Poemas sobre Tragédia

7 resultados
Poemas de tragédia escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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A Adoração dos Magos

Aquela noite a três
foi como desenhar a maçarico
numa chapa de ferro
um vento fóssil, um vítreo monograma,
o rasto ao exceder o voo de uma carriça
cativo flutua no vidro de uma jarra.
Suspensos percorriam na polpa da vertigem
léguas sobre o abismo.
Pendentes do zinco da manh√£
à espera do início
do seguinte espect√°culo
dispersaram o sémen
nas chaminés da noite leprosa.
Nos terraços da luta percorreram
as danças mais funestas da ternura.
Num combinar astuto de referências
abriram-se os portais
e despediram galopes penitentes
os animais libertos
das tecidas mans√Ķes.
O unic√≥rnio branco dep√īs sua cabe√ßa
nos braços da senhora,
compadecida dama,
e lhe tocou fiando suas l√£s
entre as unhas crivadas por metralha.
Sinto-lhes o assédio,
em cada joelho poisam
um queixo armadilhado,
a barba j√° cresceu desde o jantar.
¬ę√Č a adora√ß√£o dos magos¬Ľ – murmuras tu ‚Äď
fincando na ravina os dedos imanados
enquanto o tronco investe
a pele percorrida por venosas nascentes.
Olho por sobre um ombro
e surpreendo a treva
ofendida esgueirar-se
entre os dedos da porta.

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3 AM

M√£e
N√£o consigo adormecer
Já experimentei tudo. Até contar carneirinhos
N√£o consigo adormecer
Nem chorar
(Que maior tragédia poderá acontecer a um homem do que a de já não ser
capaz de chorar?)

M√£e
Sabias que o cord√£o umbilical pode funcionar
como uma corda num enforcamento?
‚ÄĒ tenho aprendido coisas bem singulares neste
conv√≠vio com os deuses ‚ÄĒ
Um dia destes regressarei a Tebas para ser coroado
Reservei hoje mesmo um lugar num avião das Linhas Aéreas Gregas
Gostaria de brindar contigo com uma taça de orvalho
antes de partir

M√£e
Detesto coberturas de a√ß√ļcar mesmo que levem lim√£o
Isto é tão certo como o é tu não me compreenderes
Estava a sonhar que estava a sonhar e assim por aí adiante até ao infinito. Depois
acordei. E fui descendo vertiginosamente de sonho para sonho
Ainda n√£o parei de acordar. E de sonhar

M√£e
Tenho uma surpresa para ti
um caramanch√£o para que te possas sentar todas as tardes a catar estrelas
na minha cabeça

M√£e
Abriu um concurso para preencher uma vaga de
ascensorista no Paraíso e eu concorri
Achas que tenho alguma hipótese de ser admitido?

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Há no Pensador uma Tragédia Limitada

há no pensador uma tragédia limitada
o diabo atira pelas frestas para acertar
na verdade na m√£e opressora no pai incalcul√°vel
se alguma qualidade pode ser preferida
se os sentidos do filho excluírem a perda
na medida exata dos ancestrais
e reter a morte com outra igual haver√° muita
precis√£o embora tal habilidade n√£o restrinja
a estupidez no vazio e bastar√° uma brasa para
incendiar o mundo e sei que a miséria
aspirar√° o ar bem fundo pra estourar a raz√£o

O Livro dos Amantes

I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

II

Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
n√£o compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

III

Príncipe secreto da aventura
em meus olhos um dia começada e finita.
Onda de amargura numa √°gua tranquila.
Flor insegura enlaçada no vento que a suporta.
P√°ssaro esquivo em meus ombros de aragem
reacendendo em cadência e em passagem
a lua que trazia e que apagou.

IV

D√°-me a tua m√£o por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais n√≠tido √† dist√Ęncia
onde te exalto porque te demoras.

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21 Anos

Os meus cavalos
espantaram-se

Como o Hipólito
da tragédia grega
bocados de mim
pendem
dos arbustos

Se te Queres Matar

Se te queres matar, por que n√£o te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, tamb√©m me mataria…
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de conven√ß√Ķes e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conhe√ßas finalmente…
Talvez, acabando, comeces…
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E n√£o cantes, como eu, a vida por bebedeira,
N√£o sa√ļdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? √ď sombra f√ļtil chamada gente!
Ningu√©m faz falta; n√£o fazes falta a ningu√©m…
Sem ti correr√° tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…

A m√°goa dos outros?… Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorar√£o…
O impulso vital apaga as l√°grimas pouco a pouco,

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