Poemas sobre Espécies

31 resultados
Poemas de espécies escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Labirinto ou Alguns Lugares de Amor

O outono
por assim dizer
pois era ver√£o
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras m√£os que lentas barcas
vai-se aproximando a √°gua

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
t√£o fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
e é branco

Deixai a Vida aos Crentes Mais Antigos

Vós que, crentes em Cristos e Marias,
Turvais da minha fonte as claras √°guas
Só para me dizerdes
Que há águas de outra espécie

Banhando prados com melhores horas
Dessas outras regi√Ķes pra que falar-me
Se estas √°guas e prados
S√£o de aqui e me agradam?

Esta realidade os deuses deram
E para bem real a deram externa.
Que ser√£o os meus sonhos
Mais que a obra dos deuses?

Deixai-me a Realidade do momento
E os meus deuses tranq√ľilos e imediatos
Que n√£o moram no Vago
Mas nos campos e rios.

Deixai-me a vida ir-se pag√£mente
Acompanhada pelas avenas tênues
Com que os juncos das margens
Se confessam de P√£.

Vivei nos vossos sonhos e deixai-me
O altar imortal onde é meu culto
E a visível presença
Os meus próximos deuses.

In√ļteis procos do melhor que a vida,
Deixai a vida aos crentes mais antigos
Que a Cristo e a sua cruz
E Maria chorando.

Ceres, dona dos campos, me console
E Apolo e Vênus,

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Neblina

Um dedo a bordo aponta
a neblina sentada, sustentada
sobre o topo do monte.

O céu está todo azul, com excepção
daqueles trapos brancos, como roupa
de alguém que passou por uma planta
com espinhos e n√£o se acautelou.

√Č uma esp√©cie de √°gua altaneira,
evadida do rio,
que ora entremostra ora esconde
fragadas, pinhal, terra
arroteada.

Sim, concedo,
é muito sugestivo.

Mas, cansado de pairar
nestes transes de lirismo
que me escaldam sem me purificar,
prefiro a √°gua propriamente dita:
√°gua com peso,
esta boa água, sólida, palpável,
que, poupando-me a pele,
me humedece as entranhas
(para n√£o falar dos olhos,
mas isso é outra história)

Рe à flor da qual se repete
a neblina do monte.

Ou n√£o fosse o rio um espelho
antes de rio.

Lisboa

Lisboa com suas casas
De v√°rias cores,
Lisboa com suas casas
De v√°rias cores,
Lisboa com suas casas
De v√°rias cores…
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez in√ļtil de n√£o poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque h√° sono,
E, porque h√° sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fant√°sticos,
Mas n√£o vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De v√°rias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De v√°rias cores.

Dentes

Os dentes, porque s√£o dentes,
iniciais. Na espuma,
porque n√£o s√£o saliva
estas ondas
pouco mordentes; este
sal que sobe quase
doce; donde?

Numa espécie
de fogo: amor é fogo
que arde sem se ver;
porque não é
de facto fogo este frio aceso;
da saliva à lava
passa pela espuma.

Só os dentes.
Duros, √°cidos, concentram-se
tacteando a pele,
tatuando signos sempre
moventes
de f√ļria. Mordida
a pele cintila; espelho
dos dentes, do seu esmalte voraz;
suavemente.

Que Noite Serena!

Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Suave, todo o passado ‚ÄĒ o que foi aqui de Lisboa ‚ÄĒ me surge…
O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A inf√Ęncia sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.

Meu Deus, que fiz eu da vida?

Que noite serena, etc.

Quem é que cantava isso?
Isso estava l√°.
Lembro-me mas esqueço.
E d√≥i, d√≥i, d√≥i…

Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.

Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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A Noite de Pavese

Raras vezes me franquearam a porta
e me deixaram entrar. A febre
sitia-me a alma e quem me vê
assusta-se do aspecto do meu rosto,
esta barba por fazer onde um rouxinol
se esconde. E mais ainda assusta
a minha altura, este lugar de vertigem
e palavras poderosas, a presença
de ilimitados segredos que ninguém quer conhecer,
o estremecimento que corre nos meus ombros.
Embora nada peça, sabem que sou um pedinte.
E quando entro nas casas os meus gestos
afeiçoam-se a alguma coisa enigmática
que contorna o pavor e o entrega
por não se saber que espécie de vida ou de morte
vem comigo. Obviamente, eu abençoo
quem me deixa entrar, dou a entender
que alguma coisa brilha nas minhas m√£os
e posso matar a fome com uma ou outra palavra
próxima do amor, um dedo nos cabelos
de quem me recebe. Subi as escadas que v√£o dar a esta casa
em silêncio e em silêncio aceitei que me aguardassem
com as inef√°veis sombras que vejo nos outros
e tento decifrar para meu contentamento.
Mandaram-me sentar e deram-me de beber.

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O Único Mistério do Universo é o Mais e não o Menos

No dia brancamente nublado entristeço quase a medo
E ponho-me a meditar nos problemas que finjo…

Se o homem fosse, como deveria ser,
N√£o um animal doente, mas o mais perfeito dos animais,
Animal directo e n√£o indirecto,
Devia ser outra a sua forma de encontrar um sentido às coisas,
Outra e verdadeira.
Devia haver adquirido um sentido do ¬ęconjunto¬Ľ;
Um sentido, como ver e ouvir, do ¬ętotal¬Ľ das coisas
E n√£o, como temos, um pensamento do ¬ęconjunto¬Ľ;
E n√£o, como temos, uma ideia do ¬ętotal¬Ľ das coisas.
E assim Рveríamos Рnão teríamos noção de conjunto ou de total,
Porque o sentido de ¬ętotal¬Ľ ou de ¬ęconjunto¬Ľ n√£o seria de um ¬ętotal¬Ľ ou de um ¬ęconjunto¬Ľ
Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes.

O √ļnico mist√©rio do Universo √© o mais e n√£o o menos.
Percebemos demais as coisas – eis o erro e a d√ļvida.
O que existe transcende para baixo o que julgamos que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.
O Universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.

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Inscrição

Quem se deleita em tornar minha vida impossível
por todos os lados?
Certamente est√°s rindo de longe,
ó encoberto adversário!

Mas a minha paciência é mais firme
que todas as sanhas da sorte:
mais longa que a vida, mais clara
que a luz no horizonte.

Passeio no gume de estradas t√£o graves
que afligem o próprio inimigo.
A mim, que me importam espécies de instantes,
se existo infinita?

Exausto

Eu quero uma licença de dormir,
perd√£o pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

N√£o, n√£o √© Cansa√ßo…

N√£o, n√£o √© cansa√ßo…
√Č uma quantidade de desilus√£o
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo…

N√£o, cansa√ßo n√£o √©…
√Č eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
√Č uma sensa√ß√£o abstrata
Da vida concreta ‚ÄĒ
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma ang√ļstia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como…
Sim, ou por sofrer como…
Isso mesmo, como…

Como qu√™?…
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formid√°vel realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: √© cansa√ßo!…

Vis√£o Dezasseis

Deixando nele marcas como se estivesse dentro
de um círculo de fogo. Ou como um assassino
emparedado na cal a quem lançassem musgo
até à morte. Há ali um espaço solto, o sítio onde
os p√°ssaros devoram os peixes. E uma zona escura
com um manto redondo tapando a luz, uma espécie
de cegueira em cujo centro existe um castanheiro
e uma caixa vazia. Um papel voa, desliza junto
a um muro e √© da√≠ que a m√ļsica se espalha presa a
um fio de cobre. √Č nesse momento que a imagem
dela se forma e se despedaça. O seu corpo
é agora o vento.

Esta Espécie de Loucura

Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confus√£o do pensamento,

N√£o me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haver√°
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim n√£o sei o que h√°

Às Vezes Entre a Tormenta

Às vezes entre a tormenta,
quando j√° umedeceu,
raia uma nesga no céu,
com que a alma se alimenta.

E às vezes entre o torpor
que não é tormenta da alma,
raia uma espécie de calma
que n√£o conhece o langor.

E, quer num quer noutro caso,
como o mal feito est√° feito,
restam os versos que deito,
vinho no copo do acaso.

Porque verdadeiramente
sentir é tão complicado
que só andando enganado
é que se crê que se sente.

Sofremos? Os versos pecam.
Mentimos? Os versos falham.
E tudo é chuvas que orvalham
folhas caídas que secam.

Existir é Ser Possível Haver Ser

Ah, perante esta √ļnica realidade, que √© o mist√©rio,
Perante esta √ļnica realidade terr√≠vel ‚ÄĒ a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
‚ÄĒ Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
N√£o, n√£o se empequena… se transforma em outra coisa ‚ÄĒ
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
‚ÄĒAquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,

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Sou Eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto n√£o fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto n√£o quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impress√£o, um pouco inconseq√ľente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impress√£o, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

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Ode Triunfal

√Ä dolorosa luz das grandes l√Ęmpadas el√©ctricas da f√°brica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

√ď rodas, √≥ engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em f√ļria!
Em f√ļria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De express√£o de todas as minhas sensa√ß√Ķes,
Com um excesso contempor√Ęneo de v√≥s, √≥ m√°quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes tr√≥picos humanos de ferro e fogo e for√ßa –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

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Namorados do Mirante

Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas s√ļbitas est√°tuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
A Remontavam √†s origens ‚ÄĒ a realidade
Neles se fez, de subst√Ęncia, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da esp√©cie ‚ÄĒ tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milénios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas gal√°xias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o sil√™ncio…

Estou L√ļcido como se Nunca Tivesse Pensado

A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou l√ļcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m’aproximo das estrelas ou constela√ß√Ķes distantes ‚ÄĒ
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me.