Estatuto e Eternidade

N√£o me entendes, car√≠ssimo Sebasti√£o: dizes que misturo tudo. Dizes que √© incompar√°vel a liberdade de que hoje dispomos para imaginar, escolher, criar, viver. Pelo menos na nossa civiliza√ß√£o, dizes. E eu rio-me do que tu dizes, e tu zangas-te com o meu riso, cuidando, como tanto se cuida naquilo a que chamas a nossa civiliza√ß√£o, que me rio de ti. Querido Sebasti√£o, rio-me porque aquilo a que chamas a nossa civiliza√ß√£o ainda nem sequer come√ßou. Importa-me a liberdade, sim, mas vejo que a usamos ainda e apenas como uma outra esp√©cie de grilh√£o. Vestimos a liberdade como outrora vest√≠amos a submiss√£o; ela n√£o √© mais do que um traje de baile, com um carnet em que apontamos os nomes daqueles com quem dan√ßaremos para brilhar diante dos outros. Democratizou-se o anseio de estatuto, mas n√£o conseguimos ainda sair dele. √Č isso que vejo, Sebasti√£o.
Som e sentido, continente e conte√ļdo dilacerando-se, hoje como sempre, at√© que nada reste sob a superf√≠cie hiperb√≥lica da realidade. Dizes que aquilo a que eu chamo estatuto pode tamb√©m chamar-se √Ęnsia de eternidade. Mas eu vejo t√£o pouca eternidade nos sonhos das pessoas, Sebasti√£o. A eternidade que somos conduzidos a aspirar √© a da juventude –

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