Cita√ß√Ķes sobre Sobressalto

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Frases sobre sobressalto, poemas sobre sobressalto e outras cita√ß√Ķes sobre sobressalto para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

As Tuas L√°grimas

As tuas lágrimas respiram e florescem, o lugar onde te sentas é o rio que corre em sobressalto por dentro de uma árvore, seiva renovada que transporta palavras até às folhas felizes de~um amor demorado e ainda puro. E essa ávore fala através das tuas palavras, demora-se em conversas com as abelhas, com os gaios, com o vento.
As tuas l√°grimas iluminam as p√°ginas alucinadas dos livros de poesia, e as mesas claras t√£o cheias de frutos que se assemelham a fogueiras ruivas, alimento privilegiado de um imenso e intenso drag√£o que me aquece o sangue.
As tuas lágrimas transbordam os grandes lagos dos meus olhos e eu choro contigo os grandes peixes da ternura, esses mesmos peixes que são os arquitectos perturbados de uma relação sem tempo mas alimentada por primaveras que de tão altas são inquestionáveis.
As tuas l√°grimas fertilizam as searas celestes, arrefecem o movimento dos vulc√Ķes, absorvem toda a beleza do arco-√≠ris, embebedam-se com a do√ßura das estrelas. E s√£o oferendas √† m√£e terra, o reconhecimento final do princ√≠pio do nosso pequeno mundo. As tuas l√°grimas s√£o minhas amigas. S√£o as minhas l√°grimas. A forma de chorar-te cheio de alegria, ferido por esta felicidade de amar-te muito,

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Fim do Dia

Aquieta-se o silêncio na folhagem,
que em √°rvores teceu amor antigo;
sobressalto transposto da viagem
que o dia rumoroso fez consigo.

O coração, que é sombra na paisagem,
dá às palavras vãs outro sentido;
e √© murm√ļrio desfeito na aragem,
que do entardecer recolhe abrigo.

Ares assim se fazem de uma luz
que torna como baço o sol poente;
e o coração à estrema se reduz,
como o dia se volve mais ausente.

Recolhem-se as palavras no vagar
que dia nem fulgor nos podem dar.

O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros; era um tempo também de sobressaltos, me embaralhando ruídos, confundindo minhas antenas, me levando a ouvir claramente acenos imaginários, me despertando com a gravidade de um julgamento mais áspero.

Saudade

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que j√° fui √°gua, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

O Amor é o Caminho que nos Leva à Esperança

O amor √© o caminho que nos leva √† esperan√ßa. E esta n√£o √© uma esp√©cie de consola√ß√£o, enquanto se esperam dias melhores. Nem √© sobretudo expectativa do que vir√°. Esperar n√£o significa projetar-se num futuro hipot√©tico, mas saber colher o invis√≠vel no vis√≠vel, o inaud√≠vel no aud√≠vel, e por a√≠ fora. Descobrir uma dimens√£o outra dentro e al√©m desta realidade concreta que nos √© dada como presente. Todos os nossos sentidos s√£o implicados para acolher, com espanto e sobressalto, a promessa que vem, n√£o apenas num tempo indefinido futuro, mas j√° hoje, a cada momento. A esperan√ßa mant√©m-nos vivos. N√£o nos permite viver macerados pelo des√Ęnimo, absorvidos pela desilus√£o, derrubados pelas for√ßas da morte. Compreender que a esperan√ßa floresce no instante √© experimentar o perfume do eterno.

Luto pela Bondade

Quero viver num mundo sem excomungados. N√£o excomungarei ningu√©m. N√£o diria, amanh√£, a esse sacerdote: ¬ęVoc√™ n√£o pode baptizar ningu√©m porque √© anticomunista.¬Ľ N√£o diria ao outro: ¬ęN√£o publicarei o seu poema, o seu trabalho, porque voc√™ √© anticomunista.¬Ľ Quero viver num mundo em que os seres sejam simplesmente humanos, sem mais t√≠tulos al√©m desse, sem trazerem na cabe√ßa uma regra-, uma palavra r√≠gida, um r√≥tulo. Quero que se possa entrar em todas as igrejas, em todas as tipografias. Quero que n√£o esperem ningu√©m, nunca mais, √† porta do munic√≠pio para o deter e expulsar. Quero que todos entrem e saiam sorridentes da C√Ęmara Municipal. N√£o quero que ningu√©m fuja em g√īndola, que ningu√©m seja perseguido de motocicleta. Quero que a grande maioria, a √ļnica maioria, todos, possam falar, ler, ouvir, florescer. Nunca compreendi a luta sen√£o como um meio de acabar com ela. Nunca aceitei o rigor sen√£o como meio para deixar de existir o rigor. Tomei um caminho porque creio que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura. Luto pela bondade ub√≠qua, extensa, inexaur√≠vel. De tantos encontros entre a minha poesia e a pol√≠cia, de todos esses epis√≥dios e de outros que n√£o contarei porque repetidos,

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A Quem Darei Todos os Dias da Minha Vida?

A quem darei todos os dias da minha vida? A voz que levo
em mim impressa como o rumor dos jardins, os rebanhos
descem pelas encostas, a neve abandona as giestas,
uma banda de província comemora o entardecer. Tu e eu dançaremos
como antigamente o Ver√£o nos chamava, pelas romarias,
e passaremos as noites em viagem. Reinventei o mundo agora,
tu o fizeste assim, uma √ļnica vez se diz o nome que nos fez
voar sobre as searas. A quem darei a minha vida?
Aquilo que deix√°mos um no outro marcado como um fogo,
o sobressalto, as novas palavras. O tempo demora, e volve, devagar,
sobre si mesmo, nos p√°tios mais antigos. Do primeiro ao √ļltimo dia,
a quem darei todos os dias da minha vida?

Regras de Conduta para Viver sem Sobressaltos

Vou indicar-te quais as regras de conduta a seguir para viveres sem sobressaltos. (…) Passa em revista quais as maneiras que podem incitar um homem a fazer o mal a outro homem: encontrar√°s a esperan√ßa, a inveja, o √≥dio, o medo, o desprezo. De todas elas a mais inofen¬≠siva √© o desprezo, tanto que muitas pessoas se t√™m sujeitado a ele como forma de passarem despercebidas. Quem despreza o outro calca-o aos p√©s, √© evidente, mas passa adiante; ningu√©m se afadiga teimosamente a fazer mal a algu√©m que despreza. √Č como na guerra: ningu√©m liga ao soldado ca√≠do, combate-se, sim, quem se ergue a fazer frente.
Quanto √†s esperan√ßas dos desonestos, bastar-te-√°, para evit√°-las, nada possu√≠res que possa suscitar a p√©rfida cobi√ßa dos outros, nada teres, em suma, que atraia as aten√ß√Ķes, porquanto qualquer objecto, ainda que pouco valioso, suscita desejos se for pouco usual, se for uma raridade. Para escapares √† inveja dever√°s n√£o dar nas vistas, n√£o gabares as tuas propriedades, saberes gozar discretamente aquilo que tens. Quanto ao √≥dio, ou derivar√° de alguma ofensa que tenhas feito (e, neste caso, bastar-te-√° n√£o lesares ningu√©m para o evitares), ou ser√° puramente gratuito, e ent√£o ser√° o senso comum quem te poder√° proteger.

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Soneto, às Cinco Horas da Tarde

Agora que me instigo e me arremesso
ao branco ofício de prender meu sono
e depois atir√°-lo em seu vestido
feito de céu e restos de incerteza,

recolho inutilmente de seus l√°bios
a precisão do sangue do silêncio
e inauguro uma tarde em suas m√£os
gr√°vidas de gestos e de rumos.

Pelo temor e o débil sobressalto
de encontrar sua ausência numa esquina
quando extingui canção e permanência,

guardei todo o impossível de seus olhos,
embora ouvisse, longe, além dos mapas,
bruscos mastins de cedro em seus cabelos.

Pedra Filosofal

Eles n√£o sabem que o sonho
é uma constante da vida
t√£o concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles n√£o sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho √°lacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles n√£o sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pin√°culo de catedral,
contraponto, sinfonia,
m√°scara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
p√°ra-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cis√£o do √°tomo, radar,
ultra-som, televis√£o,
desembarque em foguet√£o
na superfície lunar.

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No Teu Rosto

No teu rosto
competem mil madrugadas

Nos teus l√°bios
a raiz do sangue
procura suas pétalas

A tua beleza
é essa luta de sombras
é o sobressalto da luz
num tremor de √°gua
é a boca da paixão
mordendo o meu sossego

princípio do prazer

à sua volta os pombos cor de lava
nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olh√°-la em sobressalto

no seu olhar havia uma promessa
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol-poente pelo rio

trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo-f√°tuo a coroar um mastro

seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e l√ļcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava

e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atr√°s dela a vida inteira.

A Dor

Que venha, ref√ļgio ou ins√≥nia, futuro
antigo e comece no campo ou no flanco, à
direita, onde consome a alma, à esquerda
onde exclama no corpo, na seiva ou no ch√£o

dos sobressaltos. Venha, amantíssima e espessa,
orelha ou folha acesa, fugaz ou rasgada,
planície vermelha, doce, gélida ou rápida.
Obedeça ao enleio, desperte ou descanse,

corre pelo sangue como cervo na noite,
sol que despedaça o peito. O rosto se cobre
de grandes cinzas, pesado como uma l√°grima,

a alma, sendo ar, em nenhum lugar sereno.
√önica posse de que dispomos. √Č seu
absurdo desejo, subtil e sem domínio.

O Ser entre o Interior e o Exterior

Era um tipo estranho. Digo bem ¬ęum tipo¬Ľ. Olho um homem, uma mulher, e nem sempre me √© poss√≠vel tentar sequer abordar-lhe a pessoa por dentro. Porque h√° indiv√≠duos que irresistivelmente reduzimos a ¬ęobjectos¬Ľ. S√£o os indiv√≠duos ¬ęcaracter√≠sticos¬Ľ com tiques, com uma apar√™ncia de tra√ßos n√≠tidos. Compreendo a tenta√ß√£o da caricatura: a um olhar sem mist√©rio, os homens s√£o a caricatura do homem. Por isso o romance tem ignorado a outra zona. Ah, escrever um romance que se gerasse nesse ar rarefeito de n√≥s pr√≥prios, no alarme da nossa pr√≥pria pessoa, na zona incr√≠vel do sobressalto! Atingir n√£o bem o que se √© ¬ępor dentro¬Ľ, a ¬ępsicologia¬Ľ, o modo √≠ntimo de se ser, mas a outra parte, a que est√° antes dessa, a pessoa viva, a pessoa absoluta. Um romance que ainda n√£o h√°… Porque h√° s√≥ ainda romances de coisas – coisas vistas por fora ou coisas vistas por dentro. Um romance que se fixasse nessa ilumina√ß√£o viva de n√≥s, nessa dimens√£o ofuscante do halo de n√≥s…

lamento para a língua portuguesa

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
p√īr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por c√° mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.

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Natal

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela m√ļsica acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de √°gua turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulc√£o. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.

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Soneto XXXXI

Quando as cer√ļleas ondas no mar alto,
Co’ a branda vira√ß√£o quieto e manso,
Que empolando-se vão de lanço em lanço,
Prognosticam dos ventos bravo assalto,

Os Delfins, com ligeiro e leve salto,
Buscam do melhor porto o mor descanso,
Passando a tempestade em seu remanso
J√° livres de temor e sobressalto.

O bravo mar, é este bravo mundo,
Os Delfins, todos nós que nele andamos,
As religi√Ķes, seguros mansos portos.

Para eles deste mar nos acolhamos,
Antes que em seu abismo alto e profundo
Soçobrados fiquemos, despois mortos.