Textos sobre Verdade de Immanuel Kant

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Textos de verdade de Immanuel Kant. Leia este e outros textos de Immanuel Kant em Poetris.

A Caridade como Dever

Ser caritativo quando se pode s√™-lo √© um dever, e h√° al√©m disso muitas almas de disposi√ß√£o t√£o compassiva que, mesmo sem nenhum outro motivo de vaidade ou interesse, acham √≠ntimo prazer em espalhar alegria √† sua volta e se podem alegrar com o contentamento dos outros, enquanto este √© obra sua. Eu afirmo por√©m que neste caso uma tal ac√ß√£o, por conforme ao dever, por am√°vel que ela seja, n√£o tem contudo nenhum verdadeiro valor moral, mas vai emparelhar com outras inclina√ß√Ķes, por exemplo o amor das honras que, quando por feliz acaso topa aquilo que efectivamente √© de interesse geral e conforme ao dever, √© consequentemente honroso e merece louvor e est√≠mulo, mas n√£o estima; pois √† sua m√°xima falta o conte√ļdo moral que manda que tais ac√ß√Ķes se pratiquem, n√£o por inclina√ß√£o, mas por dever.
Admitindo pois que o √Ęnimo desse filantropo estivesse velado pelo desgosto pessoal que apaga toda a compaix√£o pela sorte alheia, e que ele continuasse a ter a possibilidade de fazer bem aos desgra√ßados, mas que a desgra√ßa alheia o n√£o tocava porque estava bastante ocupado com a sua pr√≥pria; se agora, que nenhuma inclina√ß√£o o estimula j√°, ele se arrancasse a esta mortal insensibilidade e praticasse a ac√ß√£o sem qualquer inclina√ß√£o,

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O Campo da Experiência Nunca nos Satisfaz

Sendo todos os princ√≠pios do nosso entendimento apenas aplic√°veis a objectos da experi√™ncia poss√≠vel, toma-se evidente que todo racioc√≠nio racional, que se aplica √†s coisas situadas fora das condi√ß√Ķes da experi√™ncia, ao inv√©s de alcan√ßar a verdade, apenas deve necessariamente chegar a uma apar√™ncia e a uma ilus√£o.
Mas o que caracteriza tal ilus√£o √© que ela √© inevit√°vel (‚Ķ) a tal ponto que, mesmo quando j√° nos apercebemos da sua falsidade, nos n√£o podemos libertar dela. (…) De facto, o campo da experi√™ncia nunca nos satisfaz. (…) A nossa raz√£o, para se satisfazer, deve, pois, necessariamente, tentar ultrapassar os limites da experi√™ncia e, por consequ√™ncia, persuadir-se infalivelmente de que por esse caminho alcan√ßar√° a extens√£o e a integralidade dos seus conhecimentos, coisa que ela n√£o pode encontrar no campo dos fen√≥menos. Mas esta persuas√£o √© uma ilus√£o completa: estando totalmente para al√©m dos limites da nossa experi√™ncia sens√≠vel todos os conceitos e princ√≠pios do entendimento, e n√£o podendo ent√£o ser aplicados a qualquer objecto, a raz√£o ilude-se a si mesma quando atribui um valor objectivo a m√°ximas completamente subjectivas, que, na realidade, apenas admite para sua pr√≥pria satisfa√ß√£o.
(…) Todos os nossos racioc√≠nios que pretendem sair do campo da experi√™ncia s√£o ilus√≥rios e infundamentados.

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O Limite da Lógica

O crit√©rio simplesmente l√≥gico da verdade, isto √©, o acordo de um conhecimento com as leis gerais e formais do entendimento e da raz√£o, √©, decerto, a condition sine qua non e, portanto, a condi√ß√£o negativa de qualquer verdade; mas a l√≥gica n√£o pode ir mais al√©m; nenhuma pedra de toque lhe permite descobrir o erro que atinge n√£o a forma, mas o conte√ļdo.

A Razão é Contrária à Felicidade

Quanto mais uma razão cultivada se consagra ao gozo da vida e da felicidade, tanto mais o homem se afasta do verdadeiro contentamento; e daí provém que em muitas pessoas, e nomeadamente nas mais experimentadas no uso da razão, se elas quiserem ter a sinceridade de o confessar, surja um certo grau de misologia, quer dizer de ódio à razão. E isto porque, uma vez feito o balanço de todas as vantagens que elas tiram, não digo já da invenção de todas as artes do luxo vulgar, mas ainda das ciências (que a elas lhes parecem no fim e ao cabo serem também um luxo do entendimento), descobrem contudo que mais se sobrecarregaram de fadigas do que ganharam em felicidade, e que por isso finalmente invejam mais do que desprezam os homens de condição inferior que estão mais próximos do puro instinto natural e não permitem à razão grande influência sobre o que fazem ou deixam de fazer. E até aqui temos de confessar que o juízo daqueles que diminuem e mesmo reduzem a menos de zero os louvores pomposos das vantagens que a razão nos teria trazido no tocante à felicidade e ao contentamento da vida, não é de forma alguma mal-humorado ou ingrato para com a vontade do governo do mundo,

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A Necessidade da Metafísica

A raz√£o humana tem este destino singular, numa parte dos seus conhecimentos, de sucumbir ao peso de certas quest√Ķes que n√£o pode evitar. Com efeito, tais quest√Ķes imp√Ķem-se √† raz√£o devido √† sua mesma natureza, mas ela n√£o pode responder-lhes porque de todo ultrapassam a sua capacidade.
N√£o devemos contar que o esp√≠rito humano renuncie um dia por completo √†s indaga√ß√Ķes metaf√≠sicas: seria o mesmo que aguardar que, em vez de respirar sempre um ar viciado, suspend√™ssemos um belo dia a respira√ß√£o. Por conseguinte, haver√° sempre no mundo, ou, melhor, em todo homem, sobretudo se ele reflecte, uma metaf√≠sica, que, na aus√™ncia de uma norma comum, cada qual talhar√° a seu grado; ora o que at√© aqui se tem denominado metaf√≠sica n√£o pode satisfazer nenhum esp√≠rito reflectido, mas renunciar a ela por completo √© tamb√©m imposs√≠vel; √© necess√°rio, pois, empreender enfim uma cr√≠tica da raz√£o pura em si, ou, se alguma existe, perscrut√°-la e examin√°-la em conjunto; na verdade, n√£o h√° outro meio de satisfazer esta exig√™ncia imperiosa, que √© coisa muito diferente de um simples desejo de saber.