Textos sobre M√£os de Pablo Neruda

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Textos de m√£os de Pablo Neruda. Leia este e outros textos de Pablo Neruda em Poetris.

Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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O Meu Primeiro Poema

T√™m-me perguntado muitas vezes quando escrevi o primeiro poema, quando nasceu a minha poesia. Tentarei record√°-lo. Muito para tr√°s, na minha inf√Ęncia, mal sabendo ainda escrever, senti uma vez uma intensa como√ß√£o e rabisquei umas quantas palavras semi-rimadas, mas estranhas para mim, diferentes da linguagem quotidiana. Passei-as a limpo num papel, dominado por uma ansiedade profunda, um sentimento at√© ent√£o desconhecido, misto de ang√ļstia e de tristeza. Era um poema dedicado √† minha m√£e, ou seja, √†quela que conheci como tal, a ang√©lica madrasta cuja sombra suave me protegeu toda a inf√Ęncia. Completamente incapaz de julgar a minha primeira produ√ß√£o, levei-a aos meus pais. Eles estavam na sala de jantar, afundados numa daquelas conversas em voz baixa que dividem mais que um rio o mundo das crian√ßas e o dos adultos. Estendi-lhes o papel com as linhas, tremente ainda da primeira visita da inspira√ß√£o. O meu pai, distraidamente, tomou-o nas m√£os, leu-o distraidamente, devolveu-mo distraidamente, dizendo-me:
‚ÄĒ Donde o copiaste?

E continuou a falar em voz baixa com a minha mãe dos seus importantes e remotos assuntos. Julgo recordar que nasceu assim o meu primeiro poema e que assim tive a primeira amostra distraída de crítica literária.

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O Amor por Matilde e os Versos do Capit√£o

E vou contar-lhes agora a hist√≥ria deste livro, um dos mais controvertidos daqueles que escrevi. Foi durante muito tempo um segredo, durante muito tempo n√£o ostentou o meu nome na capa, como se o renegasse ou o pr√≥prio livro n√£o soubesse quem era o pai. Tal como os filhos naturais, filhos do amor natural, ¬ęLos versos del capit√°n¬Ľ eram, tamb√©m, um ¬ęlibro natural¬Ľ.

Os poemas que cont√©m foram escritos aqui e ali, ao longo do meu desterro na Europa. Foram publicados anonimamente em N√°poles, em 1952. O amor por Matilde, a nostalgia do Chile, as paix√Ķes c√≠vicas, recheiam as p√°ginas desse livro, que teve muitas edi√ß√Ķes sem trazer o nome do autor.

Para a 1¬™ edi√ß√£o, o pintor Paolo Ricci conseguiu um papel admir√°vel e antigos tipos de imprensa ¬ębodonianos¬Ľ, bem como gravuras extra√≠das dos vasos de Pompeia. Com fraternal fervor, Paolo elaborou tamb√©m a lista dos assinantes. Em breve apareceu o belo volume, com tiragem limitada a cinquenta exemplares. Festej√°mos largamente o acontecimento, com mesa florida, ¬ęfrutti di mare¬Ľ, vinho transparente como √°gua, filho √ļnico das vinhas de Capri. E com a alegria dos amigos que amaram o nosso amor.
Alguns críticos suspicazes atribuíram a motivos políticos a publicação anónima do livro.

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A Minha Mulher, Matilde Urrutia

A minha mulher √© provinciana como eu. Nasceu numa cidade do Sul, em Chill√°n, famosa pela sorte de possuir uma bela cer√Ęmica camponesa e pela infelicidade de sofrer frequentemente terr√≠veis terramotos. Falando para ela, disse-lhe tudo nos meus Cem Sonetos de Amor.
Talvez estes versos definam o que ela significa para mim. A terra e a vida nos juntaram.
Embora isto n√£o interesse a ningu√©m, somos felizes. Dividimos o nosso tempo comum em longas perman√™ncias na solit√°ria costa do Chile. N√£o no Ver√£o, porque o litoral ressequido pelo sol se mostra amarelo e des√©rtico; antes no Inverno, quando, em estranha flora√ß√£o, a terra se veste com as chuvas e o frio, de verde e amarelo, de azul e de p√ļrpura. Subimos algumas vezes do solit√°rio e selv√°tico oceano para a nervosa cidade de Santiago, na qual sofremos juntamente com a complicada exist√™ncia dos outros.

Matilde canta com voz poderosa as minhas can√ß√Ķes.
Eu dedico-lhe quanto escrevo e quanto tenho. Não é muito, mas ela está contente.
Vejo-a agora a enterrar os sapatos min√ļsculos na lama do jardim e, em seguida, a enterrar tamb√©m as suas min√ļsculas m√£os na profundidade da planta.
Da terra,

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Eu Simplesmente Amo-te

Eu amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.

Somos o Mistério

No fim desta √©poca, como se toda a longa viagem tivesse sido in√ļtil, volto a ficar sozinho nos territ√≥rios rec√©m-descobertos. Como na crise do nascimento, como no come√ßo alarmante e alarmado do terror metaf√≠sico donde brota o manancial dos meus primeiros versos, como num novo crep√ļsculo que a minha pr√≥pria cria√ß√£o provocou, entro numa nova agonia e na segunda solid√£o. Para onde ir? Para onde regressar, conduzir, calar ou palpitar? Olho para todos os pontos da claridade e da obscuridade e n√£o encontro sen√£o o vazio que as minhas pr√≥prias m√£os elaboraram com persist√™ncia fatal.

Mas o mais pr√≥ximo, o mais fundamental, o mais extenso, o mais incalcul√°vel, n√£o apareceria, afinal, sen√£o neste momento no meu caminho. Tinha pensado em todos os mundos, mas n√£o no homem. Tinha explorado com crueldade e agonia o cora√ß√£o do homem. Sem pensar nos homens, tinha visto cidades, mas cidades vazias. Tinha visto f√°bricas de tr√°gico aspecto, mas n√£o vira o sofrimento debaixo dos tectos, sobre as ruas, em todas as esta√ß√Ķes, nas cidades e no campo.

√Äs primeiras balas que trespassaram as violas de Espanha, quando, em vez de sons, sa√≠ram delas borbot√Ķes de sangue, a minha poesia deteve-se como um fantasma no meio das ruas da ang√ļstia humana e come√ßou a subir por ela uma torrente de ra√≠zes e de sangue.

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A Luta pela Recordação

Os meus pensamentos foram-se afastando de mim, mas, chegado a um caminho acolhedor, repilo os tumultuosos pesares e detenho-me, de olhos fechados, enervado num aroma de afastamento que eu próprio fui conservando, na minha pequena luta contra a vida. Só vivi ontem. Ele tem agora essa nudez à espera do que deseja, selo provisório que nos vai envelhecendo sem amor.
Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou estendido à sua sombra, recordando.
De s√ļbito, contemplo, surpreendido, longas caravanas de caminhantes que, chegados como eu a este caminho, com os olhos adormecidos na recorda√ß√£o, entoam can√ß√Ķes e recordam. E algo me diz que mudaram para se deter, que falaram para se calar, que abriram os olhos at√≥nitos ante a festa das estrelas para os fechar e recordar…
Estendido neste novo caminho, com os olhos √°vidos florescidos de afastamento, procuro em v√£o interceptar o rio do tempo que tremula sobre as minhas atitudes. Mas a √°gua que consigo recolher fica aprisionada nos tanques ocultos do meu cora√ß√£o em que amanh√£ ter√£o de se submergir as minhas velhas m√£os solit√°rias…

A Minha Poesia

A minha poesia e a minha vida flu√≠ram como um rio americano, como uma torrente de √°guas do Chile, nascidas na intimidade profunda das montanhas austrais e dirigindo sem cessar para uma sa√≠da mar√≠tima o movimento do caudal. A minha poesia n√£o rejeitou nada do que p√īde transportar nas suas √°guas. Aceitou a paix√£o, desenvolveu o mist√©rio, abriu passagem nos cora√ß√Ķes do povo.

Coube-me sofrer e lutar, amar e cantar. Tocaram-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e do sangue. Que mais quer um poeta? Todas as alternativas, do pranto até aos beijos, da solidão até ao povo, estão vivas na minha poesia, reagem nela, porque vivi para a minha poesia e porque a poesia sustentou as minhas lutas. E se muitos prémios alcancei, prémios fugazes como borboletas de pólen evasivo, alcancei um prémio maior, um prémio que muitos desdenham, mas que, na realidade, é para muitos inatingível.

Consegui chegar, atrav√©s de uma dura li√ß√£o de est√©tica e rebusca, atrav√©s dos labirintos da palavra escrita, √† altura de poeta do meu povo. O meu pr√©mio maior √© esse ‚ÄĒ n√£o os livros e os poemas traduzidos, n√£o os livros escritos para descreverem ou dissecarem as palavras dos meus livros.

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√Ālvaro

… Diabo de homem, este √Ālvaro… Agora chama-se √Ālvaro de Silva… Vive em Nova Iorque… Passou quase toda a vida na selva nova-iorquina… Imagino-o a comer laranjas a horas ins√≥litas, queimando com o f√≥sforo o papel dos cigarros, fazendo perguntas vexat√≥rias a toda a gente… Foi sempre um mestre desordenado, possuidor de uma brilhante intelig√™ncia, intelig√™ncia inquiridora que parecia n√£o o levar a pparte nenhuma, excepto a Nova Iorque. Era em 1925…

Entre as violetas que se lhe escapavam da m√£o quando corria para as entregar a uma transeunte desconhecida, com a qual queria logo ir deitar-se, sem saber como ela se chamava nem donde era, e as suas intermin√°veis leituras de Joyce, revelou-me a mim e a muitos outros insuspeitadas opini√Ķes, pontos de vist-a de grande cidad√£o que vive dentro da urbe, na sua cova, e sai a explorar a m√ļsica, a pintura, os livros, a dan√ßa… Sempre a comer laranjas, a descascar ma√ß√£s, insuport√°vel diet√©tico, assombrosamente intrometido em tudo, v√≠amos nele, por fim, o sonhado antiprovinciano que todos n√≥s, os provincianos, t√≠nhamos querido ser, sem as etiquetas coladas nas malas, antes circulando dentro de si pr√≥prio, com uma mistura de pa√≠ses e concertos, de caf√©s ao alvorecer,

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Raízes

Ehrenburg, que lia e traduzia os meus versos, repreendia-me: demasiada raiz, demasiadas ra√≠zes, nos teus versos. Porqu√™ tantas? √Č verdade. As terras fronteiri√ßas do Chile infiltraram as suas ra√≠zes na minha poesia e nunca puderam sair dela. A minha vida √© uma longa peregrina√ß√£o que anda sempre √†s voltas, que retorna sempre ao bosque austral, √† selva perdida.
Ali, √© certo, as grandes √°rvores eram por vezes tombadas por setecentos anos de vida poderosa, ou arrancadas pelo furac√£o, ou queimadas pela neve, ou destru√≠das pelo inc√™ndio. Senti muitas vezes cair na profundidade da floresta as √°rvores tit√Ęnicas: o roble que tomba com estrondo de cat√°strofe surda, como se batesse com m√£o colossal √†s portas da terra pedindo sepultura. As ra√≠zes, por√©m, ficavam a descoberto, entregues ao tempo inimigo, √† humidade, aos l√≠quenes, ao aniquilamento progressivo.
Nada mais belo que aquelas grandes m√£os abertas, feridas e queimadas, que numa vereda do bosque nos indicam o segredo da √°rvore enterrada, o enigma que a folhagem mantinha, os m√ļsculos profundos do dom√≠nio vegetal. Tr√°gicas e hirsutas, mostram-nos uma nova beleza: s√£o esculturas da profundidade ‚ÄĒ obras-primas secretas da natureza.

Certa vez, caminhando com Rafael Alberti entre cascatas, matagais e bosques,

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O Poeta não é um Pequeno Deus

O poeta n√£o √© um ¬ępequeno deus¬Ľ. N√£o, n√£o √© um ¬ępequeno deus¬Ľ. N√£o est√° amrcado por um destino cabal√≠stico superior ao de quem exerce outros misteres e of√≠cios. Exprimi ami√ļde que o melhor poeta √© o homem que nos entrega o p√£o de cada dia: o padeiro mais pr√≥ximo, que n√£o se julga deus. Cumpre a sua majestosa e humilde tarefa de amassar, levar ao forno, dourar e entregar o p√£o de cada dia, com uma obriga√ß√£o comunit√°ria. E se o poeta chega a atingir essa simples consci√™ncia, a simples consci√™ncia tamb√©m se pode converter em parte de uma artesania colossal, de uma constru√ß√£o simples ou complicada, que √© a constru√ß√£o da sociedade, a transforma√ß√£o das condi√ß√Ķes que rodeiam o homem, a entrega da mercadoria: p√£o, verdade, vinho, sonhos.

Se o poeta se incorpora nessa nunca consumida luta para cada um confiar nas mãos dos outros a sua ração de compromisso, a sua dedicação e a sua ternura pelo trabalho comum de cada dia e de todos os homens, participa no suor, no pão, no vinho, no sonho de toda a humanidade. Só por esse caminho inalienável de sermos homens comuns conseguiremos restituir à poesia o vasto espaço que lhe vão abrindo em cada época,

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O Amor entre o Trigo

Cheguei ao acampamento dos Hern√°ndez antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solit√°ria pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.
A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto,

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