Textos sobre Efeito de Vergílio Ferreira

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Textos de efeito de Vergílio Ferreira. Leia este e outros textos de Vergílio Ferreira em Poetris.

O Existencialista

Dostoievski escreveu: ¬ęSe Deus n√£o existisse, tudo seria permitido¬Ľ. A√≠ se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo √© permitido se Deus n√£o existe , fica o homem, por conseguinte , abandonado, j√° que n√£o encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, n√£o h√° desculpas para ele. Se, com efeito, a exist√™ncia precede a ess√™ncia, n√£o ser√° nunca poss√≠vel referir uma explica√ß√£o a uma natureza humana dada e imut√°vel; por outras palavras, n√£o h√° determinismo, o homem √© livre, o homem √© liberdade. Se, por outro lado, Deus n√£o existe, n√£o encontramos diante de n√≥s valores ou imposi√ß√Ķes que nos legitimem o comportamento. Assim, n√£o temos nem atr√°s de n√≥s, nem diante de n√≥s, no dom√≠nio luminoso dos valores, justifica√ß√Ķes ou desculpas. Estamos s√≥s e sem desculpas. √Č o que traduzirei dizendo que o homem est√° condenado a ser livre. Condenado, porque n√£o se criou a si pr√≥prio; e no entanto livre, porque uma vez lan√ßado ao mundo, √© respons√°vel por tudo quanto fizer. O existencialista n√£o cr√™ na for√ßa da paix√£o. N√£o pensar√° nunca que uma bela paix√£o √© uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos actos e que por conseguinte,

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N√£o Consigo Viver em Literatura

Por mais que o deseje, n√£o consigo viver em literatura. Felizes os que o conseguem. Viver em literatura √© suprimir toda a interfer√™ncia do que lhe √© exterior – desde o peso das pedradas ao das flores da ova√ß√£o. Suprimir mesmo ou sobretudo a conversa sobre ela, desde a dos jornais √† dos amigos. Fazer da literatura um meio enclausurado em que a respiremos at√© √† intoxica√ß√£o e nada dele transpire para a exterioridade. Viver a arte como uma m√≠stica, um transporte de inebriamento, uma ilumina√ß√£o da gra√ßa, uma inteira absor√ß√£o como de um v√≠cio inconfess√°vel. Viv√™-la na intimidade de uma absoluta solid√£o em que toda a amea√ßa de p√ļblico esteja ausente como numa ilha que a impossibilidade de comunica√ß√£o tornasse de facto deserta. Os rec√©m-casados isolam-se para defenderem dos outros a m√≠nima parcela da paix√£o. A vida em arte devia ser uma viagem de n√ļpcias sem retorno. S√≥ ent√£o se conheceria tudo o que a arte √© para n√≥s e a inteira verdade com que n√≥s somos para ela. Mas n√£o. H√° que viver uma vida d√ļplice entre o estar a s√≥s com ela e o permanente conv√≠vio, nem que sejam uns breves instantes √† porta com os indiferentes e os maledicentes e os curiosos e mesmo os admiradores de que se necessita na nossa inferioridade moral para nos confirmarem no bom resultado da aposta.

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Nós Trazemos na Alma uma Bomba

A causa depois do efeito. A minha tese √© esta, minha querida ‚Äď n√≥s trazemos na alma uma bomba e o problema est√° em algu√©m fazer lume para a rebentar. N√≥s escolhemos ser santos ou her√≥is ou traidores ou cobardes e assim. O problema est√° em vir a haver ou n√£o uma oportunidade para isso se manifestar. N√≥s fizemos uma escolha na eternidade. Mas quantos sabem o que escolheram? Alguns t√™m a sorte ou a desgra√ßa de algu√©m fazer lume para rebentarem o que s√£o, ver-se o que estava por baixo do que estava por cima. Mas outros v√£o para a cova na ignor√Ęncia. √Äs vezes fazem ensaios porque a press√£o interior √© muito forte. Ou passam a vida √† espera de um sinal, um ind√≠cio elucidativo. Ou passam-na sem saberem que trazem a bomba na alma que √†s vezes ainda rebenta, mesmo j√° no cemit√©rio. Ou quem diz bomba diz por exemplo uma flor para pormos num sorriso. Ou um penso para pormos num lanho. Mas n√£o sabem.

O Mais F√°cil de Resolver

De quanta imagina√ß√£o n√£o √© feita uma vida para se compensar o que se n√£o realizou! J√° todos o sabemos e nunca ningu√©m o sabe. Se fosse coisa de se saber, n√£o havia man√≠acos da droga, do fumo ou do √°lcool. Projecta-se milimetricamente uma reac√ß√£o a ter, uma ofensa a vingar, uma desconsidera√ß√£o a menosprezar, uma conquista a fazer. E sai sempre outra coisa: nem nos vingamos porque se interp√īs uma fraqueza, nem menosprez√°mos a desconsidera√ß√£o porque nos menosprezaram o nosso menosprezo, nem conquist√°mos nada porque amanh√£ √© que √©. Mas falhada a nossa reac√ß√£o, logo congeminamos de novo efectiv√°-la e com acr√©scimo de efeito. At√© que o tempo e a morte tudo decidam irremediavelmente por n√≥s. E acabamos por achar que decidiu bem, porque o mais f√°cil de resolver √© sempre o n√£o resolver.

A Solid√£o do Artista

Diz-se √†s vezes de certas pessoas, e para isso se reprovar, que t√™m dupla personalidade. Mas dupla ou m√ļltipla t√™m-na normalmente os artistas. Ela √© pelo menos a do conv√≠vio exterior e a do seu intimismo. Se trazem esta para a rua, s√£o quase sempre insuport√°veis. S√≥ se suporta o que √© de um profundo interesse, quando isso √© rent√°vel. Imagino que o capitalista tenha na sua vida √≠ntima um mundo de cifr√Ķes. Se o cifr√£o vier √† rua, tem ainda cota√ß√£o. Mas o artista? Mesmo a coisa min√ļscula da sua pequena vaidade √© irritante. Um pol√≠tico pode blasonar pimponice, que tem adeptos a aplaudir. O artista √© um condenado, com o ferrete da ignom√≠nia. O seu dever social √© ocultar a degrada√ß√£o ou ent√£o marginalizar-se. Para efeitos c√≠vicos ou mundanos, s√≥ depois de bem morto. A solid√£o √© assim o seu destino. A√≠ sofre ou tem alegrias, a√≠ obedece a um estranho mandato que lhe passaram na eternidade. Discreto, envergonhado, todo o seu esfor√ßo, no dom√≠nio das rela√ß√Ķes, √© esconder a sua mancha. Nenhum povo existe sen√£o pelo seu esp√≠rito. Somos o que somos pelo que foi excep√ß√£o dos que nos precederam. Mas o dia a dia n√£o √© espiritual,

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A Divinização do Utilitário

O grande conflito de hoje, no dom√≠nio socioecon√≥mico, por exemplo, e contra a previs√£o de um Marx, n√£o √© o que op√Ķe o Capital e o Trabalho, mas o que comanda a m√°quina e o que a serve (Fran√ßois Perroux). Mas o efeito mais vis√≠vel, porque mais extenso, da sua compacta presen√ßa, √© o que degrada os sonhos ao tang√≠vel e utilit√°rio que define a vituperada ¬ęsociedade de consumo¬Ľ. N√£o √© assim o √ļtil ou utili¬≠t√°rio que se condena: √© a sua diviniza√ß√£o. O que surpreende no mundo de hoje n√£o √© a sedu√ß√£o da comodidade, mas que ela esgote todas as sedu√ß√Ķes; n√£o √© o sonho de ¬ęviver bem¬Ľ, mas que s√≥ se viva bem com esse sonho. Decerto o viver bem foi sempre um sonho de quem teve por sorte o viver mal. Mas a realiza√ß√£o em massa dessa ambi√ß√£o instaura-se em plena for√ßa como modelo. E n√£o apenas por ser uma realiza√ß√£o em massa, mas porque aos ¬ęrespons√°veis¬Ľ nenhum valor se imp√Ķe para a esse imporem. O utilitarismo √© um valor negativo; mas con¬≠verte-se em positivo pela negatividade de quem poderia recus√°¬≠-lo. O que nos ¬ęirrespons√°veis¬Ľ √© uma ambi√ß√£o em positivo, √© nos ¬ęrespons√°veis¬Ľ uma aceita√ß√£o em negativo,

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Qual o Próximo Pretexto para o Holocausto ?

Vi o fim do fascismo. Foi bom. Vejo o fim do comunismo. √Č bom. E vi durante toda a vida como um e outro foram √ļteis para o √≥dio se cumprir. Mas finda a utilidade desses pretextos, que outro pretexto vai ser? Curamos os efeitos da doen√ßa, guardamos a doen√ßa para outra vez. √Č a reserva maior do homem, essa, a do mal, H√° o que lhe √© inevit√°vel, mas n√£o lhe basta. Cataclismos, trai√ß√Ķes do irm√£o corpo. N√£o chega. E a pr√≥pria morte, que √© a sua fatalidade, ele n√£o a desperdi√ßa e aproveita-a para ir matando mais cedo. Como a um animal do seu sustento. O homem. Que enormidade.

O Leitor Ideal

O grande sonho de todo o escritor – se o tiver – ser√° o de nunca encontrar o leitor ¬ęideal¬Ľ. Porque se o encontrasse, a sua obra morreria a√≠. Cada leitor, com efeito, recria a obra que l√™; e a perpetuidade de uma obra significar√° a sua perp√©tua recria√ß√£o. Uma obra √© o que √©, mais o que dela foram fazendo os seus leitores. Um ¬ęleitor¬Ľ ideal seria o que esgotasse todas as possiblidades dessa obra. Que haveria a fazer dela depois? Mas como conceber mesmo um leitor ¬ęideal¬Ľ? Pobre √© a obra cujas virtualidades o seu autor conhece antecipadamente. Eis porque √© banal dizer-se por exemplo que um S√≥focles ficaria surpreendido se soubesse o que n√≥s hoje lemos na sua obra. √Č que essa obra, porque √© grande, necessariamente o excedeu.

A Import√Ęncia de Dostoievski na Literatura

Os dois grandes monumentos do romance que o século passado (XIX) nos legou, ou seja aqueles em que poderemos reconhecer-nos, foram os erguidos por Tolstoi e por Dostoievski. Mas se a lição do primeiro foi facilmente assimilada, a do segundo levou tempo Рe tanto, que só hoje acabámos de entendê-la bem. Significa isto que Tolstoi, com incidências menores de moralização, continua um Balzac, é bem do século XIX. E foi por se pretender à força ligar a esse século também um Dostoievski que ele só tarde se nos revelou, para dominar ainda hoje, diga-se o que se disser, todo o romance europeu. Para usar uma expressão que já usei, não com inteira originalidade, e a que a crítica me ligou, direi que Tolstoi continua o romance-espectáculo e que Dostoievski inaugura o romance-problema.

Dir-se-ia, e com razão, que todo o romance é problema e espectáculo, já que o espectáculo resiste num romance de Kafka ou Dostoievski, e o problema implicita-se numa qualquer narrativa, nem que seja o Amadis de Gaula. Mas é tão visível a deslocação do acento na obra de Dostoievski, que ela foi defendida, para existir, pelo que lhe é inessencial (como por um Brunetière e recentemente um Ernst Fischer,

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O Dom da Simpatia

Ter o dom da simpatia. √Č das coisas que mais se invejam. Tem, como tudo, a sua t√©cnica, mas os efeitos s√£o sempre problem√°ticos. H√° o sujeito am√°vel, como o distante, o inteligente como o mediano, o modesto ou o vaidoso, o convincente como o retra√≠do, o ir√≥nico ou o s√©rio e assim por diante, com todas as qualidades que se quiserem e o seu contr√°rio. Num caso e noutro pode-se ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ ou ¬ęantip√°tico¬Ľ, captarmos os favores dos outros ou a sua repulsa. N√£o √© f√°cil determinar o que realmente decide de uma ades√£o. E se fosse simplesmente o ter-se ¬ępersonalidade¬Ľ? O assumir-se verticalmente aquilo que se √©? Isso ao menos imporia uma defer√™ncia ou ¬ęrespeito¬Ľ. Lembra-se uma frase de um antigo tragedi√≥grafo latino (√Ācio) – que nos odeiem desde que nos temam. N√£o √© evidentemente o caso aqui. Mas √© qualquer coisa de parecido: que se seja o que se for, desde que se assuma isso em responsabilidade. O resto s√£o apenas formas de ¬ęsimpatia¬Ľ, ou seja, do ¬ęsentir-se com¬Ľ. E de todas elas, a base delas – ou seja, a admira√ß√£o. Porque se n√£o tem simpatia se n√£o houver seja o que for de admira√ß√£o: tem-se apenas toler√Ęncia ou piedade.

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O Homem Não é o Indivíduo

¬ęN√£o √© a arranhar interminavelmente o indiv√≠duo que acabamos por encontrar o homem¬Ľ – diz algu√©m em certo livro do Malraux. Nada, de facto, mais √ļtil que a separa√ß√£o dos dois conceitos, que tanto tendem a confundir-se, mormente hoje, em que tal confus√£o parece agravar-se. Com efeito, o ¬ęhomem¬Ľ n√£o √© o ¬ęindiv√≠duo¬Ľ, porque √© s√≥ do indiv√≠duo aquela parte que pode universalizar-se. E √© desta ideia que temos de partir para que um equ√≠voco se n√£o consuma, o equ√≠voco de um individualismo, de um pessoalismo restrito que a arte e o pensamento modernos parecem √† primeira vista aceitar.
Que estranho ¬ęeu¬Ľ √© pois este que de algum modo dir-se-ia predominar na filosofia e na literatura de hoje? Porque √© evidente que uma forte tend√™ncia da arte de hoje, do homem actual, apela para a comunicabilidade, para uma fraternidade, e n√£o para um est√©ril isolamento. Mas acontece que nesse apelo muitas vezes se esquece o que h√° a√≠ de mec√Ęnico, de superficial, de rela√ß√Ķes externas, imediatas, provis√≥rias, que nos n√£o satisfaz inteiramente. O homem que a√≠ fala √© o que se ensurdece a si pr√≥prio, √†s suas vozes profundas, aos avisos que se anunciam desde o limiar da solid√£o.

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Viver pela Evidência

Creio que já falei disto. Mas de que é que diabo se não falou já? Se não falámos nós, falaram os outros, que também são gente. E no entanto, de cada vez se fala pela primeira vez, porque o que importa não é o que se sabe mas o que se vê. E ver é ver sempre de outra maneira para aquele que vê. Quantas vezes se falou da morte e da vida e do amor e de mil outras coisas sisudas? Mas volta-se sempre à mesma, porque o saber pela evidência é saber pela primeira vez; e uma dor que nos dói ou uma alegria que nos alegra não doeu nem alegrou senão a nós. De modo que de novo me intriga a extraordinária desproporção entre o complexo de uma vida e a coisa chilra que dela resulta.
Mesmo os grandes homens, que s√£o maiores do que n√≥s, que √© que nos deixaram em testamento? Um livro, uma ideia, uma f√≥rmula. E os que nada nos deixaram? Mas uma vida √© fant√°stica pelo que nela aconteceu. H√° assim um desperd√≠cio extraordin√°rio, uma pura perda do que se amealhou. Rela√ß√Ķes, sentimentos, projectos, ac√ß√Ķes correntes que foram desencadear mil efeitos maus ou √ļteis.

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Questionação do Inquestionável

Toda a pergunta implica uma interrogação a um olhar vigilante. Mas a vigília cansa. Nunca porém o soubemos como hoje, porque só hoje verdadeiramente interrogamos Рsó hoje sabemos ser essa a questionação do inquestionável.
Mas reconhecemo-lo precisamente por termos interrogado. Porque ao longo da Hist√≥ria, jamais o homem de facto interrogou, por n√£o saber que interrogava. Esbo√ßada embora h√° muito a quest√£o do fundamental, ela perturbou-se-nos no entusiasmo de lhe responder em positivo ou negativo. Porque a nega√ß√£o n√£o nega, a destrui√ß√£o n√£o destr√≥i, excepto se n√£o h√° mais nada para destruir: at√© l√° constr√≥i ainda – nem que seja o pr√≥prio acto de destruir. Fazer e desfazer, com efeito, s√£o iguais como acto e entusiasmo desse acto. A grande diferen√ßa n√£o √© a que separa um do outro, mas a que os separa a ambos de n√≥s. A grande diferen√ßa √© a que vai da seguran√ßa do falar √† perturba√ß√£o do sil√™ncio; do ¬ęsim¬Ľ ou ¬ęn√£o¬Ľ como limite, ao querer ir al√©m do limite sem mais al√©m para ir. Mas a luz que ilumina, o que iluminou? Que a ci√™ncia te explique o que √© uma simples pedra, explicou por cima do que seria interessante explicar. H√° uma quest√£o ainda,

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Uma Significação para a Vida

Como √© que o homem vai viver sem uma significa√ß√£o para a vida? Donde essa significa√ß√£o? Os suced√Ęneos dos deuses atropelam-se tumultuosos, mas duram menos que os deuses, duram menos que um homem. Imaginei um dia que o homem viria a aceitar a sua condi√ß√£o em plenitude. S√≥ n√£o imagino esse homem. Porque imaginando-o como me √© poss√≠vel, penso que admitir√° uma transcend√™ncia inomin√°vel, uma dimens√£o que supere o imediato da vida. S√≥ que o pens√°-lo n√£o me afecta o sentir. Tenho o enigma mas n√£o a chave que o desvende. Sei a interroga√ß√£o, mas n√£o posso convert√™-la na pergunta a que se d√° uma resposta. Da integra√ß√£o do homem no mist√©rio do universo o que me fica √© a vertigem. Mas aguento-me a√≠ sem me retirar do abismo nem cair nele. O curioso √© que s√£o os ¬ęracionalistas¬Ľ quem menos se perturba com a sem-raz√£o de tudo isto. Porque eles √© que deviam saber, mais do que os outros, o porqu√™ e o para qu√™. N√£o querem. O mundo existe-lhes assim mesmo, sem significa√ß√£o. Para mim me existe tamb√©m. Mas isso aturde-me. A velhice que se anuncia, anuncia-me a aceita√ß√£o e a serenidade. Mas n√£o me anuncia a liquida√ß√£o do problema.

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A Fonte do Interesse

E de vez em quando √© assim: vivo numa suspens√£o de tudo, de interesses, de leituras, de escrita. Possivelmente √© um erro supor-se que um interesse, seja qual for, reside nisso mesmo em que se est√° interessado. N√£o est√°. Um interesse remete sempre para outro e outro, at√© ao interesse final que tem que ver com a pr√≥pria vida, o motivo global que nos impulsiona. H√° pelo menos que haver uma raz√£o final e gen√©rica para que as raz√Ķes circunstanciais ou ocasionais tenham um efeito propulsor. H√° que termos essa raz√£o, mesmo inconsciente, para que todas as outras actuem em n√≥s. E o que n√£o acontece quando por exemplo dizemos que estamos sem interesse. N√£o nos apetece ler, n√£o nos apetece escrever, n√£o nos apetece ir ao cinema, ouvir m√ļsica etc, quando falta uma raz√£o global em que isso se inscreva. E ent√£o dizemos sumariamente isso mesmo: que n√£o nos apetece. Se temos um grande desgosto, se estamos condenados por uma doen√ßa etc. justifica-se o desinteresse por essa raz√£o. Significa isso que essa raz√£o √© o fundamento global que nos falhou para qualquer outro interesse subsistir. Os que superam esse estado s√£o excepcionais, ou loucos ou de for√ßa de vontade ou obsessivos,

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