Citação de

A Perenidade das Ideias

Toda a vida se espantara com essa faculdade que as ideias t√™m de se aglomerarem friamente como cristais, formando estranhas figuras v√£s; ou crescerem como tumores devorando a carne que os concebeu; ou assumirem monstruosamente certos contornos da pessoa humana, √† maneira dessas massas inertes que algumas mulheres d√£o √† luz e que, em suma, n√£o s√£o mais do que um sonho da mat√©ria. Uma boa parte dos produtos do esp√≠rito n√£o passava tamb√©m de disformes sombras lunares. Outras no√ß√Ķes, mais claras e n√≠tidas, como que fabricadas por um mestre artes√£o, eram, por√©m, como aqueles objectos que, √† dist√Ęncia, iludem; imensamente admir√°veis eram os seus √Ęngulos e arestas; e todavia n√£o passavam de grades aonde o entendimento a se mesmo se aprisiona, abstractas ferragens que a ferrugem da falsidade n√£o tardaria a carcomir.
Tremia-se, por momentos, perante a iminente transmuta√ß√£o: um pouco de ouro parecia brotar no crisol do c√©rebro humano; n√£o se conseguia, contudo, mais do que uma equival√™ncia; da mesma forma que, naquelas experi√™ncias grosseiras em que os alquimistas da corte tentam provar aos pr√≠ncipes seus clientes que algo descobriram, n√£o era o ouro, no fundo da retorta, sen√£o o de um banal ducado que, depois de correr de m√£o em m√£o, ali foi posto pelo alquimista antes da fervura. Tal como os homens, morriam as no√ß√Ķes: vira, no decurso de meio s√©culo, v√°rias gera√ß√Ķes de ideias desfazerem-se em p√≥.