Passagens sobre P贸

123 resultados
Frases sobre p贸, poemas sobre p贸 e outras passagens sobre p贸 para ler e compartilhar. Leia as melhores cita莽玫es em Poetris.

O Livro da Vida

Absorto, o S谩bio antigo, estranho a tudo, lia…
鈥 Lia o 芦Livro da Vida禄 鈥 heran莽a inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clar茫o da primeira alvorada.

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

Passa o Estio, a cantar; acumulam-se Invernos;
E ele sempre, 鈥 inclinada a dorida cabe莽a,鈥
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu esp铆rito esclare莽a!

Cada p谩gina abrange um est谩dio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Ele tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.

Mas o tempo caminha; os anos v茫o correndo;
Passam as gera莽玫es; tudo 茅 p贸, tudo 茅 v茫o…
E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma n茅voa, a mesma escurid茫o.

Nesse eterno cismar, nada v锚, nada escuta:
Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,
Nem o humano sofrer,

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O Noivado do Sepulcro

Vai alta a lua! na mans茫o da morte
J谩 meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaiv茅ns da sorte
S贸 tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranquila!… mas eis longe, ao longe
Fun茅rea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D’entre os sepulcros a cabe莽a ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!… na amplid茫o celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marm贸rea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!… com sombrio espanto
Olhou em roda… n茫o achou ningu茅m…
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou al茅m.

Chegando perto duma cruz al莽ada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

“Mulher formosa, que adorei na vida,
“E que na tumba n茫o cessei d’amar,
“Por que atrai莽oas, desleal, mentida,
“O amor eterno que te ouvi jurar?

“Amor! engano que na campa finda,
“Que a morte despe da ilus茫o falaz:
“Quem d’entre os vivos se lembrara ainda
“Do pobre morto que na terra jaz?

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Nunca Competir

Toda a pretens茫o com oposi莽茫o prejudica o cr茅dito; a competi莽茫o tira logo a desdourar, para deslustrar. S茫o poucos os que fazem boa guerra. A emula莽茫o descobre os defeitos que a cortesia esqueceu; muitos viveram acreditados enquanto n茫o tiveram advers谩rios. O calor da contesta莽茫o aviva ou ressuscita inf芒mias mortas, desenterra hediondezas passadas e antepassadas. Come莽a a competi莽茫o com manifestos de desdouros, socorrendo-se de tudo o que pode e n茫o deve; e, ainda que 脿s vezes, e no mais das vezes, as ofensas n茫o sejam armas proveitosas, delas tira vil satisfa莽茫o para sua vingan莽a, e esta sacode com tais ares que faz saltar pelos desares o p贸 do esquecimento. Sempre foi pac铆fica a benevol锚ncia e ben茅vola a reputa莽茫o.

O Primeiro Beijo

Durante todas as noites desse ver茫o, as estrelas foram l铆quidas no c茅u. Quando eu as olhava, eram pontos l铆quidos de brilho no c茅u. Na primeira vez, encontr谩mo-nos durante o dia: eu sorri-lhe, ela sorriu-me. Dissemos duas ou tr锚s palavras e contivemo-nos dentro dos nossos corpos. Os olhos dela, por um instante, foram um abismo onde fiquei envolto por leveza luminosa, onde ca铆a como se flutuasse: cair atrav茅s do c茅u dentro de um sonho.

Naquela noite, fiquei a esper谩-la, encostado ao muro, alguns metros depois da entrada da pens茫o. As pessoas que passavam eram alegres. Eu pensava em qualquer coisa que me fazia sentir maior por dentro, como a noite. As folhas de hera que cobriam o cimo do muro, e que se suspendiam sobre o passeio, eram uma 煤nica forma nocturna, feita apenas de sombras. Primeiro, senti as folhas de hera a serem remexidas; depois, vi os bra莽os dela a agarrarem-se ao muro; depois, o rosto dela parado de encontro ao c茅u claro da noite. E faltou uma batida ao cora莽茫o.

O mundo parou. Sombras pousavam-lhe, transparentes, na pele do rosto. O ar fresco, arrefecido, moldava-lhe a pele do rosto. E o mundo continuou. Ajudei-a a descer.

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As M茫os

Brandamente escrevem dos espasmos do sol.
Envelhecem do pulso ao c茅rebro, ao calor ba莽o
de um rev茅rbero no eixo dos ventos, usura
das m谩scaras que, sucessivamente, as transformam

de consci锚ncia em cal ou metal obscuro.
E j谩 n茫o 茅 por si que a presen莽a existe ou
subsiste o que separa. Destroem as sementes,
apodrecem como um sopro e n茫o s茫o remanso

na areia ou domadoras de chamas. Igualam-se
脿 谩gua, para serem raiz do que se cala
e insinuam-se, para sempre, no p贸 da noite.

Um castelo de pele tomba. Deixam de ser
nomeadas ou nome. Escrevem, brandamente,
do termo da m煤sica o luto do sil锚ncio.

O Deus Dar谩

ao deus-dar谩
vou como vou

tudo que sou
foi ou ser谩

n茫o sei se o tempo
trar谩 ou n茫o
de supet茫o
um contratempo

quando galopa
age sem jeito
torna imperfeito
tudo que topa

o que est谩 morto
morto ficou
quem o enterrou
lhe deu um porto

mas na mem贸ria
de cada tarde
ainda que tarde
se conte a hist贸ria

cada domingo
tem sua tarde
que sem alarde
cai como um pingo

mas h谩 uma s贸
pra cada cum
e n茫o nenhum
que a atire ao p贸

h谩 uma apenas
que me recorda
em dose gorda
coisas amenas

que a tarde fique
como um menino
atento ao sino
e a se repique

Que a tarde guarde sempre o som de um sino
Ecoando alegrias de menino.

Pronto para Receber a Felicidade

Estava tudo pronto para receber a felicidade,
e tu n茫o vinhas.

Amei-te muito antes de te amar. 脡ramos o que
os amantes eram e nem precis谩vamos de
corpo para isso, porque o que diz铆amos nos
satisfazia, e sempre que a vida acontecia era um
ao outro que t铆nhamos de falar. Se h谩 coisa que
temo no mundo 茅 o teu fim. Passo horas a sentir-me
indestrut铆vel, a ter a certeza de que nada me
toca, de que nada me poder谩 doer o suficiente para
me fazer recuar, e depois vens tu. Tu e a tua imagem
a perder de vista, os teus olhos quando me olhas, a
tua boca quando me falas, e 茅 ent茫o que percebo
que sou finito, pobre humano, e desato a chorar 脿
procura do telefone e de uma palavra tua que
me conven莽a de que ainda existes. 脡 na possibilidade
do teu fim que encontro a humildade.

Era o dia mais lindo de sempre na terra onde eu estava,
e tu n茫o vinhas.

N茫o se sabe onde acaba o mundo mas eu sei que
a vida acaba no fundo dos teus l谩bios.

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A Confian莽a ao Virar da Esquina

Podemos ler todos os livros que falam sobre a import芒ncia da confian莽a nas nossas vidas, mas nunca o seremos verdadeiramente sem experimentar na pele a sensa莽茫o de uma experi锚ncia, ou seja, nada podemos ser sem praticar seja o que for. A experi锚ncia 茅 a pr谩tica, 茅 o trabalho de campo, 茅 a exposi莽茫o, a vulnerabilidade e a consuma莽茫o do verdadeiro conhecimento. S贸 depois de experimentares 茅 que podes ousar saber alguma coisa. Percebes, portanto, a import芒ncia de ir para a rua? De levantares esse rabo gordo e achatado do sof谩? Em casa pouco ou nada consegues experimentar, pois encontras-te no dom铆nio da rotina. Tudo o que, eventualmente, haveria para ser posto em pr谩tica j谩 o foi, portanto, nada mais h谩 a ganhar nessas quatro paredes a n茫o ser peso, melancolia e p贸. Sugiro, portanto, que nesta fase v谩s a casa dormir e que v谩s para a rua viver. E 茅 isto, s贸 isto, apenas isto.

O nosso 铆ndice de confian莽a dispara em cada experi锚ncia que escolhemos viver e como j谩 todos experiment谩mos j谩 todos sabemos disto.

N茫o!

Tenho-te muito amor,
E amas-me muito, creio:
Mas ouve-me, receio
Tomar-te desgra莽ada:
O homem, minha amada,
N茫o perde nada, goza;
Mas a mulher 茅 rosa…
Sim, a mulher 茅 flor!

Ora e a flor, v锚 tu
No que ela se resume…
Faltando-lhe o perfume,
Que 茅 a ess锚ncia dela,
A mais vi莽osa e bela
V锚-a a gente e… basta.
S锚 sempre, sempre, casta!
Ter谩s quanto possuo!

Ter谩s, enquanto a mim
Me alumiar teu rosto,
Uma alma toda gosto,
Enlevo, riso, encanto!
Depois ter谩s meu pranto
Nas praias solit谩rias…
Ondas tumultu谩rias
De l谩grimas sem fim!

脌 noite, que o pesar
Me arrebatar de cada,
Irei na campa rasa
Que resguardar teus ossos,
Ah! recordando os nossos
T茫o venturosos dias,
Fazer-te as cinzas frias
Ainda palpitar!

Mil beijos, doce bem,
Darei no p贸 sagrado,
Em que se houver tornado
Teu corpo t茫o galante!
Com pena, minha amante,
De n茫o ter a morte
Ca铆do a mim em sorte…
Ca铆do em mim tamb茅m!

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Evolu莽茫o

Arde o corpo do sol, brotam feixes de luz:
O que 茅 a luz?
Sol que morreu.

Dardeja a luz, dardeja e pulveriza a fraga:
Vai nesse p贸, que h谩-de ser terra,
A luz extinta.

Gerou a terra a seara verde:
Hastes e folhas da seara verde
Comeram terra.

A seara 茅 grada, o trigo 茅 loiro:
Deu trigo loiro,
Morrendo ela.

O trigo 茅 p茫o, 茅 carne e 茅 sangue:
Sangue vermelho, carne vermelha,
Trigo defunto.

Em carne e em sangue, eis o desejo:
Vive o desejo,
De carne morta.

Arde o desejo, eis o pecado:
Que s茫o pecados?
Desejos mortos.

Queima o pecado o pecador:
Nasceu a dor; findou na dor
Pecado e morte.

A alma branca, iluminada,
Transfigurada pela dor,
Essa n茫o vai 脿 sepultura
Porque 茅 j谩 Deus na criatura,
Porque 茅 o Esp铆rito, 茅 o Amor.

Na vida v茫 da terra sepulcral
S贸 o amor 茅 infinito e s贸 ele 茅 imortal.

Morreu a luz,

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Mostro a todos v贸s o mundo pleno de vida, onde toda part铆cula de P贸 exala o alento de sua alegria

De seu calmo esconderijo,
o ouro vem, d贸cil e ing锚nuo;
torna-se p贸, folha, barra,
prest铆gio, poder, engenho…
脡 t茫o claro! – e turva tudo:
honra, amor e pensamento

Transcendentalismo

(A J. P. Oliveira Martins)

J谩 sossega, depois de tanta luta,
J谩 me descansa em paz o cora莽茫o.
Ca铆 na conta, enfim, de quanto 茅 v茫o
O bem que ao Mundo e 脿 Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte n茫o enxuta,
No sacr谩rio do templo da Ilus茫o,
S贸 encontrei, com dor e confus茫o,
Trevas e p贸, uma mat茅ria bruta…

N茫o 茅 no vasto mundo 鈥 por imenso
Que ele pare莽a 脿 nossa mocidade 鈥
Que a alma sacia o seu desejo intenso…

Na esfera do invis铆vel, do intang铆vel,
Sobre desertos, v谩cuo, soledade,
V么a e paira o esp铆rito impass铆vel!

Mestre

Mestre, meu mestre querido,
Cora莽茫o do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspira莽茫o!
Mestre, que 茅 feito de ti nesta forma de vida?

N茫o cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstracta e visual at茅 aos ossos.
Aten莽茫o maravilhosa ao mundo exterior sempre m煤ltiplo,
Ref煤gio das saudades de todos os deuses antigos,
Esp铆rito humano da terra materna,
Flor acima do dil煤vio da intelig锚ncia subjectiva…

Mestre, meu mestre!
Na ang煤stia sensacionalista de todos os dias sentidos,
Na m谩goa quotidiana das matem谩ticas de ser,
Eu, escrevo de tudo como um p贸 de todos os ventos,
Ergo as m茫os para ti, que est谩s longe, t茫o longe de mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu cora莽茫o n茫o aprendeu a tua serenidade.
Meu cora莽茫o n茫o aprendeu nada.
Meu cora莽茫o n茫o 茅 nada,
Meu cora莽茫o est谩 perdido.

Mestre, s贸 seria como tu se tivesse sido tu.

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Um Dia Guttemberg

Um dia Guttemberg c’o a alma aos c茅us suspensa,
Pegou do escopro ingente e p么s-se a trabalhar!
E fez do velho mundo um r煤tilo alcan莽ar
Ao m谩gico clangor de sua id茅ia imensa!

Rolou por todo o globo a luz da sacra imprensa!
Ruiu o despotismo no p贸, a esbravejar…
Uniram-se n’um lago, o c茅u, a terra, o mar…
Rasgou-se o manto atroz da horr铆vel treva densa!…

Ergueram-se mil povos ao som das melop茅ias,
Das grandes cavatinas ol铆mpicas da arte!
Raiou o novo sol das f煤lgidas id茅ias!…

Por茅m, quem lance luz maior por toda a parte
脡s tu, sublime atriz, 贸 misto de epop茅ias
Que sabes no tablado subir, endeusar-te!…

Sinto na Ang煤stia o Quem me Lembrasse

Sinto na ang煤stia o quem me lembrasse
e do lembrar a mim como uma ponte
onde de noite j谩 ningu茅m passasse
viesse a not铆cia desse outro horizonte

em que o meu grito preso na garganta
dissesse 脿 voz que n茫o ouvi e veio
quanto cansa莽o inveros铆mil, quanta
fadiga me enternece como um seio.

Vibr谩til voga vaga pela tarde
que em cigarros distrai o eu estar s贸
a chama obscura que vis铆vel arde
quando arde ao sol o p贸.

O Sol Da Tarde

Aquela tarde em que eu estava em Roma,
aquela tarde com sol da manh茫,
como ser s贸 a tarde, se era a soma
do sol filtrado pela telha v茫?

Assim s茫o sob o sol todas as tardes:
s茫o clar玫es e janelas, s茫o aromas,
e o sil锚ncio que cala o v茫o alarde
da tarde que se estende sobre Roma.

Sob o sol que declina, aqui estou
esperando que a noite caia em Roma
como um p谩lio que oculta o nada e a morte.

Roma dos obeliscos e sarc贸fagos!
Depois de tanto sol e tanto vento
a noite desce e eu sou a noite e p贸.

Fon贸grafo

Vai declamando um c么mico defunto.
Uma plat茅ia ri, perdidamente,
Do bom jarreta… E h谩 um odor no ambiente.
A cripta e a p贸, – do anacr么nico assunto.

Muda o registo, eis uma barcarola:
L铆rios, l铆rios, 谩guas do rio, a lua…
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul, – ext谩tica corola.

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos
Dum clarim de oiro – o cheiro de junquilhos,
V铆vido e agro! – tocando a alvorada…

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manh茫. Que efl煤vio de violetas!