Cita√ß√Ķes sobre Azeitonas

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Frases sobre azeitonas, poemas sobre azeitonas e outras cita√ß√Ķes sobre azeitonas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Palavra

…Tudo o que voc√™ quiser, sim senhor, mas s√£o as palavras que cantam, que sobem e descem… Prosterno-me diante delas… Amo–as, abra√ßo-as, persigo-as, mordo-as, derreto-as… Amo tanto as palavras… As inesperadas… As que glutonamente se amontoam, se espreitam, at√© que de s√ļbito caem… Voc√°bulos amados… Brilham como pedras de cores, saltam como irisados peixes, s√£o espuma, fio, metal, orvalho… Persigo algumas palavras… S√£o t√£o belas que quero p√ī-las a todas no meu poema… Agarro-as em voo, quando andam a adejar, e ca√ßo-as, limpo-as, descasco-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, eb√ļrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como √°gatas, como azeitonas… E ent√£o revolvo-as, agito-as, bebo-as, trago-as, trituro-as, alindo-as, liberto-as… Deixo-as como estalactites no meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carv√£o, como restos de naufr√°gio, presentes das ondas… Tudo est√° na palavra… Uma ideia inteira altera-se porque uma palavra mudou de lugar, ou porque outra se sentou como um reizinho dentro de uma frase que n√£o a esperava, nas que lhe obedeceu… Elas t√™m sombra, transpar√™ncia, peso, penas, p√™los, t√™m de tudo quanto se lhes foi agregando de tanto rolar pelo rio, de tanto transmigrar de p√°tria, de tanto serem ra√≠zes… S√£o antiqu√≠ssimas e recent√≠ssimas… Vivem no f√©retro escondido e na flor que desponta…

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As M√£es

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto Рnão sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catania, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias,

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Num Bairro Moderno

Dez horas da manh√£; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.

Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama do papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida f√°cil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho da horta aglomerada
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a.
P√īs-se de p√©, ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algod√£o azul da meia,
Se ela se curva, esguelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
“Se te conv√©m, despacha; n√£o converses.
Eu n√£o dou mais.” √ą muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

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As Coisas Humanas São Efémeras E Sem Valor

Pensa de cont√≠nuo em quantos m√©dicos morreram, eles que tinham tanta vez carregado o sobrolho √† cabeceira dos seus doentes; quantos astr√≥logos que julgaram maravilhar os outros predizendo-lhes a morte; quantos fil√≥sofos ap√≥s uma infinidade de √°speras disputas sobre a morte e a imortalidade; quantos pr√≠ncipes depois de terem dado a morte a tanta gente; quantos tiranos que, como se fossem imortais, abusaram, com uma arrog√Ęncia nunca vista, do poder, a ponto de atentarem contra a vida humana. Quantas cidades, se assim podemos dizer, morreram de raiz: Heliqu√©, Pompeia, Herculano, e outras que n√£o t√™m conto! Enumera agora, um ap√≥s outro todos aqueles que conheceste. Este, depois de prestar os √ļltimos servi√ßos √†quele, foi posto de p√©s juntos no leito f√ļnebre por um terceiro a quem tamb√©m chegou a sua vez.
E em t√£o pouco espa√ßo de tempo! Em suma, as coisas humanas √© consider√°-las como ef√©meras e sem valor: ontem, um pouco de greda; amanh√£, m√ļmia e um punhado de cinzas. Esta min√ļscula dura√ß√£o vive-a a tom com a natureza e chega ao fim com a alma contente: como a azeitona madurinha que tombasse aben√ßoando a terra que a criou e dando gra√ßas √† √°rvore que a deixou crescer.

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Impossível

Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham com fórmulas legais,
Unir as nossas m√£os, eternamente,
As m√£os sacerdotais.

Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palp√°-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.

Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, pra dar fé,
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de crochet.

Posso sentir-te em fogo, escandescida,
De faces cor-de-rosa e vermelh√£o,
Junto a mim, com langor, entredormida,
Nas noites de ver√£o.

Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.

Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque

E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande loteria que passou,
Da boa, da espanhola,

Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confort√°veis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,

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Ao Longo da Escrita deste Livro

No ano passado, em outubro, talvez a 27, sei que foi a uma ter√ßa-feira, a minha m√£e incentivou-me a dar um passeio. H√° muito que desistiu de me dissuadir dos livros, tanto l√™s que tresl√™s, mas mant√©m o h√°bito de, cuidadosa, depois de bater √† porta com pouca for√ßa, entrar no meu quarto e perguntar: n√£o te apetece dar um passeio? Na maioria das vezes, n√£o tenho disposi√ß√£o para lhe responder mas, nessa tarde, estava a meio de um cap√≠tulo altru√≠sta e decidi fazer-lhe a vontade. O volante do carro, as minhas m√£os a sentirem todas as pedras quase como se estivesse a desliz√°-las na estrada. Estacionei no campo, a pouca dist√Ęncia de um grupo de homens e mulheres, botas de borracha, que estavam a apanhar azeitona. Espalhavam uma gritaria animada que n√£o se alterou quando sa√≠ do carro e me aproximei, boa tarde. Uma vantagem do meu nome √© que dispenso alcunha. Olha o Livro, boa tarde. O sol estava a p√īr-se. Troquei gra√ßas, enquanto dois homens recolheram os pan√Ķes carregados debaixo da √ļltima oliveira e os levaram √†s costas.
N√£o esque√ßo o que vi a seguir. As mulheres dobraram os pan√Ķes vazios e dispuseram-nos na terra, em forma de corredor.

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