Textos sobre Baixo de Vergílio Ferreira

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Textos de baixo de Vergílio Ferreira. Leia este e outros textos de Vergílio Ferreira em Poetris.

A Dificuldade de Estabelecer e Firmar Rela√ß√Ķes

A dificuldade de estabelecer e firmar rela√ß√Ķes. H√° uma t√©cnica para isso, conhe√ßo-a. Nunca pude meter-me nela. Ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ. √Č realmente f√°cil: prestabilidade, autodom√≠nio. Mas. Ser soci√°vel exige um esfor√ßo enorme ‚ÄĒ f√≠sico. Quem se habituou, j√° se n√£o cansa. Tudo se passa √† superf√≠cie do esfor√ßo. Ter ¬ępersonalidade¬Ľ: n√£o descer um mil√≠metro no trato, mesmo quando por delicadeza se finge. Assumirmos a import√Ęncia de n√≥s sem o mostrar. Darmo-nos valor sem o exibir. Irresistivelmente, agacho-me. E logo: a pata dos outros em cima. Bem feito. Pois se me pus a jeito. E ent√£o reponto. O fim. Ser prest√°vel, colaborar nas tarefas que os outros nos inventam. Col√≥quios, confer√™ncias, organiza√ß√Ķes de. Ah, ser-se um ¬ęin√ļtil¬Ľ (um ¬ęparasita¬Ľ…). Raz√Ķes profundas ‚ÄĒ um complexo duplo que vem da juventude: incompreens√£o do irm√£o corpo e da bolsa paterna. O segundo remediou-se. Tenho desprezo pelo dinheiro. Ligo t√£o pouco ao dinheiro que nem o gasto… Mas ¬ęgastar¬Ľ faz parte da ¬ępersonalidade¬Ľ. Sa√ļde ‚ÄĒ mais dif√≠cil. Este ar apeur√© que vem logo ao de cima. A √ļnica defesa, obviamente, √© o resguardo, o isolamento, a medida.
√Č f√°cil ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ, dif√≠cil √© perseverar, assumir o artif√≠cio da facilidade. Conservar os amigos. ¬ęN√£o √©s capaz de dar nada¬Ľ,

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Nós Trazemos na Alma uma Bomba

A causa depois do efeito. A minha tese √© esta, minha querida ‚Äď n√≥s trazemos na alma uma bomba e o problema est√° em algu√©m fazer lume para a rebentar. N√≥s escolhemos ser santos ou her√≥is ou traidores ou cobardes e assim. O problema est√° em vir a haver ou n√£o uma oportunidade para isso se manifestar. N√≥s fizemos uma escolha na eternidade. Mas quantos sabem o que escolheram? Alguns t√™m a sorte ou a desgra√ßa de algu√©m fazer lume para rebentarem o que s√£o, ver-se o que estava por baixo do que estava por cima. Mas outros v√£o para a cova na ignor√Ęncia. √Äs vezes fazem ensaios porque a press√£o interior √© muito forte. Ou passam a vida √† espera de um sinal, um ind√≠cio elucidativo. Ou passam-na sem saberem que trazem a bomba na alma que √†s vezes ainda rebenta, mesmo j√° no cemit√©rio. Ou quem diz bomba diz por exemplo uma flor para pormos num sorriso. Ou um penso para pormos num lanho. Mas n√£o sabem.

O Que Somos N√£o √Č

Mas h√° momentos, nunca o pensaste?, h√° momentos em que tudo se nos abisma at√© √† fadiga. O des√Ęnimo sem fundo. A vertigem para l√° de qualquer significa√ß√£o. N√≥s somos o artif√≠cio de n√≥s. Mas √© a√≠ que constru√≠mos a legitima√ß√£o de se existir. Somos duplos do que somos e por baixo da camada que nos torna plaus√≠veis h√° uma outra realidade que revela o plaus√≠vel em fic√ß√£o. O que somos n√£o √©. O que somos √© o que resta depois de tudo se dissipar. O falso de n√≥s √© que √© verdadeiro. Ou ao contr√°rio, n√£o sei.

Dizer N√£o

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz N√ÉO √† cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da pol√≠cia. Porque a cultura n√£o tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, n√£o √© um modo de se descer mas de se subir, n√£o √© um luxo de ¬ęelitismo¬Ľ, mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz N√ÉO at√© ao p√£o com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pag√°-lo com a ren√ļncia de ti mesmo. Porque n√£o h√° uma s√≥ forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como pre√ßo a tua humilha√ß√£o.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código,

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Pensar o Meu País

Pensar o meu pa√≠s. De repente toda a gente se p√īs a um canto a meditar o pa√≠s. Nunca o t√≠nhamos pensado, pens√°ramos apenas os que o governavam sem pensar. E de s√ļbito foi isto. Mas para se chegar ao pa√≠s tem de se atravessar o espesso nevoeiro da mediocralhada que o infestou. Ser√° que a democracia exige a mediocridade? Mas os povos civilizados dizem que n√£o. N√≥s √© que temos um estilo de ser med√≠ocres. N√£o √© quest√£o de se ser ignorante, incompetente e tudo o mais que se pode acrescentar ao estado em bruto. N√£o √© quest√£o de se ser est√ļpido. Temos saber, temos intelig√™ncia. A quest√£o √© s√≥ a do equil√≠brio e harmonia, a quest√£o √© a do bom senso. H√° um modo profundo de se ser que fica vivo por baixo de todas as cataplasmas de verniz que se lhe aplicarem. H√° um modo de se ser grosseiro, sem ao menos se ter o rasgo de assumir a grosseria. E o resultado √© o rid√≠culo, a f√≠fia, a ¬ęfuga do p√© para o chinelo¬Ľ. O Espanhol √© um ¬ęb√°rbaro¬Ľ, mas assume a barbaridade. N√≥s somos uns camp√≥nios com a obsess√£o de parecermos civilizados. O Franc√™s √© um ser artificioso,

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Para Quê e Porquê

Vê se não insistes muito em perguntar porquê ou para quê, se não queres ficar paralítico. Porque a maior grandeza da vida tem o valor nela própria e não fora dela. Não se pode justificar a vida senão nela. Ou a luz. Ou a fraternidade humana. Ou a justiça. E o mais assim. E é o que é indiscutível que pode fundar um comportamento e uma razão de se estar vivo.
√Č f√°cil ainda inventar ou ter raz√Ķes para se atentar contra o que √© indiscut√≠vel. Porque se √© indiscut√≠vel, n√£o se pode discutir. E se se discute, o valor deixa de existir. Toda a cultura ou civiliza√ß√£o assenta em pressupostos que n√£o exigem uma demonstra√ß√£o e permanecem assim no intoc√°vel que √© seu. Eis que no nosso tempo, como em nenhum outro, o fundamental para a vida se determina pela nega√ß√£o. A arte foi como sempre o grande arauto da nossa terra queimada. Negar. Destruir. Porque tudo se contamina da possibilidade de nega√ß√£o. Das artes e as letras ao comportamento social.
E curiosamente a mais manifesta negação é a que se refere ao tabu sexual. E o que mais se destaca aí é o uso a frio das maiores obscenidades.

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O Que Procuro na Literatura

Que √© que eu procuro na literatura? Que √© que me arrasta para este combate intermin√°vel e sempre votado ao fracasso? Como √© imbecil pensar-se que se escreve para se ¬ęter nome¬Ľ e as vantagens que nisso v√™m. Espera-se decerto sempre fazer melhor, mas s√≥ porque sempre se falhou. Assim se sabe tamb√©m que se vai falhar de novo. N√£o se escreve para ningu√©m, o problema decide-se apenas entre n√≥s e n√≥s. Mas h√° um lugar inating√≠vel e cada nova tentativa √© uma tentativa para o alcan√ßar.
O desejo que nos anima é o de fixar, segurar pela palavra o que entrevemos e se nos furta. Julgamos às vezes que o atingimos, mas logo se sabe que não. Miragem perene de uma presença luminosa, de um absoluto de estarmos inundados dessa evidência, encantamento que nos deslumbra no instante e nesse instante se dissolve.
O que me arrasta nesta luta sem fim é o aceno de uma plenitude de ser, a integração perfeita do que sou no milagre que me entreluz, a transfiguração de mim e do mundo no que fulgura e vai morrer.
Recaído de cada vez no mais baixo, na grossa naturalidade de que sou feito,

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