Textos sobre Forma de Marguerite Yourcenar

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Textos de forma de Marguerite Yourcenar. Leia este e outros textos de Marguerite Yourcenar em Poetris.

A Perenidade das Ideias

Toda a vida se espantara com essa faculdade que as ideias t√™m de se aglomerarem friamente como cristais, formando estranhas figuras v√£s; ou crescerem como tumores devorando a carne que os concebeu; ou assumirem monstruosamente certos contornos da pessoa humana, √† maneira dessas massas inertes que algumas mulheres d√£o √† luz e que, em suma, n√£o s√£o mais do que um sonho da mat√©ria. Uma boa parte dos produtos do esp√≠rito n√£o passava tamb√©m de disformes sombras lunares. Outras no√ß√Ķes, mais claras e n√≠tidas, como que fabricadas por um mestre artes√£o, eram, por√©m, como aqueles objectos que, √† dist√Ęncia, iludem; imensamente admir√°veis eram os seus √Ęngulos e arestas; e todavia n√£o passavam de grades aonde o entendimento a se mesmo se aprisiona, abstractas ferragens que a ferrugem da falsidade n√£o tardaria a carcomir.
Tremia-se, por momentos, perante a iminente transmutação: um pouco de ouro parecia brotar no crisol do cérebro humano; não se conseguia, contudo, mais do que uma equivalência; da mesma forma que, naquelas experiências grosseiras em que os alquimistas da corte tentam provar aos príncipes seus clientes que algo descobriram, não era o ouro, no fundo da retorta, senão o de um banal ducado que, depois de correr de mão em mão,

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Só Se Possuem Eternamente os Amigos de Quem Nos Separamos

O amor de algu√©m √© um presente t√£o inesperado e t√£o pouco merecido que devemos espantar-nos que n√£o no-lo retirem mais cedo. N√£o estou inquieto por aqueles que ainda n√£o conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles v√£o conhecer ser√° diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. N√£o se possui ningu√©m (mesmo os que pecam n√£o o conseguem) e, sendo a arte a √ļnica forma de posse verdadeira, o que importa √© recriar um ser e n√£o prend√™-lo. Gherardo, n√£o te enganes sobre as minha l√°grimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chor√°-los. Se ficasses, talvez a tua presen√ßa, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela. Tal como as tuas vestes n√£o s√£o mais que o inv√≥lucro do teu corpo, assim tu tamb√©m n√£o √©s mais para mim do que o inv√≥lucro de um outro que extra√≠ de ti e que te vai sobreviver. Gherardo, tu √©s agora mais belo que tu mesmo.
Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.

A Ordem das Coisas

Natura deficit, fortuna mutatur, deus omnia cernit. A natureza trai-nos, a sorte muda, um deus v√™ do alto todas estas coisas. Apertava ao dedo a mesa de um anel onde, num dia de amargura, mandava gravar estas palavras tristes; ia mais longe no desengano, talvez na blasf√©mia; acabava por achar natural, sen√£o justo, que dev√≠amos perecer. As nossas letras esgotam-se; as nossas artes adormecem; P√Ęncrates n√£o √© Homero; Arriano n√£o √© Xenofonte; quando tentei imortalizar na pedra a forma de Ant√≠noo n√£o encontrei Prax√≠teles. Depois de Arist√≥teles e de Arquimedes, as nossas ci√™ncias n√£o progridem; os nossos progressos t√©cnicos n√£o resistiriam ao desgaste de uma longa guerra; mesmo os nossos voluptuosos desgostam-se da felicidade. O abrandamento dos costumes, o avan√ßo das ideias no decorrer do √ļltimo s√©culo √© obra de uma infima minoria de bons esp√≠ritos; a massa continua ignara, feroz, quando pode, de qualquer forma ego√≠sta e limitada, e h√° raz√Ķes para apostar que ficar√° sempre assim. Procuradores a mais, publicanos √°vidos, demasiados senadores desconfiados, demasiados centuri√Ķes brutais comprometeram adiantadamente a nossa obra; e os imp√©rios, como os homens, j√° n√£o t√™m tempo para se instru√≠rem √† custa das suas faltas. Onde quer que um tecel√£o remendar o seu pano,

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