Cita√ß√Ķes sobre Roupas

130 resultados
Frases sobre roupas, poemas sobre roupas e outras cita√ß√Ķes sobre roupas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Todos Somos Escravos

N√£o h√° raz√£o, caro Luc√≠lio, para s√≥ buscares amigos no foro ou no senado: se olhares com aten√ß√£o encontr√°-los-√°s em tua casa. Muitas vezes um bom material permanece inutilizado por falta de quem o trabalhe. Tenta, pois, e v√™ o resultado. Tal como √© estupidez comprar um cavalo inspeccionando, n√£o o animal, mas sim a sela e o freio, assim √© o c√ļmulo da estupidez julgar um homem pela roupa ou pela condi√ß√£o social, que, de resto, √© t√£o exterior a n√≥s como a roupa. ¬ę√Č um escravo¬Ľ. Mas pode ter alma de homem livre. ¬ę√Č um escravo¬Ľ. Mas em que √© que isso o diminui? Aponta-me algu√©m que o n√£o seja: este √© escravo da sensualidade, aquele da avareza, aquele outro da ambi√ß√£o, todos s√£o escravos da esperan√ßa, todos o s√£o do medo.
Posso mostrar-te um antigo c√īnsul sujeito ao mando de uma velhota, um ricalha√ßo submetido a uma criadita, posso apontar-te jovens filhos de nobil√≠ssimas fam√≠lias que se fazem escravos de bailarinos: nenhuma servid√£o √© mais degradante do que a voluntariamente assumida. A√≠ tens a raz√£o por que n√£o deves deixar que os nossos tolos te impe√ßam de seres agrad√°vel para com os teus escravos, em vez de os tratares com altiva superioridade.

Continue lendo…

As mulheres que n√£o s√£o vaidosas na sua roupa de vestir s√£o vaidosas de n√£o serem vaidosas na sua roupa de vestir.

A Satisfação do Trabalho

Para não sofrer, trabalha. Sempre que puderes diminuir o teu tédio ou o teu sofrimento pelo trabalho, trabalha sem pensar. Parece simples à primeira vista. Eis um exemplo trivial: saí de casa e sinto que as roupas me incomodam, mas com a preguiça de voltar atrás e mudar de roupa continuo a caminhar. Existem contudo muitos outros exemplos. Se se aplicasse esta determinação tanto às coisas banais da existência como às coisas importantes, comunicar-se-ia à alma um fundo e um equilíbrio que constituem o estado mais propício para repelir o tédio.
Sentir que fazemos o que devemos fazer aumenta a considera√ß√£o que temos por n√≥s pr√≥prios; desfrutamos, √† falta de outros motivos de contentamento, do primeiro dos prazeres – o de estar contente consigo mesmo… √Č enorme a satisfa√ß√£o de um homem que trabalhou e que aproveitou convenientemente o seu dia. Quando me encontro nesse estado, gozo depois, deliciadamente, com o repouso e os mais pequenos lazeres. Posso mesmo encontrar-me no meio das pessoas mais aborrecidas, sem o menor desagrado; a recorda√ß√£o do trabalho feito n√£o me abandona e preserva-me do aborrecimento e da tristeza.

Tango do Vi√ļvo

Tive dificuldades na minha vida privada. A doce Josie Bliss foi-se convencendo e apaixonando at√© adoecer de ci√ļmes. Se n√£o fosse isso, talvez tivesse continuado indefinidamente ao lado dela. Enterneciam-me os seus p√©s nus, as brancas flores que lhe brilhavam na cabeleira negra. Mas o seu temperamento levava-a at√© paroxismos selvagens. Tinha ci√ļmes e avers√£o √†s cartas que me chegavam de longe; escondia-me os telegramas sem os abrir, olhava com rancor o ar que eu respirava.

Por vezes acordava-me uma luz, um fantasma que se movia por detr√°s da rede do mosquiteiro. Era ela, vestida de branco, brandindo o seu longo e afiado punhal ind√≠gena. Era ela, rondando-me a cama horas inteiras sem se decidir a matar-me. ¬ęQuando morreres, acabar√£o os meus receios¬Ľ, dizia-me. No dia seguinte realizava misteriosos ritos para garantir a minha fidelidade.

Acabaria por me matar. Por sorte, recebi uma mensagem oficial participando-me que fora transferido para Ceilão. Preparei a minha viagem em segredo e um dia, abandonando a minha roupa e os meus livros, saí de casa como de costume e entrei no barco que me levaria para longe.

Deixava Josie Bliss, espécie de pantera birmanesa, na maior dor. Mal o barco começou a mover-se sobre as ondas do golfo de Bengala,

Continue lendo…

Se Queres Ser Feliz Abdica da Inteligência

Os tolos s√£o felizes; eu se fosse casado eliminava os tolos da minha casa. Cada cidad√£o, que me fosse apresentado, n√£o poderia s√™-lo, sem exibir o diploma de s√≥cio da academia real das ci√™ncias. Olha, crian√ßa, decora estas duas verdades que o Balzac n√£o menciona na ¬ęFisiologia do Casamento¬Ľ. Um erudito, ao p√© da tua mulher, fala-lhe na civiliza√ß√£o grega, na decad√™ncia do imp√©rio romano, em economia politica, em direito publico, e at√© em qu√≠mica aplicada ao extracto do esp√≠rito de rosas. Confessa que tudo isto o maior mal que pode fazer √† tua mulher √© adormec√™-la. O tolo n√£o √© assim. Como ignora e desdenha a ci√™ncia, dispara √† queima roupa na tua pobre mulher quantos galanteios importou de Paris, que s√£o originais em Portugal, porque s√£o ditos num idioma que n√£o √© franc√™s nem portugu√™s.

Tua mulher, se tem a infelicidade de não ter em ti um marido doce e meigo, começa a comparar-te com o tolo, que a lisonjeia, e acha que o tolo tem muito juízo. Concedido juízo ao tolo, concede-se-lhe razão; concedida a razão, concede-se-lhe tudo. Ora aí tens porque eu antes queria ao pé de minha mulher o padre José Agostinho de Macedo,

Continue lendo…

Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
Subidas.
Havia duas pris√Ķes. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!

“Mas aqui”, dizia o revisor e ria baixinho como um afectado
“aqui sentam-se os pol√≠ticos”. Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.

A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos depois, peguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei ?

Tradução por Luís Costa

l√Ęmpada votiva

1. teve longa agonia a minha m√£e

teve longa agonia a minha m√£e:
seu ser tornou-se um puro sofrimento
e a sua voz apenas um lamento
sombrio e lancinante, mas ninguém

podia fazer nada, era novembro,
levou-a o sol da tarde quando a face
lhe serenou, foi como se acordasse
outra espessura dela em mim. relembro

sombras e risos, coisas pequenas, nadas,
e horas graves da inf√Ęncia e idade adulta
que este silêncio oculta e desoculta
nessas pobres fei√ß√Ķes desfiguradas.

quanta canção perdida se procura,
quanta encontrada em l√°grimas murmura.

2. e n√£o queria ser vista e foi envolta

e n√£o queria ser vista e foi envolta
num lençol branco em suas dobras leves,
pus junto dela algumas rosas breves
e a lembrança represa ficou solta

e foi à desfilada. De repente,
a minha m√£e j√° n√£o estava morta:
era o vulto que à noite se recorta
na luz do corredor, se est√° doente

algum de nós, a mão que pousa e traz
algum sossego à fronte,

Continue lendo…

Ser Turista é Fugir da Responsabilidade

Ser turista √© fugir da responsabilidade. Os erros e os defeitos n√£o se colam em n√≥s como em casa. Somos capazes de vaguear por continentes e l√≠nguas, suspendendo a actividade do pensamento l√≥gico. O turismo √© a marcha da imbecilidade. Contam que sejamos imbecis. Todo o mecanismo do pa√≠s hospedeiro est√° adaptado aos viajantes que se comportam de um modo imbecil. Andamos √†s voltas, aturdidos, olhando de esguelha para mapas desdobrados. N√£o sabemos falar com as pessoas, ir a lado nenhum, quanto vale o dinheiro, que horas s√£o, o que comer ou como o comer. Ser-se imbecil √© o padr√£o, o n√≠vel e a norma. Podemos continuar a viver nestas condi√ß√Ķes durante semanas e meses, sem censuras nem consequ√™ncias terr√≠veis. Tal como a outros milhares, s√£o-nos concedidas imunidades e amplas liberdades. Somos um ex√©rcito de loucos, usando roupas de poliester de cores vivas, montando camelos, tirando fotografias uns aos outros, fatigados, desint√©ricos, sedentos. N√£o temos mais nada em que pensar sen√£o no pr√≥ximo acontecimento informe.

Em verdade, da felicidade que al√ßa voo √† custa da mis√©ria eu n√£o quero. Uma riqueza que priva algu√©m de alguma coisa, eu n√£o quero… Se minha roupa desnuda outrem, andarei nu.

Neblina

Um dedo a bordo aponta
a neblina sentada, sustentada
sobre o topo do monte.

O céu está todo azul, com excepção
daqueles trapos brancos, como roupa
de alguém que passou por uma planta
com espinhos e n√£o se acautelou.

√Č uma esp√©cie de √°gua altaneira,
evadida do rio,
que ora entremostra ora esconde
fragadas, pinhal, terra
arroteada.

Sim, concedo,
é muito sugestivo.

Mas, cansado de pairar
nestes transes de lirismo
que me escaldam sem me purificar,
prefiro a √°gua propriamente dita:
√°gua com peso,
esta boa água, sólida, palpável,
que, poupando-me a pele,
me humedece as entranhas
(para n√£o falar dos olhos,
mas isso é outra história)

Рe à flor da qual se repete
a neblina do monte.

Ou n√£o fosse o rio um espelho
antes de rio.

Soneto da Nudez

H√° um misto de azul e trevas agitadas
Nesse felino olhar de l√ļbrica bacante.
Quando lhe cai aos pés a roupa flutuante,
Contemplo, mudo e absorto, as formas recatadas.

Nessa mulher esplende um poema deslumbrante
De vol√ļpia e langor; em noites tresloucadas
Que suave não é nas rosas perfumadas
De seus l√°bios beber o aroma inebriante!

Fascina, quando a vejo à noite seminua,
Postas as m√£os no seio, onde o desejo estua,
A boca descerrada, amortecido o olhar…

Fascina, mas sua alma é lodo, onde não pousa
Um raio dessa aurora, o amor, sublime cousa!
Raio de luz perdido em tormentoso mar!

N√£o H√° Amor como o Primeiro

N√£o h√° amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, h√° o equivalente adulto ao primeiro amor ‚ÄĒ √© o primeiro casamento; mas n√£o √© igual. O primeiro amor √© uma chapada, um sacudir das ra√≠zes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e n√£o nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as √≥rbitas dos olhos, do impens√°vel calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde salt√°mos. Saltamos e ca√≠mos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer tr√™s ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na √°gua ou no ch√£o, como patos disparados de um obus, com penas a esvoa√ßar por toda a parte.

H√° amores melhores, mas s√£o amores cansados, amores que j√° levaram na cabe√ßa, amores que sabem dizer ‚ÄúAlto-e-p√°ra-o-baile‚ÄĚ, amores que j√° d√£o o desconto, amores que j√° t√™m medo de se magoarem, amores democr√°ticos, que se discutem e debatem. E todos os amores d√£o maior prazer que o primeiro. O primeiro amor est√° para al√©m das categorias normais da dor e do prazer. N√£o faz sentido sequer.

Continue lendo…

Contente Est√° Quem Assim se Julga de si Mesmo

A abastan√ßa e a indig√™ncia dependem da opini√£o de cada um; e a riqueza n√£o mais do que a gl√≥ria, do que a sa√ļde t√™m tanto de beleza e de prazer quanto lhes atribui quem as possui. Cada qual est√° bem ou mal conforme assim se achar. Contente est√° n√£o quem assim julgamos, mas quem assim julga de si mesmo. E apenas com isso a cren√ßa assume ess√™ncia e verdade.
A fortuna n√£o nos faz nem bem nem mal: somente nos oferece a mat√©ria e a semente de ambos, que a nossa alma, mais poderosa que ela, transforma e aplica como lhe apraz – causa √ļnica e senhora da sua condi√ß√£o feliz ou infeliz.
Os acréscimos externos tomam a cor e o sabor da constituição interna, como as roupas que nos aquecem não com o calor delas e sim com o nosso, que a elas cabe proteger e alimentar; quem abrigasse um corpo frio prestaria o mesmo serviço para a frialdade: assim se conservam a neve e o gelo.
√Č certo que, exactamente como o estudo serve de tormento para um pregui√ßoso, a abstin√™ncia do vinho para um alco√≥latra, a frugalidade √© supl√≠cio para o luxorioso e o exerc√≠cio incomoda um homem delicado e ocioso;

Continue lendo…