Cita√ß√Ķes sobre P√≥

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Frases sobre p√≥, poemas sobre p√≥ e outras cita√ß√Ķes sobre p√≥ para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Sinto na Ang√ļstia o Quem me Lembrasse

Sinto na ang√ļstia o quem me lembrasse
e do lembrar a mim como uma ponte
onde de noite já ninguém passasse
viesse a notícia desse outro horizonte

em que o meu grito preso na garganta
dissesse à voz que não ouvi e veio
quanto cansaço inverosímil, quanta
fadiga me enternece como um seio.

Vibr√°til voga vaga pela tarde
que em cigarros distrai o eu estar só
a chama obscura que visível arde
quando arde ao sol o pó.

O Sol Da Tarde

Aquela tarde em que eu estava em Roma,
aquela tarde com sol da manh√£,
como ser só a tarde, se era a soma
do sol filtrado pela telha v√£?

Assim s√£o sob o sol todas as tardes:
s√£o clar√Ķes e janelas, s√£o aromas,
e o silêncio que cala o vão alarde
da tarde que se estende sobre Roma.

Sob o sol que declina, aqui estou
esperando que a noite caia em Roma
como um p√°lio que oculta o nada e a morte.

Roma dos obeliscos e sarcófagos!
Depois de tanto sol e tanto vento
a noite desce e eu sou a noite e pó.

Fonógrafo

Vai declamando um c√īmico defunto.
Uma platéia ri, perdidamente,
Do bom jarreta… E h√° um odor no ambiente.
A cripta e a p√≥, – do anacr√īnico assunto.

Muda o registo, eis uma barcarola:
L√≠rios, l√≠rios, √°guas do rio, a lua…
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul, – ext√°tica corola.

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos
Dum clarim de oiro – o cheiro de junquilhos,
V√≠vido e agro! – tocando a alvorada…

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manh√£. Que efl√ļvio de violetas!

Mãe que Levei à Terra

Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
que farei destas tuas artérias?
Que medula, placenta,
que l√°grimas unem aos teus
estes ossos? Em que difere
a minha da tua carne?

Mãe que levei à terra
como me acompanhaste à escola,
o que herdei de ti
além de móveis, pó, detritos
da tua e outras casas extintas?
Porque guardavas
o sopro de teus avós?

Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
vejo os teus retratos,
seguro nos teus dezanove anos,
eu n√£o existia, meu Pai j√° te amava.
Que fizeste do teu sangue,
como foi possível, onde estás?

Solemnia Verba

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos v√£os and√°mos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos…

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.

Acendimento

Seria bom sentir no quarto qualquer m√ļsica
enquanto nos banham os perfis ateados
pelo aroma da tília, sem voz, em abandono.
A entrada por detr√°s das ruas principais
onde a morrinha parece que nem molha
e se chega perdido onde se vai.
Não, não é só um beijo que te quero dar.

Quantas vezes nesta hora de desvalimento
vejo orion e as plêiades devagar no céu de inverno.
Mas hoje
com a calma inesperada de chuvas que n√£o cessam
acordo já depois. Caí numa hibernação que não norteia
o desequilíbrio do sentimento.

Espelhos sem paz tocam-nos no rosto.
Na cega mancha de roupagem aconchego
cada intempérie com sua mentira
e depois sigo pela torrente, pelo enredo
dos outeiros, cada espelho continua
a caução pacificadora do engano.
√Č isso que te levo, isso que me d√°s
quando dizes, j√° sem o dizeres, eu amo-te.

Pela berma da humidade cerrada
um risco de merc√ļrio trespassa.
Na gravilha passos que n√£o h√°
esmagam a m√ļsica que ningu√©m escuta.
Sabiam de cor tudo o que falhava,

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Carta (a um Amigo que me Pediu Versos)

Como hei-de ser um Petrarca,
Cantar como um rouxinol,
Se o meu termómetro marca
Quarenta e dois graus ao sol!

Da lira b√°rbara e tosca
Nem saem trovas d’Alfama.
Enxota o Pégaso a mosca,
E eu durmo a sesta na cama.

A hipocondria maciça
Conduzo-a, não há remédio,
Na jumenta da preguiça
Pelas charnecas do tédio.

Eu trago a inspiração oca,
Ando abatido, ando mono;
Meus versos abrem a boca,
Como os porteiros com sono.

N√£o tenho a rima imprevista,
Os guizos d’oiro ou de opala,
Que à asa da estrofe o artista
Sublime prende ao larg√°-la.

P’ra lapidar √† vontade
Um belo verso radiante,
Falta-me a tenacidade,
Que é como o pó do diamante.

A musa foi-se-me embora;
Para onde foi nem me lembro;
Só a torno a ver agora
L√° para os fins de Setembro.

Anda talvez nas florestas
Fazendo orgias pag√£s,
Entre os aromas das giestas
E os braços dos Egipãs.

Deix√°-la andar l√° dois meses
Colhendo imagens e flores,

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Um escritor faz-se de dia, sobre o asfalto e em cima do pó, sofrendo e desfrutando, odiando e querendo como só pode fazer um louco ou Deus.

Pela grossura da camada de p√≥ que cobre a lombada dos livros de uma biblioteca p√ļblica pode medir-se a cultura de um povo.

O Pecado da Gula

Ontem à tarde saí.
Queria passear as lembranças
que um dia de chuva faz crescer em nós.
H√° dias que o vento rondava a casa
cheio de segredos incompletos
a roçar-me a orelha. E eu não resisto
ao sabor do vento
e a uma boa história para enganar o frio.

√Č f√°cil perdermo-nos nas ruas.
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos
mas todos parecem iguais
com o cheiro da chuva a deixar o alcatr√£o
e a subir na memória
de outras ruas.
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo
√© uma b√ļssola fiel que segue pela estrada
enquanto o pó se levanta
muito para além dos nossos passos.

Mais umas poucas D√ļzias de Homens Ricos

N√£o: plantai batatas, √≥ gera√ß√£o de vapor e de p√≥ de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, constru√≠ passarolas de √ćcaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, ma√ßuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu t√£o diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-p√£es, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considera√ß√Ķes deste mundo a equa√ß√Ķes de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a esp√©cie humana? Que h√° mais umas poucas d√ļzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas pol√≠ticos, aos moralistas, se j√° calcularam o n√ļmero de indiv√≠duos que √© for√ßoso condenar a mis√©ria, ao trabalho desproporcionado, √† desmoraliza√ß√£o, √† inf√Ęmia, √† ignor√Ęncia crapulosa, √† desgra√ßa invenc√≠vel, √† pen√ļria absoluta, para produzir um rico? – Que lho digam no Parlamento ingl√™s, onde, depois de tantas comiss√Ķes de inqu√©rito, j√° devia andar or√ßado o n√ļmero de almas que √© preciso vender ao diabo, n√ļmero de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemit√©rio para fazer um tecel√£o rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico,

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Mestre

Mestre, meu mestre querido,
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?

N√£o cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstracta e visual até aos ossos.
Aten√ß√£o maravilhosa ao mundo exterior sempre m√ļltiplo,
Ref√ļgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dil√ļvio da intelig√™ncia subjectiva…

Mestre, meu mestre!
Na ang√ļstia sensacionalista de todos os dias sentidos,
Na m√°goa quotidiana das matem√°ticas de ser,
Eu, escrevo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as m√£os para ti, que est√°s longe, t√£o longe de mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.

Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.

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Cresci no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó cujo cheiro ainda conservo nas mãos.

Primeiro, morrem nossos prazeres; depois, nossas esperanças; depois nossos temores. E, então, nossa dívida vence: O pó reivindica o pó, e morremos por nossa vez.

A Moral Pura é Impossível

A nossa moral √© a cristaliza√ß√£o de um movimento interior completamente diferente dela! Nada do que dizemos faz sentido. Pensa numa frase qualquer, ocorre-me, por exemplo, esta: ¬ęNuma pris√£o deve imperar o arrependimento!¬Ľ √Č uma frase que se pode pronunciar com a melhor das consci√™ncias, mas ningu√©m a toma √† letra, sen√£o est√°vamos a pedir o fogo do inferno para os encarcerados! Como √© que a entendemos ent√£o? H√° com certeza muito poucos que saibam o que √© o arrependimento, mas todos dizem onde ele deve imperar. Ou ent√£o pensa em algo de exaltante: como √© que isso se mistura com a moral? Quando √© que estivemos com o rosto t√£o mergulhado no p√≥ que isso nos fa√ßa sentir a bem-aventuran√ßa do arrebatamento? Ou ent√£o toma √† letra uma express√£o como ¬ęser assaltado por um pensamento¬Ľ: no momento em que sentisses no corpo um tal contacto j√° estarias no limiar da loucura! Cada palavra quer ent√£o ser lida na sua literalidade para n√£o degenerar em mentira, mas n√£o podemos tomar nenhuma √† letra, sob pena de o mundo se transformar num manic√≥mio! H√° uma qualquer grande embriaguez que se eleva da√≠ sob a forma de uma obscura recorda√ß√£o, e de vez em quando imaginamos que todas as nossas experi√™ncias s√£o partes soltas e destru√≠das de uma antiga totalidade que um dia se foi completando de maneira errada.

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Os Sobreviventes

Quando todos imaginavam a vida sem sentido
chegaram de manh√£ os sobreviventes,
e levantaram suas moradas, estiveram no rio,
procuravam o rebanho disperso, preparavam
o alimento, cantavam, derramavam
o suor nos campos, faziam fogo à noite
rememoravam o corpo de suas mulheres,
despachavam os barcos, pela manh√£.
As chuvas eram sempre bem-vindas,
as chuvas levantavam o pó da terra
e enchiam de confiança a face da vida.
As mulheres viam nascer dentro de si
um novo rebento, os seus ventres cresciam.
Nenhum sinal de confiança quando as mulheres
apareciam de ventre crescido.
Os dias eram os mesmos, a esperança
e a desesperança eram as mesmas.

A Perenidade das Ideias

Toda a vida se espantara com essa faculdade que as ideias t√™m de se aglomerarem friamente como cristais, formando estranhas figuras v√£s; ou crescerem como tumores devorando a carne que os concebeu; ou assumirem monstruosamente certos contornos da pessoa humana, √† maneira dessas massas inertes que algumas mulheres d√£o √† luz e que, em suma, n√£o s√£o mais do que um sonho da mat√©ria. Uma boa parte dos produtos do esp√≠rito n√£o passava tamb√©m de disformes sombras lunares. Outras no√ß√Ķes, mais claras e n√≠tidas, como que fabricadas por um mestre artes√£o, eram, por√©m, como aqueles objectos que, √† dist√Ęncia, iludem; imensamente admir√°veis eram os seus √Ęngulos e arestas; e todavia n√£o passavam de grades aonde o entendimento a se mesmo se aprisiona, abstractas ferragens que a ferrugem da falsidade n√£o tardaria a carcomir.
Tremia-se, por momentos, perante a iminente transmutação: um pouco de ouro parecia brotar no crisol do cérebro humano; não se conseguia, contudo, mais do que uma equivalência; da mesma forma que, naquelas experiências grosseiras em que os alquimistas da corte tentam provar aos príncipes seus clientes que algo descobriram, não era o ouro, no fundo da retorta, senão o de um banal ducado que, depois de correr de mão em mão,

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