Poemas sobre Podres

11 resultados
Poemas de podres escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Abertura

Eu abria o r√°dio
eu abria o aparelho
era uma flor branca que eu abria
de sopro
eu soprava e eu abria a flor
A flor tocava m√ļsica com as v√°rias m√£os
das pétalas
A flor tocava uma simbolização dum tempo
caído podre de espera de cor branca
O tempo espera-se em pintar-se
de branco
para cegar uma cor
mas a minha flor abria-se de
pétalas
e as v√°rias m√£os escreviam um
piano por cima de teclas gr√£os v√°rios
seguidos uns aos outros.
Era assim uma harmonia
entre flor
tempo a querer-se de cor branca em cegar
era assim umas teclas cantarem filhos de gr√£os
por dentro dos gr√£os mesmos
unidos que eram em dimens√£o de lado
era assim um cantar-me o tempo todo
n√£o era assim um cantar-me o tempo todo
era assim um pairar-me
o tempo todo em Nijinsky
o tempo em um fazer-me ballet pelo quarto inteiro
quando eu tinha aberta a cabeça que imagino
da m√ļsica
Abria a pétala favorita do harém
onde no centro um sult√£o da flor
no centro que era o amarelo da flor
abria a pétala favorita da flor
e ent√£o
e era ent√£o que me soava dentro da manh√£
do quarto
uma m√ļsica desfibrada de tempo ser√īdio
como se tudo me fosse em longe
como se a m√ļsica levasse longe
o céu.

Continue lendo…

O Corpo Insurrecto

Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem),

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas réstias mais íntimas,
as gl√Ęndulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aqu√°ticas
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar, h√° ainda um outro
corpo incluído,
mas um corpo aquém
de ser s√£o ou podre,
um repuxo, um magma,
subst√Ęncia solta,
com pulm√Ķes.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o p√Ķem em pr√°tica
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,

Continue lendo…

Quarenta Anos

a Carlos Nejar

Sinto a velhice em mim oculta e rude
em meio ao sol e ao riso da manh√£,
nesse engano das horas, nessa v√£
esperança de eterna juventude
que se desfaz de mim, e sou maça
mordida, podre, e rio e n√£o me ilude
esse carinho, essa algazarra. O alude
dentro de mim começa. Mesmo sã,
a estrutura se abala em sombra e ruga
e os caminhos só descem, pesa o fardo,
e entre cinzas de mim, alheio, ardo,
de um fogo j√° morrente em sua fuga.

Mesquinho embora, curvo e pungitivo,
meu corpo vibra e se deseja vivo.

O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

Continue lendo…

Poema da malta das naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gib√£o.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a m√£o esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no ch√£o, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
N√£o se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

Continue lendo…

Antes que Seja Tarde

Amigo,
tu que choras uma ang√ļstia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as √°guas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solit√°rio
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu √©s o √ļnico habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dar√°
e esse ar de ren√ļncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

S√°tira

Besta e mais besta! O positivo √© nada…
(Perdoa, se em gram√°tica te falo,
Arte que ignoras, como ignoras tudo.)
Besta e mais besta! Na palavra embirro;
Que a besta anexa ao mais teu ser define.

D√°s-me louvor servil na voz do prelo,
Grande me crês, proclamas-me famoso,
Excelso, transcendente, incompar√°vel,
Confessas que d’Elmano a f√ļria temes…
E, débil estorninho, águias provocas,
Aves de Jove, que o corisco empunham!

√Čs de r√°bula vil corrupta imagem;
Tu vendes o louvor, como ele as partes,
Mas ele na enxovia inf√Ęmias paga,
E tu, com t√ļstios, que aos caloiros pilhas,
Compras gravatas, em que a tromba enorme
Sumas ao dia, que de a ver se embrusca,
Qual em tenra m√£ozinha esconde a face
Mimoso infante de pap√Ķes vexado.
√ötil descuido aos c√°rceres te furta,
À digna habitação de ti saudosa
(Digo, o Castelo), est√Ęncia equivalente
Aos méritos morais, que em ti reluzem.

De saloios vinténs larápio sujo,
A glória do teu ódio restitui
A quem no teu louvor desacreditas.
Se honrada pelos s√°bios d’Ulisseia
(D’Ulisseia n√£o s√≥,

Continue lendo…

Enterro de Luxo

L√° vai o enterro de luxo
puxado por sete cavalos
l√° vai a rosa de pl√°stico
na lapela do cad√°ver.

L√° vai o defunto imberbe
boiando em madeira nobre
lá vai a língua bilingue
com seu sotaque podre.

L√° vai o queixo amarrado
lá vai a gravata oblíqua
montada na escorreguenta
garupa da metafísica.

L√° vai o enterro de luxo
l√° vai a conta banc√°ria
l√° vai a calva engomada
l√° vai o ouro da c√°rie.

L√° vai o enterro de luxo
levado por ventos negros
l√° v√£o os pend√Ķes de luto
com seus narizes alegres.

L√° vai o enterro de luxo
l√° vai o perfil de √°rabe
tangido pra correnteza
vol√ļvel da eternidade.

Os Amantes

Amor, é falso o que dizes;
Teu bom rosto é contrafeito;
Busca novos infelizes
Que eu inda trago no peito
Mui frescas as cicatrizes;

O teu meu é mel azedo,
N√£o creio em teu gasalhado,
Mostras-me em v√£o rosto ledo;
J√° estou muito escaldado,
J√° d’√°guas frias hei medo.

Teus prémios são pranto e dor;
Choro os mal gastados anos
Em que servi tal senhor,
Mas tirei dos teus enganos
O sair bom pregador.

Fartei-te assaz a vontade;
Em v√£os suspiros e queixas
Me levaste a mocidade,
E nem ao menos me deixas
Os restos da curta idade?

√Čs como os c√£es esfaimados
Que, comendo os troncos quentes
Por destro negro esfolados,
Levam nos √°vidos dentes
Os ossos ensanguentados.

Bem vejo a aljava dourada
Os ombros nus adornar-te;
Amigo, muda de estrada,
P√Ķe a mira em outra parte
Que daqui n√£o tiras nada.

Busca algum fofo morgado
Que, solto j√° dos tutores,
Ao domingo penteado,
Vá dizendo à toa amores
Pelas pias encostado;

Continue lendo…

lamento para a língua portuguesa

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
p√īr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por c√° mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.

Continue lendo…

Ser ou n√£o ser

Qualquer coisa est√° podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as m√£os trazem a marca
se os fantasmas regressam e h√° homens de joelhos
qualquer coisa est√° podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque h√° sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e n√£o ser firmeza indecis√£o.

Até quando? Até quando?

J√° de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.

Continue lendo…