa para viver; pois arranjar-se-√£o para viver de maneira que uma grande transforma√ß√£o dos bens materiais, at√© mesmo um derrube da ordem pol√≠tica, n√£o deite tamb√©m abaixo a sua vida. Em todas essas coisas eles gastam a menor energia poss√≠vel, de modo a poderem imergir, com todas as for√ßas reunidas e, por assim dizer, com um grande f√īlego, no elemento do conhecimento. Podem, assim, ter esperan√ßa de mergulhar profundamente e tamb√©m de, talvez, verem bem at√© ao fundo.
De um dado acontecimento, um tal esp√≠rito pegar√° de bom grado s√≥ numa ponta: ele n√£o gosta das coisas em toda a sua amplitude e superabund√Ęncia das suas pregas, pois n√£o se quer emaranhar nelas. Tamb√©m ele conhece os dias de semana da falta de liberdade, da depend√™ncia, da servid√£o. Mas, de tempos a tempos, tem de lhe aparecer um domingo de liberdade, sen√£o ele n√£o suportar√° a vida. √Č prov√°vel que mesmo o seu amor pelos seres humanos seja cauteloso e com pouco f√īlego,

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Retrocesso Civilizacional

S√£o talvez as prioridades dos nossos tempos que acarretam um retrocesso e uma eventual deprecia√ß√£o da vida contemplativa. Mas h√° que confessar que a nossa √©poca √© pobre em grandes moralistas, que Pascal, Epicteto, S√©neca, Plutarco pouco s√£o lidos ainda, que o trabalho e o esfor√ßo – outrora, no s√©quito da grande deusa Sa√ļde – parecem, por vezes, grassar como uma doen√ßa. Porque faltam tempo para pensar e sossego no pensar, j√° n√£o se examina as opini√Ķes diferentes: a gente contenta-se em odi√°-las. Dada a enorme acelera√ß√£o da vida, o esp√≠rito e o olhar s√£o acostumados a ver e a julgar parcial ou erradamente, e toda a gente se assemelha aos viajantes que ficam a conhecer um pa√≠s e um povo, vendo-os do caminho-de-ferro.
Uma atitude independente e cautelosa em mat√©ria de conhecimento √© menosprezada quase como uma esp√©cie de tolice, o esp√≠rito livre √© difamado, nomeadamente, por eruditos que, na sua arte de observar as coisas, sentem a falta da min√ļcia e do zelo de formigas que lhes s√£o pr√≥prios, e bem gostariam de bani-lo para um canto isolado da ci√™ncia: quando ele tem a miss√£o, completamente diferente e superior, de comandar, a partir de uma posi√ß√£o solit√°ria,

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O Homem Cruel

Quando o rico ti¬≠ra um pertence ao pobre (por exemplo, um pr√≠ncipe que tira a amante ao plebeu), ent√£o gera-se um erro no pobre; este acha que aquele tem de ser absoluta¬≠mente infame, para lhe tirar o pouco que ele tem. Mas aquele n√£o sente de modo algum t√£o profunda¬≠mente o valor de um √ļnico pertence, porque est√° ha¬≠bituado a ter muitos: portanto, n√£o se pode trans¬≠por para o esp√≠rito do pobre e n√£o comete tal uma injusti√ßa t√£o grande como este julga. Ambos t√™m um do outro uma concep√ß√£o errada. A injusti√ßa do poderoso, a que mais indigna na Hist√≥ria, n√£o √© as¬≠sim t√£o grande como parece. O mero sentimento heredit√°rio de ser um ser superior, com direitos su¬≠periores, torna uma pessoa bastante fria e deixa-lhe a consci√™ncia tranquila: at√© todos n√≥s, se a dist√Ęncia entre n√≥s e um outro ente for muito grande, j√° n√£o sentimos absolutamente nada de injusto e matamos um mosquito, por exemplo, sem qualquer remorso.
Assim, não é sinal de maldade em Xerxes (a quem mesmo todos os Gregos descrevem como eminente­mente nobre) quando ele tira a um pai o seu filho e o manda esquartejar, porque este havia manifestado uma inquieta e ominosa desconfiança em relação a toda a expedição militar: neste caso,

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O Livre-Arbítrio não Existe

Contemplando uma cascata, acreditamos ver nas in√ļmeras ondula√ß√Ķes, serpenteares, quebras de ondas, liberdade da vontade e capricho; mas tudo √© necessidade, cada movimento pode ser calculado matem√°ticamente. O mesmo acontece com as ac√ß√Ķes humanas; poder-se-ia calcular antecipadamente cada ac√ß√£o, caso se fosse omnisciente, e, da mesma maneira, cada progresso do conhecimento, cada erro, cada maldade. O homem, agindo ele pr√≥prio, tem a ilus√£o, √© verdade, do livre-arb√≠trio; se por um instante a roda do mundo parasse e houvesse uma intelig√™ncia calculadora omnisciente para aproveitar essa pausa, ela poderia continuar a calcular o futuro de cada ser at√© aos tempos mais distantes e marcar cada rasto por onde essa roda a partir de ent√£o passaria. A ilus√£o sobre si mesmo do homem actuante, a convic√ß√£o do seu livre-arb√≠trio, pertence igualmente a esse mecanismo, que √© objecto de c√°lculo.

Aparentes Fazedores do Tempo na Política

Tal como o povo, perante quem seja entendido no tempo e o preveja com um dia de anteced√™ncia, admite tacitamente que ele faz o tempo, assim tamb√©m mesmo pessoas cultas e doutas, recorrendo a uma f√© supersticiosa, atribuem aos grandes estadistas todas as altera√ß√Ķes e conjunturas importantes que se deram durante o seu governo, como se estas fossem a sua obra mais pessoal, quando √© simplesmente vis√≠vel que aqueles souberam alguma coisa do assunto mais cedo do que outros e fizeram o seu c√°lculo em conformidade: portanto, s√£o tamb√©m tomados por fazedores do tempo… e essa cren√ßa n√£o √© o mais insignificante instrumento do seu poder.

A Consciência

A consci√™ncia √© a √ļltima fase da evolu√ß√£o do sistema org√Ęnico, por consequ√™ncia tamb√©m aquilo que h√° de menos acabado e de menos forte neste sistema. √Č do consciente que prov√©m uma multid√£o de enganos que fazem com que um animal, um homem, pere√ßam mais cedo do que seria necess√°rio, ¬ęa despeito do destino¬Ľ, como dizia Homero.
Se o la√ßo dos instintos, este la√ßo conservador, n√£o fosse de tal modo mais poderoso do que a consci√™ncia, se n√£o desempenhasse, no conjunto, um papel de regulador, a humanidade sucumbiria fatalmente sob o peso dos seus ju√≠zos absurdos, das suas divaga√ß√Ķes, da sua frivolidade, da sua credulidade, numa palavra do seu consciente: ou antes, h√° muito tempo que teria deixado de existir sem ele!
Enquanto uma fun√ß√£o n√£o est√° madura enquanto n√£o atingiu o seu desenvolvimento perfeito, √© perigosa para o organismo: √© uma grande sorte que ela seja bem tiranizada! A consci√™ncia √©-o severamente, e n√£o √© ao orgulho que o deve menos. Pensa-se que este orgulho forma o n√ļcleo do ser humano; que √© o seu elemento duradoiro, eterno, supremo, primordial! Considera-se que o consciente √© uma constante! Nega-se o seu crescimento, as suas intermit√™ncias! √Č considerado como ¬ęa unidade do organismo¬Ľ!

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O Defeito dos Homens Activos

Aos activos falta, habitualmente, a actividade superior: refiro-me √† individual. Eles s√£o activos enquanto funcion√°rios, comerciantes, eruditos, isto √©, como seres gen√©ricos, mas n√£o enquanto pessoas perfeitamente individualizadas e √ļnicas; neste aspecto, s√£o indolentes. A infelicidade das pessoas activas √© a sua actividade ser quase sempre um tanto absurda. N√£o se pode, por exemplo, perguntar ao banqueiro, que junta dinheiro, qual o objectivo da sua incans√°vel actividade: ela √© irracional. Os homens activos rebolam como rebola a pedra, em conformidade com a estupidez da mec√Ęnica. Todos os homens se dividem, como em todos os tempos tamb√©m ainda actualmente, em escravos e livres; pois quem n√£o tiver para si dois ter√ßos do seu dia √© um escravo, seja ele, de resto, o que quiser: pol√≠tico, comerciante, funcion√°rio, erudito.

H√°bitos Breves

Gosto dos h√°bitos que n√£o duram; s√£o de um valor inapreci√°vel se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que √© feita de breves h√°bitos, mesmo nas necessidades de sa√ļde f√≠sica, e, de uma maneira geral, t√£o longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente – porque o pr√≥prio h√°bito breve acredita na eternidade, nesta f√© da paix√£o; imagino que sou invej√°vel por ter descoberto tal objecto: devoro-o de manh√£ √† noite, e ele espalha em mim uma satisfa√ß√£o, cujas del√≠cias me penetram at√© √† medula dos ossos, n√£o posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar.
E depois um belo dia, a√≠ est√°: o h√°bito acabou o seu tempo; o objecto querido deixa-me ent√£o, n√£o sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos dev√™ssemos gratid√£o e estendemo-nos a m√£o para nos despedirmos. E j√° um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha f√© – a indestrut√≠vel louca… e s√°bia! – em que este novo objecto ser√° o bom,

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O Prazer no Costume

Uma importante varie¬≠dade do prazer e, com isso, fonte da moralidade, prov√©m do h√°bito. O usual faz-se mais facilmente, melhor, portanto, com mais agrado, sente-se nisso um prazer e sabe-se, por experi√™ncia, que o habitual deu bom resultado, da√≠ √© √ļtil; um costume, com o qual se pode viver, est√° provado que √© salutar, pro¬≠veitoso, ao contr√°rio de todas as tentativas novas, ainda n√£o comprovadas. O costume √©, por conse¬≠guinte, a uni√£o do agrad√°vel e do √ļtil; al√©m disso, n√£o exige reflex√£o. Assim que o homem pode exer¬≠cer coac√ß√£o, exerce-a para impor e introduzir os seus costumes, pois para ele, eles s√£o a comprovada sabedoria pr√°tica. De igual modo, uma comunidade de indiv√≠duos obriga cada um deles ao mesmo cos¬≠tume.
Aqui est√° a conclus√£o errada: porque uma pessoa se sente bem com um costume ou, pelo me¬≠nos, porque por interm√©dio do mesmo assegura a sua exist√™ncia, ent√£o esse costume √© necess√°rio, pois passa por ser a √ļnica possibilidade de uma pessoa se conseguir sentir bem; o agrado da vida parece emanar exclusivamente dele. Esta concep√ß√£o do habitual como uma condi√ß√£o da exist√™ncia √© aplica¬≠da at√© aos mais pequenos pormenores do costume: dado que o conhecimento da verdadeira causalidade √© muito escasso entre os povos e as civiliza√ß√Ķes que se encontram a um n√≠vel baixo,

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A Memória é o Maior Tormento do Homem

Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele vangloria-se da sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade Рpois o homem quer apenas isso, viver como animal, sem melancolia, sem dor; e o que quer entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não falas sobre a tua felicidade e apenas me observas?
O animal quer tamb√©m responder e falar, isso deve-se ao facto de que sempre se esquece do que queria dizer, mas tamb√©m j√° esqueceu esta resposta e silencia: de tal modo que o homem se admira disso. Todavia, o homem tamb√©m se admira de si mesmo por n√£o poder aprender a esquecer e por sempre se ver novamente preso ao que passou: por mais longe e r√°pido que ele corra, a corrente corre junto. √Č um milagre: o instante em um √°timo est√° a√≠,

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Os Sábios Célebres

Todos vós, os sábios célebres, nunca fostes mais do que os servidores do povo e da superstição popular, e não os servidores da verdade. E é precisamente por isso que vos têm honrado.
E por isso também foi tolerada a vossa incredulidade, porque parecia uma brincadeira, um rodeio engenhoso que vos levava ao povo. Assim o amo dá maior liberdade aos seus escravos e regozija-se até com a sua presunção.
Mas aquele que o povo odeia, com o ódio do lobo pelos cães, é o espírito livre, inimigo das algemas, aquele que não adora, aquele que habita as florestas.
Persegui-lo at√© ao seu esconderijo, √© aquilo a que o povo, sempre chamou ter o ¬ęsentido de justi√ßa¬Ľ; e ainda por cima d√£o ca√ßa ao solit√°rio com os seus ferozes mastins.
‘Porque a verdade est√° onde o povo est√°! Ai daqueles que a procuram!’ – √© isto o que ecoa atrav√©s dos tempos.
Quer√≠eis assentar na raz√£o a piedade tradicional do vosso povo e √© a isso que chamais ¬ęa vontade de verdade¬Ľ, √≥ s√°bios c√©lebres!
E o vosso cora√ß√£o insiste em dizer para si pr√≥prio: ‘Eu vim do povo, foi tamb√©m do povo que me veio a voz de Deus.’

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