Textos sobre Vida de Cesare Pavese

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Textos de vida de Cesare Pavese. Leia este e outros textos de Cesare Pavese em Poetris.

Os Pr√°ticos e os Contemplativos

T√™m sentido de humor os que t√™m sentido pr√°tico. Quem descuida a vida, embevecido numa ing√©nua contempla√ß√£o (e todas as contempla√ß√Ķes s√£o ing√©nuas), n√£o v√™ as coisas com desprendimento, dotadas de livre, complexo e contrastante movimento, que forma a ess√™ncia da sua comicidade. O t√≠pico da contempla√ß√£o √©, pelo contr√°rio, determo-nos no sentimento difuso e vivaz que surge em n√≥s ao contacto com as coisas. √Č aqui que reside a desculpa dos contemplativos: vivem em contacto com as coisas e, necessariamente, n√£o lhes sentem as singularidades e caracter√≠sticas; sentem-nas, pura e simplesmente.
Os práticos Рparadoxo Рvivem distantes das coisas, não as sentem, mas compreendem o mecanismo que as faz funcionar. E só ri de uma coisa quem está distante dela. Aqui está, implícita, uma tragédia: habituamo-nos a uma coisa afastando-nos dela, quer dizer, perdendo o interesse. Daqui, a corrida afanosa.
Naturalmente, de um modo geral, ninguém é contemplativo ou prático de forma total, mas, como nem tudo pode ser vivido, resta sempre, mesmo aos mais experimentados, o sentimento de qualquer coisa.

O Paradoxo da Sociedade totalmente Livre

A pessoa ou instituição que encarregamos de nos tornar felizes têm o direito de se queixarem se lhes recordarmos que, apesar de tudo, continuamos livres e senhores de recalcitrar. Tudo o que não conseguimos realizar sós, diminui a nossa liberdade. O doente nas mãos do médico é como a sociedade nas mãos do salvador Рherói ou partido.
Como? Encarregamo-nos de organizar a sociedade Рisto é, vós próprios, e depois, pretendeis continuar livres.
Precisamente porque não existe sociedade económica pura, toda a organização científica da economia contém em si a afirmação de uma mística Рquer dizer, um credo estatal que atinge também a vida interior, e, assim como o organizador deve eliminar toda a heterodoxia económica, terá igualmente de eliminar as heterodoxias interiores.
Uma sociedade inteiramente orientada do ponto de vista económico e totalmente livre espiritualmente é uma contradição.

Dar Significado ao Tempo

Um dos prazeres humanos menos observados √© o de preparar acontecimentos √† dist√Ęncia, de organizar um grupo de acontecimentos que tenham uma constru√ß√£o, uma l√≥gica, um come√ßo e um fim. Este √© quase sempre apercebido como um acme sentimental, uma alegre ou lisonjeira crise de conhecimento de si pr√≥prio. Isto aplica-se tanto √† constru√ß√£o de uma resposta pronta como √† de uma vida. E o que √© isto, sen√£o a premissa da arte de narrar? A arte narrativa apazigua precisamente esse gosto profundo.
O prazer de narrar e de escutar √© o de ver os factos serem dispostos segundo aquele gr√°fico. A meio de uma narrativa volta-se √†s premissas e tem-se o prazer de encontrar raz√Ķes, chaves, motiva√ß√Ķes causais. Que outra coisa fazemos quando pensamos no nosso pr√≥prio passado e nos comprazemos em reconhecer os sinais do presente ou do futuro? Esta constru√ß√£o d√°, em subst√Ęncia, um significado ao tempo. E o narrar √©, em suma, apenas um meio de o transformar em mito, de lhe fugir.

Maior Prazer Dar que Receber

Uma das leis cómicas da vida é a seguinte: é amado não quem dá, mas quem exige. Quer dizer, é amado aquele que não ama, porque quem ama dá. E compreende-se: dar é um prazer mais inesquecível do que receber; a pessoa a quem damos, torna-se-nos necessária, quer dizer que a amamos.
Dar é uma paixão, quase um vício. A pessoa a quem damos, torna-se-nos necessária.

A Arte de Viver

A arte de viver Рdado que para viver é preciso fazer sofrer os outros (ver vida sexual, ver comércio, ver qualquer actividade) Рconsiste em habituarmo-nos a fazer todas as patifarias sem abalar o nosso equilíbrio interior. Ser capaz de todas as patifarias é a melhor bagagem que um homem pode possuir.

A Desventura Máxima é a Solidão

A desventura m√°xima √© a solid√£o. √Č t√£o verdade que o reconforto supremo – a religi√£o – consiste em encontrar uma companhia que nunca falhe – Deus. A ora√ß√£o √© um desabafo, como com um amigo. A obra equivale √† ora√ß√£o, porque nos p√Ķe em contacto com os que dela tirar√£o proveito. O problema da vida √©, portanto, o seguinte: como romper a nossa solid√£o, como comunicar com os outros. Assim se explica a exist√™ncia do matrim√≥nio, da paternidade, das amizades. Mas que a felicidade resida nisto, balelas! Porque se deva estar melhor comunicando com os outros do que s√≥, √© estranho. √Č talvez apenas uma ilus√£o: a maior parte do tempo, estamos muit√≠ssimo bem s√≥s. √Č agrad√°vel ter, de tempos a tempos, um odre em que nos possamos despejar e, em seguida, bebermo-nos a n√≥s pr√≥prios: dado que pedimos aos outros apenas aquilo que j√° temos em n√≥s. √Č um mist√©rio o motivo por que n√£o basta perscrutar e beber em n√≥s pr√≥prios e seja preciso reavermo-nos por interm√©dio dos outros. (O sexo √© um incidente: o que recebemos √© moment√Ęneo e casual; pretendemos algo de mais secreto e misterioso de que o sexo √© apenas um sinal, um s√≠mbolo).

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Desarmar e Esgotar o Sofrimento

A literatura √© uma defesa contra as ofensas da vida. A primeira diz √† segunda: ¬ęN√£o me levas √† certa; sei como te comportas, sigo-te e prevejo-te, gozo at√© ao ver-te agir, e roubo-te o segredo ao recriar-te em h√°beis constru√ß√Ķes que travam o teu fluxo.¬Ľ √Ä parte este jogo, a outra defesa contra as coisas √© o sil√™ncio em que nos recolhemos antes de dar o salto. Mas √© preciso que sejamos n√≥s a escolh√™-lo, e n√£o deixar que no-lo imponham. Nem mesmo a morte. Escolhermos um mal √© a √ļnica defesa contra esse mal. Isto significa aceitar o sofrimento. N√£o resigna√ß√£o, mas for√ßa. Digerir o mal de uma s√≥ vez. T√™m vantagem os que, por √≠ndole, sabem sofrer de um modo impetuoso e total: assim se desarma o sofrimento e o transformamos em cria√ß√£o, escolha, resigna√ß√£o. Justifica√ß√£o do suic√≠dio.
Aqui n√£o h√° lugar para a Caridade.

A Base da Actividade

Em nenhuma actividade é bom sinal se, de início, existe o desejo de vencer Рemulação, violência, ambição, etc. Deve começar-se por amar a técnica de cada actividade por si própria, como se ama a vida pelo simples parazer de viver.
Nisto consiste a verdadeira voca√ß√£o e a promessa de √™xito s√©rio. Em seguida, poder√£o vir todas as paix√Ķes sociais imagin√°veis, para reanimar o puro amor da t√©cnica – t√™m mesmo que vir -, mas come√ßar por elas √© ind√≠cio de que se deseja perder tempo. Em suma, √© preciso amar uma actividade, como se mais nada existisse no mundo, por si pr√≥pria.
√Č por isso que o momento significativo √© o do in√≠cio: porque, ent√£o, √© como se o mundo (paix√Ķes sociais) n√£o existisse ainda no que diz respeito a essa actividade.
Também porque toda a gente é capaz de se interessar por um trabalho que se sabe quanto rende; o difícil é apaixonarmo-nos gratuitamente.

O Cansaço da Literatura

Entre os sinais que me avisam de que a juventude terminou, o principal é aperceber-me de que a literatura já não me interessa verdadeiramente. Quero dizer que já não abro os livros com aquela viva e ansiosa esperança de coisas espirituais que, apesar de tudo, outrora sentia. Leio e quereria ler cada vez mais, mas já não recebo as várias experiências com entusiasmo, já não as fundo num sereno tumulto pré-poético. A mesma coisa acontece-me ao passear por Turim; já não sinto a cidade como um incentivo sentimental e simbólico para a criação. Já está feito, dá-me vontade de responder de cada vez.
Tomadas em justa conta as minhas v√°rias equimoses, obsess√Ķes, fadigas e terrenos est√©reis, resulta claro que j√° n√£o sinto a vida como uma descoberta e, muito menos, ent√£o, como poesia – mas, antes, como um frio material para especula√ß√Ķes, an√°lises e deveres. Aqui encalha, agora, a minha vida: a pol√≠tica, a pr√°tica, tudo coisas que se aprendem nos livros, mas os livros n√£o alimentam como o faz, pelo contr√°rio, a esperan√ßa de cria√ß√£o.
Ora, quando novo, procurava um sistema ético: descoberta a posição do impassível explorador, vivia-a e desfrutava-a sob a forma de criação. Agora,

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A Ironia da Escolha

O prazer – um dos mais aut√™nticos – de apreender que algu√©m est√° for√ßado a escolher, que n√£o pode ter duas coisas ao mesmo tempo. √Č um sinal do car√°cter tr√°gico da vida, que consiste no facto de um valor n√£o se conciliar com outro. Consequ√™ncia: renunciaste a muitas coisas para ter uma s√≥ – e agrada-te que os outros sintam tamb√©m o imp√©rio desta lei.
As pessoas que take for granted qualquer coisa entram em colisão contigo na medida justamente em que pretendem escapar a esse carácter trágico. As pessoas que gozam pagãmente qualquer coisa, idem, na medida também em que negam, por avidez, a incerteza e a contingência. Aspirar a qualquer coisa, pretendê-la, é em si mesmo agressivo na medida em que suprime a ironia da vida.
Odiamos os outros porque nos odiamos a nós próprios.
Tu, no entanto, take for granted o que não se deve take for granted. Aqui vem a propósito a pureza do coração, a humildade, a aceitação do mundo de Deus.

O Rápido Passar do Tempo é Sinal de Inactividade

O √≥cio torna lentas as horas e velozes os anos. A actividade torna r√°pida as horas e lentos os anos. A inf√Ęncia √© a actividade m√°xima, porque ocupada em descobrir o mundo na sua diversidade.
Os anos tornam-se longos na recorda√ß√£o se, ao repens√°-los, encontramos numerosos factos a desenvolver pela fantasia. Por isso, a inf√Ęncia parece longu√≠ssima. Provavelmente, cada √©poca da vida √© multiplicada pelas sucessivas reflex√Ķes das que se lhe seguem: a mais curta √© a velhice, porque nunca ser√° repensada.
Cada coisa que nos aconteceu √© uma riqueza inesgot√°vel: todo o regresso a ela a aumenta e acresce, dota de rela√ß√Ķes e aprofunda. A inf√£ncia n√£o √© apenas a inf√Ęncia vivida, mas a ideia que fazemos dela na juventude, na maturidade, etc. Por isso, parece a √©poca mais importante, visto ser a mais enriquecida por considera√ß√Ķes sucessivas.
Os anos são uma unidade da recordação; as horas e os dias, uma unidade da experiência.

Agimos Sempre no Sentido do Destino

No fundo, a sabedoria do destino √© a nossa pr√≥pria. Porque a acompanhamos com uma consci√™ncia incessante daquilo que, no fundo, nos √© permitido fazer. Podemos estar sujeitos a algumas tenta√ß√Ķes mas nunca nos enganamos. Agimos sempre no sentido do destino. As duas coisas formam uma s√≥.
Quem se engana é porque ainda não compreende o seu destino. Quer dizer, não compreende qual a resultante de todo o seu passado Рo qual lhe indica o futuro. Mas quer o compreenda ou não, indica-lho à mesma. Cada vida é aquilo que devia ser.

As Desvantagens das Nossas Paix√Ķes

Quanto mais um homem se emaranha numa paix√£o, tanto mais os acontecimentos, em si indiferentes, se traduzem para ele em dor, enganando justamente, pela sua indiferen√ßa, a avidez tensa em que esse homem se encontra. Um ambicioso sofrer√° porque uma pessoa c√©lebre n√£o lhe reconheceu import√Ęncia; essa mesma pessoa c√©lebre tentar√° insuflar escr√ļpulos de tenta√ß√£o a algum evang√©lico de quem procurar√° a conversa√ß√£o; escr√ļpulos que, por sua vez, irritar√£o um individualista, que ser√° atingido por eles, malgrado seu. A inveja, ambi√ß√£o ruminada, est√° na base de todas as ang√ļstias que sofremos. N√£o toleramos que uma coisa aconte√ßa indiferentemente, por acaso, escapando √† nossa chancela.
Qualquer género de fervor acarreta consigo a tendência para sentir uma lei preestabelecida na vida, uma lei que castiga os que abusam ou descuram esse mesmo fervor. Um estado de paixão Рmesmo que fosse a embriaguez da absoluta autodeterminação Рorganiza e anima de tal forma o Universo que toda a desgraça, parece, depois, provocada por uma ruptura do equilíbrio vital dessa paixão difusa, que, assim, se defende como um corpo vivo. E, segundo o temperamento de cada um, teremos a sensação de que abusámos, ou de que fomos inferiores; de qualquer forma, sentir-nos-emos organicamente punidos pela própria lei da paixão e do Universo.

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