Sonetos sobre Alma de Orlando Neves

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Sonetos de alma de Orlando Neves. Leia este e outros sonetos de Orlando Neves em Poetris.

A √Ārea

Tudo o que houve, permanece, proeza do corpo
como um sulco bárbaro da memória dos dias,
ritos, remorsos, sementes futuras, a mudez.
Tudo aconteceu nas l√°grimas e nas veias,

na precisão das luzes, no lugar móvel da ordem,
no gelo e no lume que entre as coisas navegam,
na palavra deflagrada, na paz das p√°ginas.
Para onde vai o que não se move, o que é

dogma de cal, madeira, pedra ou ferro?
Como chamar à alma, à linguagem, às cores
que de amor pela morte morrem caladas,

na √°rea eterna da casa, a que permanece
na velhice dos anos e dos ossos consumada,
como uma gota do tempo para além dos séculos?

A Dor

Que venha, ref√ļgio ou ins√≥nia, futuro
antigo e comece no campo ou no flanco, à
direita, onde consome a alma, à esquerda
onde exclama no corpo, na seiva ou no ch√£o

dos sobressaltos. Venha, amantíssima e espessa,
orelha ou folha acesa, fugaz ou rasgada,
planície vermelha, doce, gélida ou rápida.
Obedeça ao enleio, desperte ou descanse,

corre pelo sangue como cervo na noite,
sol que despedaça o peito. O rosto se cobre
de grandes cinzas, pesado como uma l√°grima,

a alma, sendo ar, em nenhum lugar sereno.
√önica posse de que dispomos. √Č seu
absurdo desejo, subtil e sem domínio.